Que venha o próximo embate de Noelia Brito

por André Duarte

Noelia Brito
Noelia Brito

Uma baixinha polêmica e determinada vem chamando atenção nas redes sociais e nas recentes manifestações populares. Aos 44 anos, a procuradora do Recife Noelia Brito provoca os órgãos de fiscalização quando fareja irregularidades, faz denúncias via Facebook, compra briga com autoridades e coleciona admiradores na mesma proporção que desafetos

Do bairro do Coque, no Recife, ao parque do Cocó, em Fortaleza, Noelia Brito coleciona uma infinidade de bandeiras que ela prefere agrupar numa única amarração. Costurando denúncias, processos judiciais, passeatas, audiências, #ocupes, discursos, postagens polêmicas na internet ou qualquer outra forma de munição legal disponível no coldre, a cearense de 44 anos tomou parte de um combate para poucos: move ações contra políticos, gestores e instituições, compra brigas com autoridades locais, acumulando desafetos e admiradores. Com o mesmo vigor que ataca o que acha errado, é também um alvo em potencial: já foi processada e tem a conduta questionada por um bom punhado de inimigos ou por gente que pouco a conhece.

Tem sido assim desde 1996, quando entrou pela primeira vez no elevador da Prefeitura do Recife como procuradora concursada do município. Em mais de 15 anos como advogada da cidade, perdeu as contas de quantas causas encampou fora do expediente. “Na procuradoria, passei a ver de perto os problemas do Recife. Isso começou a mexer muito comigo. Não dá pra você ficar passivo vendo certas coisas. Muita gente consegue, mas eu não. Quando me deparo com as irregularidades, me sinto na obrigação de tomar atitudes”.

Resolveu investigar por conta própria os casos que não tinham vínculo com o seu cargo. Fuçando informações cabeludas de caráter público que chegavam aos seus ouvidos, quase sempre lançava mão do Diário Oficial como guia de caça de licitações, contratos, convênios e outras canetadas que ela farejava como atos suspeitos.

Cada vez mais envolvida com os problemas locais e identificada com a história de revoluções da nova terra, a baixinha (1,60 m) nascida em Fortaleza entrou no front cotidiano dispensando a carteirada para sacar a credencial de cidadã. Em documentos protocolados com o próprio nome, sem o carimbo de procuradora, provoca os órgãos de fiscalização do estado, com predileção pelo Ministério Público e Tribunal de Contas, a se debruçar na papelada que ajudou a apurar.

Na falta de ações efetivas, Noelia não pensa duas vezes antes de semear suas desconfianças aos quatro cantos por meio da imprensa ou da própria internet, seja no blog pessoal ou no seu perfil do Facebook. “O que eu faço qualquer pessoa pode fazer. Divulgo informação pública. Tem gente que acha que eu tenho informações privilegiadas, mas não tenho”, garante, acrescentando minutos depois que costuma “pagar muito caro” pela postura.

Acumulou um portfólio robusto de acusações que, em algum nível, projetou-a num vespeiro complicado. Entre os alvos, antigos prefeitos e secretários jurídicos — a rigor, chefes que, muitas vezes, estão na mira de suas inquietações. “Há uma certa confusão. Procurador do município é uma coisa. Advogado da gestão é outra. Meu cliente é o município. O procurador, inclusive, tem o dever de proteger o município do prefeito. Se, por acaso, um prefeito estiver lesando o município, que é o meu cliente, eu tenho a obrigação de denunciá-lo”.

A coleção de brigas judiciais cresceu à medida em que era chamada para entrincheirar-se em outras frentes. Participou das últimas mobilizações pela permanência dos moradores do Coque no bairro e ajudou na resistência contra a construção de viadutos no parque do Cocó, em Fortaleza, recebendo os manifestantes cearenses em audiências da Justiça Federal realizadas no Recife.
Bem antes disso, pediu a apuração de dados que julgou suspeitos, alguns reverberados em tom de denúncia, enquanto outros nunca foram adiante. A lista espinhosa inclui temas como os fundos Municipal da Saúde e da Dívida Ativa do Município, os supostos tentáculos do bicheiro Carlinhos Cachoeira em obras locais, o pagamento de estabilidade financeira aos vereadores da capital, os supostos desvios de finalidade na aplicação dos recursos do Reciprev (autarquia de previdência social da PCR).

Noelia sabe dos rebuliços que vem provocando, e por isso já não passa mais incólume ao percorrer os corredores da sede municipal. “Já fui abordada na rua e até na escadaria da prefeitura por pessoas que não conhecia e que queriam me encaminhar denúncias. Às vezes, me mandam coisas sem nexo nenhum”.

radical, sim

Noelia acorda às 5h, lê todos os jornais locais e depois mergulha nas mídias sociais para compartilhar e discutir as notícias. Quando não tem audiência marcada em algum fórum, bate ponto no terceiro andar da prefeitura, onde divide uma sala ampla, sem divisórias, com mais de 60 colegas. Das quatro procuradorias internas, trabalha na divisão Judicial, que abrange todas as ações envolvendo o município, menos as tributárias.

Já foi a manda-chuva da procuradoria municipal da Fazenda, mas resolveu entregar o cargo após o clima ter azedado com um ex-secretário processado por ela — algo que considera normal. “Eu tenho inimigos e tenho amigos. Isso é comum em qualquer ambiente de trabalho. Há interesses que eu contrario. Não que seja um prazer, mas ter inimigos é consequência natural de você ter uma atitude positiva na vida. Quem não tem inimigos é porque está tendo uma postura de não tomar partido, de não tomar posição na vida”. Maria Helena Duarte, colega de Noelia na procuradora do município, dá seu parecer sobre a amiga: “Em muitos casos, ela supre a ineficiência dos órgãos oficiais de fiscalização ou então faz o que os políticos deveriam fazer. Mas nada disso é forçado. Ela guarda esse espírito público o tempo todo”.

Logo após conversar com a Aurora, Noelia Brito tinha como meta checar pelo menos duas informações antes de denunciá-las. Na semana seguinte, reproduziu um e-mail recebido por um desconhecido, cujo conteúdo considerou uma ameaça a ela e à mãe. Prometeu procurar a Polícia e exigir esclarecimento do caso. Três dias depois, outro compromisso agendado: comparecer à Delegacia de Santo Amaro como advogada voluntária de um rapaz, que alegou ter recebido uma intimação por participar dos protestos de rua do último dia 21 de agosto, no Recife. Tudo gravado ou relatado no Facebook, menos uma reflexão de última hora na entrevista: “Considerando o significado de radical como tudo aquilo que vai até as raízes, eu me identifico com isso”. Transcrevi trechos 

 

 

 

Publicado por

Talis Andrade

Jornalista, professor universitário, poeta (13 livros publicados)

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