Os evangélicos do asfalto e a eterna presença da irmãzinha Genoveva

Genoveva, irmãzinha de Jesus
Genoveva, irmãzinha de Jesus

 

Vou transcrever trechos de pesquisa de Júlia Adão Bernardes – Modernização: A Lógica do Capital e  o Direito dos Excluídos – para a louvação da irmã, irmãzinha Veva, Genoveva que, no Mato Grosso, fez crescer e multiplicar pessoas, enfrentando o apartheid indígena.

Introdução

Mato Grosso constitui um laboratório onde as experiências de ino- vações, vinculadas a mudanças no atual paradigma técnico-científico, indicam determinado rumo. Contudo, tais experiências não podem ser consideradas como um modelo acabado, porque isso significaria ignorar as especificidades históricas, econômicas, culturais e espaciais que não podem ser transplantadas para outra realidade.

O presente trabalho está voltado para a compreensão de algumas dessas experiências que resultam na constituição dos novos espaços pro- dutivos, buscando apreender as novas formas de organização da sociedade e as relações emergentes, onde vão se instituindo processos que envolvem a implantação e a articulação de atividades modernas, impulsionados pela dinâmica de reprodução do capital, significando novas possibilidades de uso do território no cerrado.

Trata da expansão da empresa capitalista na área de influência da BR- 158, de como se constituiu nos anos 70 uma nova fronteira da agricultura moderna na porção sul desse corredor de exportação e, na parte norte, de como se deu a implantação dos grandes projetos agropecuários, procuran- do identificar as contradições que essa expansão envolvia, assim como as distintas visões de modernidade e os valores subjacentes às mesmas.

Aborda, também, o movimento de disseminação recente da empresa capitalista na parte norte do eixo da BR-158, favorecida por uma nova logística de escoamento da produção na direção sul/norte, buscando analisar como o capital avança sempre associado à propriedade da terra, identificando as possibilidades e dificuldades dos pequenos produtores agrícolas, assentados, posseiros e trabalhadores rurais face ao novo pro- cesso de imposição de novos usos ao território usado.

Captar o fenômeno de expansão da agricultura moderna significa perceber a substituição de atividades menos rentáveis por outras mais lucrativas, a concentração e a centralização da terra e do capital e, conse- qüentemente, do poder, o agravamento da inviabilidade dos pequenos pro- dutores agrícolas sobreviventes na área, o aumento do trabalho temporário e da precarização do mesmo, os problemas de ordem ambiental, significa ver o território para a ação política, o que exige lê-lo como totalidade.

A irmã Genoveva na Amazônia
A irmã Genoveva na Amazônia

Progresso e atraso, moderno e tradicional

Comecemos com a exposição de três fatos importantes percebidos no trabalho de campo, no Vale do Araguaia, em julho de 2007. Em nos- sas incursões na BR-158 mato-grossense um dos aspectos que primeiro atraiu a atenção dos pesquisadores foi a diversidade de situações no que concerne ao uso do território e à organização dos grupos sociais, os quais apresentavam distintos níveis de complexidade, combinando processo histórico, exploração da terra e organização social de diferentes formas, em sua face visível.

Enquanto na parte sul domina o modelo sócio-econômico agroin- dustrial moderno, na porção norte esse estágio ainda não foi alcançado, predominando a pecuária extensiva e formas tradicionais de uso da terra. Foi exatamente nesta última que aconteceram as lutas populares no campo nos anos 70, no contexto da ditadura militar, lideradas pela igreja católica que atuava na linha da teologia da libertação, irradiados a partir da prelazia de São Félix do Araguaia, onde se destacava a figura do bispo Dom Pedro Casaldáliga. Tais movimentos eclodiram para apoiar os posseiros expulsos de suas terras devido à implantação de grandes projetos agropecuários na região. No processo de resistência, lideranças locais emergiram e novas foram forjadas nas lutas, deixando marcas que permanecem de distintas formas até os dias atuais. Este constituiu o primeiro aspecto marcante da pesquisa de campo.

Um segundo fato diz respeito à entrevista realizada no município de Santa Terezinha, na tribo Tapirapé, um povo do grupo tupi que vive às margens do rio Tapirapé, com uma Irmãzinha de Jesus, a qual, juntamente com outras duas Irmãzinhas, desde 1952 vive na região do Araguaia, junto desse grupo indígena. A irmã Genoveva nos contou que escolheram os Tapirapé porque na época estavam doentes e desnutridos, perdendo as terras, eram apenas cinquenta e se encontravam ameaçados de extinção face às incursões dos Kayapó. Permaneceram com eles não para catequizá- los, mas para ficar ao seu lado, simplesmente para mostrar-lhes que eles eram importantes, que tinham valor.

Nesses quase 50 anos de permanência, trataram de suas doenças, já que uma Irmãzinha era enfermeira, os Tapirapé recuperaram suas terras, a auto estima, muitos estudaram fora, e hoje são aproximadamente oito- centos. No livro “O renascer do Povo Tapirapé”, diário das Irmãzinhas de Jesus, Beozzo (2002, p.13) assinala que o que há de singular na ida das Irmãzinhas ao Tapirapé é “sua atitude de aprendizado e convivência”, é “a escolha dos meios pobres”, passando a morar como eles, aprendendo com as crianças e jovens o idioma e as formas de sobrevivência na mata.

Um terceiro fato relaciona-se à entrevista realizada com o colonizador da região, ao fim daquela viagem, o pastor luterano alemão Ênio Schwantes, um dos responsáveis pela expansão do agronegócio nos anos 80. Após relatos sobre como se deu o processo de colonização da área, o avanço da agricultura moderna, as dificuldades e os desafios, o pastor Schwantes finalizou, afirmando: “Aqui nós trouxemos o progresso, trouxemos asfalto, técnica, máquinas, soja, cidades modernas. Aquele lá em cima, o Pedro Casaldáliga, o que trouxe? Nada. Lá tudo continua no mesmo”. Essas são as três narrativas das quais fui testemunha. Leia mais

 

Fraternidade das Irmãzinhas de Jesus e Pedro
Fraternidade das Irmãzinhas de Jesus e Pedro Casaldáliga

 

Publicado por

Talis Andrade

Jornalista, professor universitário, poeta (13 livros publicados)

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