Meu nome não é flor

Bulismo, por Sofia Mamalinga
Bulismo, por Sofia Mamalinga

Fui anticanditato a presidente do Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Pernambuco, inclusive, para denunciar os assédios moral, sexual, judicial, e o stalking policial que sofrem os profissionais que trabalham nos meios de comunicação de massa.

O jornalismo é uma profissão de risco no Brasil. É o primeiro país no ranking de censura judicial, e o quinto em assassinatos de jornalistas. Nas ruas, imperam as agressões da polícia (balas de borracha, gás lacrimogêneo, cacetadas). Nos gabinetes das autoridades, os jornalistas são humilhados. Começa pela espera em ser atendidos.

Nas redações, além do salário da fome e do medo, as torturas física e psicológica dos assédios sexual e moral.

Não venham dizer que uma dedada não seja uma tortura.  A bolinação não consentida é um crime tão grave quanto o estupro.

Tem ainda o bulismo sexual que começa nas escolas de jornalismo. Um grupo de jornalistas criou um blogue para denunciar o preconceito.

Escreve , que participa do projeto De Duas Uma:

“Nenhum projeto é fácil. Quase nenhuma etapa é tranquila e, muitas vezes, cada passo parece ser incerto. Mesmo assim, continuamos. Eu, você e mais algumas milhares de pessoas que lutam por alguma causa, seja ela um projeto de pesquisa sobre animais silvestres ou uma reportagem sobre aeronautas aposentados.

Por isso, acho que deve ser normal se sentir perdido ou frustrado. É claro que as coisas boas que ocorrem ao longo do caminho são animadoras e nos fazem seguir em frente. No caso de uma grande reportagem, uma entrevista pode iluminar todo o caminho e dar ideias incríveis. Pensando bem, eu diria que toda conversa com uma fonte é útil, sendo ela colaborativa para o conteúdo ou não. Nos faz dar um passo a frente ou refletir no que precisamos voltar e repensar.

Quando começamos com o projeto pra valer, meus sentimentos se misturavam. E continuam a se misturar. Ora nervosismo, ora impotência (quando terminava de ouvir a história de uma fonte e sentia pelo menos um terço de seu sofrimento). Aliás, talvez seja por isso que peço desculpas desde já se meus posts parecerem confusos. São devaneios e tentativas de expressar o que acontece dentro de mim ao longo desse período”.

Eis alguns relatos do blogue Meu Nome Não é Flor:

1 – “Estou cumprindo meus últimos dias de estágio. Pedi demissão essa semana por estar sendo assediada por um homem do meu trabalho. Ninguém sabe que esse é o real motivo da minha demissão, e prefiro que fique assim, no silêncio. Me sinto envergonhada.
Estou estudando jornalismo para ser jornalista e não preciso ouvir “elogios” sobre meus seios e minhas coxas.

Adorei a iniciativa da página, tenho certeza que muitas mulheres passam por isso!”

2 – “Sou jornalista, quando estagiária em uma TV, sofri assédio moral, quando editora de vídeo sofri discriminação por ser mulher, quando assistente de assessoria de imprensa sofri assédio moral mais uma vez, e por fim, quando Assessora de Comunicação sofri assédio sexual. Me demiti há cerca de 2 meses e tive minha carreira difamada em toda a cidade.
Como uma colega de profissão disse ‘…assédio sexual não é sobre sexo. É sobre poder.”

3 – A página se chama Meu nome não é flor porque é assim que os homens se referem às repórteres quando querem nos colocar no nosso lugar, ou seja, evitar que a gente faça perguntas mais duras.  Já fui chamada de flor muitas vezes. Nunca foi num tom carinhoso, simpático ou elegante. Não é um galanteio. É uma maneira de lembrar que somos mulheres e, portanto, temos que nos comportar de uma certa forma. Pelo menos na concepção de mundo dessas criaturas.

Publicado por

Talis Andrade

Jornalista, professor universitário, poeta (13 livros publicados)

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