A volta do padre vermelho

por Carlos Wagneroscar romero

Na conturbada década de 60, no ventre que gestava os miseráveis das regiões agrárias da América do Sul, surgiu uma figura: o padre da Teologia da Libertação, um modo de vida que comprometia a igreja com os pobres. Esse religioso entrou na história como padre vermelho — por misturar marxismo com religião. Logicamente que se posicionava contra o poder, na época representado pelos ditadores militares. Muitos morreram, como o arcebispo de São Salvador Oscar Arnulfo Romero, conhecido como Monsenhor Romero.

Com o tempo, os oprimidos defendidos pelos padres se ergueram com suas próprias pernas e montaram os chamados movimentos sociais, que contribuíram significativamente para democratização do continente, incluindo o Brasil. A Teologia da Libertação cumpriu o seu papel. Daqueles tempos, ficaram as cruzes à beira das estradas dos que tombaram pelas balas dos pistoleiros. E aos expoentes da luta pelos pobres, como Monsenhor Romero, ficou o silêncio de Roma a respeito dos seus feitos.

Mas a realidade conspirou contra Roma. O espaço onde o padre vermelho trabalhava foi ocupado pelo chamado “pastor eletrônico” — ligado às igrejas pentecostais. Nas últimas décadas, os eletrônicos conseguiram se misturar de tal maneira entre a população de baixa renda que a Igreja católica perdeu centenas de milhares de devotos.

Nos últimos anos, Roma tomou várias medidas para reaver os seus devotos. Mas nenhuma delas do calibre da tomada pelo papa Chico ao reabilitar Monsenhor Romero com a reabertura do processo da beatificação do salvadorenho. Para seguidores da Teologia da Libertação, a medida é muito mais do que uma homenagem tardia: é o selo do comprometimento do Papa com os pobres. Para o pastor eletrônico, o revigoramento do padre vermelho vai ser um problema.

Assassinado pela extrema-direita
Assassinado pela extrema-direita

Publicado por

Talis Andrade

Jornalista, professor universitário, poeta (13 livros publicados)

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