Síria. De toda a terra um grito de paz

“Eleve-se forte em toda a terra o grito da paz!”. Repetiu o Papa Francisco aos numerosíssimos fiéis que apinharam a praça de São Pedro na quarta-feira de manhã, 4 de Setembro.

O Papa Francisco lançou neste sábado um vibrante apelo para que todos “trabalhem pela paz e a reconciliação” para pôr fim à guerra, “que é sempre uma derrota para a humanidade”, durante uma vigília de jejum e orações pela paz na Síria.

“A guerra é sempre uma derrota para a humanidade”, afirmou o santo padre diante de 70.000 pessoas do mundo todo reunidas na Praça de São Pedro.

“Na querida nação Síria, no Oriente Médio, em todo o mundo, rezemos pela reconciliação e a paz, trabalhemos pela reconciliação e a paz”, afirmou Francisco, calorosamente aplaudido pelos fieis.

“Quando o homem só pensa em si mesmo, em seus próprios interesses, quando ele é seduzido pelos ídolos da dominação e do poder, quando ele se coloca no lugar de Deus, ele arruína todas as relações, ele arruína tudo. E isso abre as portas para a violência “, afirmou, em uma longa meditação sobre a “bondade da criação de Deus e o caos que provoca a violência entre irmãos”. Ele voltou, assim, ao tema da primeira missa de seu pontificado: o homem é chamado a ser “o guardião de seu irmão e da criação”.

“A violência e a guerra são a linguagem da morte! Eu vos pergunto: É possível ir por outro caminho? Podemos aprender a andar novamente e os caminhos da paz?”

“Esta noite, gostaria que em, todas as partes da Terra, gritássemos: sim é possível! Ou melhor, gostaria que cada um de vocês respondesse: sim, nós queremos!”, afirmou.

Por iniciativa da Igreja Católica, cristãos, muçulmanos, budistas, ateus e pessoas não religiosas foram convocados neste sábado a uma jornada mundial de jejum e orações contra uma intervenção armada na Síria.

“A paz é um bem que supera qualquer barreira, porque é um bem de toda a Humanidade”, publicou o Papa no Twitter nesta sexta-feira.

Às 14H00 de Brasília, teve início a vigília na Praça de São Pedro, que irá até as 18h00, alternando momentos de oração e silêncio.

“Que se eleve forte em toda a Terra o grito da paz!”, exclamou na quarta-feira o Papa, para convocar 1,2 bilhão de cristãos, fieis de outras religiões e ateus a refletir sobre a paz na Síria.

Francisco, que enviou uma carta à cúpula do G20 em São Petersburgo, se opõe à intervenção militar na Síria prevista pelos Estados Unidos e França, já que considera que isso irá piorar o massacre, aumentar o ódio, e não poderá ser uma ação limitada.

“Ouvimos esta voz procedente do mundo inteiro e nos emocionamos com esta corrente de solidariedade iniciada pelo Papa”, comentou, por telefone, falando ao canal Sky TG24, o núncio apostólico em Damasco, monsenhor Mario Zenari.

Zenari compareceu à catedral melquita para um vigília de oração ecumênica que reuniu também ortodoxos e muçulmanos.

Mais de mil cristãos sírios se juntaram em oração em uma igreja de Damasco.

A missa foi celebrada na Catedral da Dormição de Nossa Senhora, sede do arcebispado greco-católico melquita, em Bab Charqi, Cidade Velha de Damasco.

“Que Deus proteja a Síria”, cantaram os fiéis durante a missa, celebrada pelo patriarca católico melquita Gregorio III Laham.

A convocação papal teve especial repercussão no Oriente Médio, onde os patriarcas, geralmente rivais entre si, se uniram na preocupação com as consequências de uma propagação da guerra e ascensão islamita.

O patriarca de Constantinopla, Bartolomeu, apoiou a iniciativa do Papa, asim como o grande mufti Ahmad Badredin Hassun, líder do islã sunita na Síria, que pediu aos fieis que se unam à oração do Papa.

O patriarca maronita, Beshara Butros Rai, conduzirá uma oração na Basílica de Nossa Senhora do Líbano, em Harissa, norte de Beirute.

O vice-presidente do Alto Conselho xiita do Líbano, xeque Abdel Amir Qabalan, respondeu favoravelmente ao apelo de Francisco.

O patriarca de Antioquia e do Oriente para os greco-católicos, Gregório Laham, convocou todos os fieis ao jejum, e pediu que os religiosos abram as igrejas para as orações.

O cardeal brasileiro Dom João Braz de Aviz, presidente do Conselho Pontifício para as Ordens Religiosas masculinas e femininas nos cinco continentes, também pediu para que os fieis respondam maciçamente à convocação.

Muitos grupos de não religiosos, como o Partido Radical Italiano, anticlerical, e o pequeno partido de extrema esquerda SEL, apoiaram a iniciativa de Francisco, e o prefeito de esquerda de Roma, Ignazio Marino, comparecerá à Praça de São Pedro. (AFP)

Diante de Deus e diante da história

GIOVANNI MARIA VIAN

“Nunca mais a guerra! Nunca mais a guerra!”: retomando antes da oração do Angelus e depois twitando a invocação de Paulo VI diante das Nações unidas, o Papa Francisco fez-se intérprete de um grito que – quis recordar – se eleva “da única grande família que é a humanidade”, sem distinções. É fácil e amarga a constatação de que nem todos no mundo querem e constroem a paz, mas certamente a aspiração pela paz está difundida em toda a parte, face aos conflitos muitas vezes esquecidos. Como agora, e cada vez mais, diante da tragédia que há mais de dois anos na Síria fez dezenas de milhares de vítimas, sobretudo civis, causando fluxos imponentes e crescentes de refugiados desesperados.
Por isso mais uma vez a voz do bispo de Roma – que se disse ferido por quanto está a acontecer e sobretudo “angustiado pelo dramático andamento que se perspectiva” – eleva-se com força para condenar o uso das armas, e “com particular firmeza” o emprego das armas químicas: “Digo-vos que tenho ainda gravadas na mente e no coração as terríveis imagens dos dias passados!” exclamou o Papa Francisco, que logo a seguir pronunciou palavras severas, sobre as quais os responsáveis das nações têm o dever de reflectir: “Há um juízo de Deus e também um juízo da história sobre as nossas acções, aos quais não podemos escapar!”.
Toda a intervenção do Pontífice foi dedicada à situação internacional, um cenário no qual há demasiado tempo e sem trégua se multiplicam os conflitos, mas que nestas semanas está cada vez mais marcado pelo exacerbar-se feroz da tragédia síria. Por conseguinte, num contexto muito preocupante e com desenvolvimentos imprevisíveis o Papa Francisco repete que é indispensável e urgente abandonar a cultura do confronto e do conflito: de facto, o que constrói a convivência nos povos e entre os povos é “a cultura do encontro, a cultura do diálogo; esta é o único caminho para a paz”, que a Santa Sé indica e pelo qual a sua diplomacia está a trabalhar de todas as formas possíveis.
As palavras do bispo de Roma dirigem-se explicitamente às partes em conflito e à comunidade internacional, mas é ainda mais significativa a chamada às palavras de João XXIII sobre a paz, isto é, que “todos têm a tarefa de recompor as relações de convivência na justiça e no amor”. O Papa Francisco pede portanto que o compromisso pela paz “una todos os homens e mulheres de boa vontade”, católicos, cristãos, pertencentes a todas as religiões e também “os irmãos e irmãs que não crêem”. E precisamente por isso o Pontífice alarga a todos o convite para o dia de jejum e de oração pela paz na Síria, no Médio Oriente e no mundo, que convocou com uma iniciativa sem precedentes, suscitando interesse e adesões muito além da Igreja católica.

 (L’Osservatore Romano)

Vã a pretensão de uma solução militar

Os chefes dos Estados do G20 tomem consciência  que é vã a pretensão de uma solução militar da crise da Síria. Escreve o Papa Francisco ao presidente da Federação Russa Vladimir Putin, numa carta que lhe foi enviada por ocasião da reunião em São Petersburgo. A visão da Santa Sé sobre o Futuro da martirizada população síria foi apresentada ao corpo diplomático acreditado, pelo arcebispo Mamberti esta manhã, quinta-feira 5 de Setembro, no Vaticano.

stemmapapafrancesco

A Sua Excelência

Sr. Vladimir PUTIN

Presidente da Federação Russa

No ano que está a decorrer, Vossa Excelência tem a honra e a responsabilidade de presidir ao Grupo das vinte maiores economias mundiais. Estou ciente de que a Federação Russa participou  neste Grupo desde a sua criação e desempenhou sempre um papel positivo na promoção da governabilidade das finanças mundiais profundamente atingidas pela crise que teve início em 2008.

O contexto actual, altamente interdependente, exige uma moldura financeira mundial, com regras justas e claras próprias, para conseguir um mundo mais equitativo e solidário, no qual seja possível eliminar a fome,  oferecer a todos um trabalho digno, uma habitação decorosa e a necessária assistência no campo da saúde. A sua presidência do G20 para o ano que está a decorrer assumiu o compromisso de consolidar  a reforma das organizações financeiras internacionais e de chegar a um consenso sobre os stardards financeiros adequados às actuais circunstâncias. Não obstante, a economia mundial poderá desenvolver-se realmente na medida em que for capaz de permitir uma vida digna a todos os seres humanos, desde os mais idosos até às crianças ainda no seio materno, não só aos cidadãos dos países membros do G20, mas a cada habitante da Terra, até a quantos se encontram nas situações sociais mais difíceis ou nos lugares mais longínquos.

Nesta óptica, torna-se claro que na vida dos povos os conflitos armados constituem sempre a deliberada negação de qualquer concórdia internacional possível, originando divisões profundas e dilacerantes feridas que necessitam de muitos anos para se curarem. As guerras constituem a rejeição prática de se comprometer para alcançar aquelas grandes metas económicas e sociais que a comunidade internacional estabeleceu, tais como, por exemplo, o Millenium development Goals. Infelizmente, os demasiados conflitos armados que ainda hoje afligem o mundo apresentam-nos, todos os dias, uma dramática imagem de miséria, fome, doenças e morte. Com efeito, sem paz não há qualquer tipo de desenvolvimento económico. A violência nunca leva à paz, condição necessária para este desenvolvimento.

O encontro dos Chefes de Estado e de Governo das vinte maiores economias, que representam dois terços da população e 90% do PIB mundial, não tem a segurança internacional como sua finalidade principal. Contudo, não poderá prescindir de reflectir sobre a situação no Médio Oriente e em particular na Síria. Infelizmente, é doloroso constatar que demasiados interesses particulares prevaleceram desde quando teve início o conflito sírio, impedindo que fosse encontrada uma solução que evitasse o inútil massacre ao qual estamos a assistir. Os líderes dos Estados do G20 não permaneçam inertes face aos dramas que já vive há demasiado tempo a amada população síria e que correm o risco de causar novos sofrimentos a uma região tão provada e necessitada de paz. A todos eles, e a cada um deles, dirijo um sentido apelo para que ajudem a encontrar caminhos para superar as diversas contraposições e abandonem qualquer vã pretensão de uma solução militar. Haja, antes, um novo compromisso a perseguir, com coragem e determinação, uma solução pacífica através do diálogo e da negociação entre as partes em causa com o apoio concorde da comunidade internacional. Além disso, é um dever moral de todos os Governos do mundo favorecer qualquer iniciativa que vise a promoção da assistência humanitária a quantos sofrem por causa do conflito dentro e fora do país.

Senhor Presidente, na esperança que estas reflexões possam constituir uma válida contribuição espiritual para o vosso encontro, rezo por um êxito frutuoso dos trabalhos do G20. Invoco abundantes bênçãos sobre a Cimeira de São Petersbugo, sobre todos os participantes, sobre os cidadãos de todos os Estados membros e sobre todas as actividades e compromissos da Presidência Russa do G20 no ano de 2013.

Ao pedir-lhe que reze por mim, aproveito o ensejo para lhe expressar, Senhor Presidente, a minha mais sentida estima.

Do Vaticano, 4 de Setembro de 2013

Francisco

Publicado por

Talis Andrade

Jornalista, professor universitário, poeta (13 livros publicados)

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s