Brasileiros que estudam no Japão relatam perseguições de colegas e professores

A palavra japonesa “ijime”, o mesmo que “bullying” em inglês, é uma das primeiras a entrar para o vocabulário dos brasileiros que chegam ao Japão para trabalhar. As histórias de maus-tratos contra estrangeiros nas escolas, oriundas da rejeição à diferença, correm a comunidade, que hoje tem cerca de 200 mil pessoas, mas já chegou a picos de quase 400 mil. Nos casos mais comuns, as crianças ouvem ofensas como “Caia fora do Japão! Vá embora pro Brasil!”. Qualquer coisa pode ser motivo para gozação – desde falar japonês com sotaque até ter hábitos alimentares diferentes.

Alunos na escola primária de Honkawa: cerca de dez mil estudantes brasileiros estão matriculados nas escolas públicas japonesas
Alunos na escola primária de Honkawa: cerca de dez mil estudantes brasileiros estão matriculados nas escolas públicas japonesas

por Thiago Minami

 

Era uma data especial na escola de Akiko Uehara, 12, em Kiryu, interior do Japão. Os pais visitavam seus filhos no 5º ano do ensino fundamental para acompanhar o dia a dia da sala de aula, numa das atividades mais esperadas pelos alunos japoneses de todo o país. Até que entrou a mãe de Akiko e o burburinho começou: “olha só, uma ””gaijin””!”. A palavra pejorativa, que significa “estrangeiro”, marcava a origem filipina da mãe de Akiko. Começava ali uma série de perseguições e ofensas contra a menina por alguns dos colegas.

Cerca de um ano depois, no dia 23 de outubro de 2010, Akiko enforcou-se. Os pais decidiram levar o caso a público para evidenciar uma falha grave de um sistema educacional conhecido mundo afora justamente pela competência. A inabilidade para lidar com a diferença gera rejeição aos estudantes estrangeiros por parte dos colegas e, muitas vezes, pressão dos próprios educadores em relação aos alunos imigrantes.

Problema comum
Este é um problema frequente na vida dos cerca de dez mil estudantes brasileiros matriculados nas escolas públicas do país (o maior grupo, seguido por chineses e filipinos). “Quando eu era criança, o diretor chamou meu pai na escola para falar sobre o meu cabelo cacheado. Ele queria que eu alisasse para ficar igual ao das outras crianças”, conta Daiane Oshiro, 25, que cursou o ensino básico e universitário no Japão. Nos países do leste asiático, que incluem também Coreia e China, a sociedade costuma colocar o grupo à frente do indivíduo – de acordo com o pensamento confucionista, trata-se de uma garantia de harmonia social. O lado negativo é que há pouco espaço para o diferente, atitude que acaba corroborada pelo sistema educacional.

Alunos japoneses com algum traço diferente também sofrem. Estar acima do peso ou ter algum problema de saúde evidente são causas comuns para o bullying. Em 2012, o Ministério da Educação registrou 70 mil casos em todo o país. Muitas histórias, no entanto, são mantidas em silêncio por vergonha ou medo de retaliação. Em geral, os nipônicos evitam a exposição pública a qualquer custo, o que leva muitos jovens a sofrerem calados. Outros casos, como o de Akiko, tornam-se públicos pelo fim trágico.  Em 2009, um estudante de 14 anos, que sofria de problemas alérgicos, suicidou-se ateando fogo ao próprio corpo após ser perseguido pelos colegas.

Violência “educativa”
Há ocasiões em que os próprios educadores causam a humilhação – o que foge à esfera do bullying ou ijime, referente apenas à agressão entre pares. Em 2012, na antevéspera do Natal, um garoto de 17 anos, em Osaka, enforcou-se após levar tapas na cara do treinador de basquete. Muitas agressões assim por parte de professores ainda hoje não são associadas pelos educadores a atos de violência, consideradas medidas de caráter educativo – em outras palavras, acredita-se estar fazendo um bem para o aluno. Continue lendo

 

 

Publicado por

Talis Andrade

Jornalista, professor universitário, poeta (13 livros publicados)

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