Biografias: o zero e o cifrão

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No “Saia justa”, convidada para falar sobre a questão das biografias não autorizadas, Paula Lavigne discutiu com Barbara Gancia.

A jornalista, que na semana passada chamou Paula de “oportunista” e “gananciosa” em sua coluna, na “Folha de S. Paulo”, teve sua opção sexual lembrada pela empresária.

Tudo começou quando veio à tona o assunto “invasão de privacidade”.

“Barbara, você é gay assumida, né?”, pergunta Paula. Barbara diz que sim. E ela: “Qual o nome da sua namorada?”. Assim que ouve a resposta (“Marcela”), Paula diz: “Ela não vai se sentir bem vendo eu perguntar isso, é disso que estou falando, você não está entendendo na teoria e agora viu na prática como é ruim ter a privacidade invadida!”.

Paula Gancia devia ter devolvido a resposta.

Escreve Luciano Martins: “O movimento Procure Saber tem à frente a empresária e produtora Paula Lavigne, ex-mulher de Caetano e apontada publicamente como personagem mais versada em finanças que em arte. Lavigne lidera uma campanha contra a comercialização de biografias não autorizadas, o que, na prática, significa eliminar a biografia da relação de gêneros literários praticados no Brasil.

Sensatamente, biógrafos e outros autores e jornalistas ponderam que uma biografia autorizada não passaria de um press-release em formato de livro, e que para tal o biografado deveria contratar uma assessoria de relações públicas.

O artigo de Chico Buarque encaminha a discussão para outra questão, bem mais complexa: o equilíbrio entre liberdade de expressão e responsabilidade, o que envolve diretamente a imprensa no imbroglio.

O gênero biografia nunca foi muito popular no Brasil, mas vem ganhando terreno com as transformações da indústria cultural. O culto às celebridades estimula não apenas as produções de filmes e vídeos sobre pessoas famosas, mas acaba chegando ao mercado editorial. Até pouco mais de duas décadas, esse gênero se limitava a meia dúzia de especialistas com carreiras consolidadas como biógrafos, entre eles Fernando Morais, Moacir Werneck de Castro, Ruy Castro e Francisco de Assis Ângelo.

No meio da barafunda em que se transformou o debate, que alcançou elevada temperatura nas redes sociais, cabe aqui ao observador pontuar o que concerne à imprensa nesse litígio“.

 Vários músicos que não merecem uma biografia estão entrando no debate. Comentam Juliana Gragnani e Paulo Werneck: “Tudo o que se usa, paga’, diz o sambista Wilson das Neves. ‘É até bom um dinheiro que entra na conta. Só estou esperando a minha vez.’O compositor Pedro Luís defende a iniciativa: ‘Todo mundo que é ingrediente do sucesso deve ser remunerado. Quem faz a revisão, a capa, não é remunerado? E o assunto do produto, não?’.’É justa a reivindicação‘, diz o roqueiro Nasi, que recebe 10% do preço de capa de sua biografia, ‘A Ira de Nasi’ (Belas Letras), de Mauro Beting. ‘Você está explorando a história e a imagem de alguém. É como se eu deixasse de receber por uma música minha gravada por outro.”

Carlos Albuquerque e Leonardo Lichote mostram que nem todos artistas defendem esta ‘caixinha, obrigado!: “O compositor Alceu Valença escreveu um texto, em sua página no Facebook, em que defende a liberdade da expressão como valor ‘que deveria estar na frente de qualquer questão’. Antonio Cicero, Aldir Blanc e Nana Caymmi também se colocaram a favor de que biografias não autorizadas sejam produzidas livremente.

– Isso é um absurdo – ataca Nana Caymmi. – Sempre fui a favor da liberdade, desde o episódio da biografia de Garrincha, do Roberto Carlos. Se você quer ser artista, sua vida se torna pública. Proibir biografias é falta do que fazer, vem da invenção da máquina de lavar. (Os artistas que são contra biografias não autorizadas) Estão todos velhos, deveriam se sentir honrados por ter gente interessada na vida delas. É uma ignorância proibir quando nossa juventude precisa conhecer seus ídolos. Não tem porque esconder nada, a não ser que estejam envolvidos com tráfico de drogas, de mulheres, de órgãos, de crianças, e a gente não saiba.

Nana é crítica também com relação à sugestão de que artistas ganhem algum tipo de remuneração por terem suas vidas como tema de um livro (o cantor Djavan justificou em artigo que ‘editores e biógrafos ganham fortunas enquanto aos biografados resta o ônus do sofrimento e da indignação’):

– Quem enriquece com livro no Brasil? O negócio é que, onde tem dinheiro envolvido, essa turma está atrás. Tenho amigos como Sérgio Cabral, Ruy Castro que vivem disso, não é assim.

O compositor Aldir Blanc também se manifesta sobre o tema:

– Sou inteiramente a favor da liberdade de biografias, e contra todo e qualquer tipo de censura – diz. – Quem se sentir caluniado que processe o biógrafo. A liberdade de expressão vem em primeiro lugar.

(…) O debate gerou também uma iniciativa irreverente e inusitada. No Facebook, um grupo criou uma página que se propõe a fazer  ‘a mais pirata e coletiva biografia não autorizada de Caetano Veloso’. O espaço, que já tem mais de 1,3 mil curtidas, recebe colaborações de usuários. Eles enviam links de matérias, fotos e outros conteúdos que, um por um, costuram a vida do célebre cantor e compositor baiano.

– Não criamos a página para tirar sarro do Caetano. Queremos reconstruir a vida dele e lançar uma biografia não autorizada em forma de e-book gratuito – explica Ricardo Giassetti, que criou o espaço com Danilo Corci, seu sócio na editora MojoBooks. – Estamos recebendo centenas de mensagens de colaboração e fazendo a curadoria do que entra na timeline”.

Publicado por

Talis Andrade

Jornalista, professor universitário, poeta (13 livros publicados)

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