Ativismo põe em xeque narrativas oficiais

por Mauro Malin

 Rainer Ehrt
Rainer Ehrt

A cobertura jornalística da revolta de junho testou cérebros e músculos da mídia convencional e de novas modalidades criadas pelo advento da telemática, como o testemunho de participantes que usaram telefonia móvel para relatar na internet, com imagens, áudio e texto, o desenrolar de passeatas e outros atos públicos.

Aldo Quiroga, da TV Cultura e da PUC-SP, fez ver que a mídia alternativa já existiu antes no Brasil e defendeu uma militância a favor do jornalismo. Milton Bellintani, do projeto Repórter do Futuro, disse que os jornalistas têm compromisso com o interesse público e a democracia. Bellintani relembrou que as redações já foram locais de debates como o que ali se realizava, característica anulada por uma lógica empresarial concorrencial.

Proteger repórteres

Antes do início da conversa propriamente dita, Sérgio Gomes, o Serjão, disse que o debate foi organizado com o objetivo de promover uma troca serena de ideias, sem caráter de espetaculosidade. O diretor executivo da Abraji, Guilherme Alpendre, relatou que a associação havia contabilizado 53 agressões policiais a jornalistas desde o início dos protestos até a última semana de junho, em várias capitais (leia aqui).

O bate-papo foi mediado pelo coordenador de Comunicação da Conectas, João Paulo Charleaux, que cobriu as manifestações em São Paulo para o jornal La Tercera, de Santiago do Chile. Charleaux disse que a ideia de promover o encontro surgiu “a partir do número assombroso de inscritos para o 12O curso Jornalismo em Situações de Conflito e Outras Situações de Violência (mais de 700 até meados de julho). Achamos que seria uma pena que só 25 pessoas pudessem discutir o assunto”.

O debate entre quem participou da cobertura “é uma chance de saber como esses jornalistas estão vendo uma situação desafiadora nos aspectos ético, logístico, técnico, em todos os aspectos”, avaliou o jornalista, que há bastante tempo participa de debates semelhantes, inclusive tentativas da ONU de fazer resoluções a respeito de proteção de jornalistas.

Instinto de sobrevivência

“Sei como isso é complicado e muitas vezes inviável. O Conselho de Segurança, em sua próxima reunião, vai abordar o tema de uma resolução de proteção de jornalistas, no âmbito jurídico, diplomático. E venho acompanhando o debate do Insi (International News Safety Institute) e da Abraji sobre como capacitar os repórteres para sofrer menos nessas situações, devido a ações cometidas pela polícia e às vezes o comportamento deliberado do Estado de atacar a imprensa. Assim como de pessoas que estão na manifestação e também atacam os jornalistas. A proteção de um fotógrafo, de um cinegrafista, de um cidadão que registra imagens com seu celular tem sido baseada no seu próprio instinto de sobrevivência, sua capacidade de se preservar para continuar registrando as situações”, disse Charleaux.

A verdade da rua

Você não pode dizer uma coisa nos jornais e as redes dizerem outra. Isso teve um papel tremendo até do ponto de vista de controle da ação policial. Quando terminou a manifestação e os policiais, na batalha da Consolação, foram perseguindo as pessoas nas ruas de São Paulo, qualquer reunião de duas ou três pessoas eles atiravam bombas de gás e bala de borracha indiscriminadamente, quando isso acontece, e não acontece em becos, acontece com todos os celulares virados para essas cenas, pessoas filmando da janela de casa o que estava acontecendo, isso para a polícia foi muito forte.

O comportamento deles nos dias seguintes se baseou muito nisso, eles não podiam fazer o que quisessem, estavam submetidos a esse tipo de controle, isso é muito bom, apesar de termos tido casos de jornalistas que foram agredidos, sofreram algum tipo de violência. O controle é maior e isso é possível porque vivemos numa democracia.

Aqui estão pessoas que fizeram, do ponto de vista jornalístico, alguns dos trabalhos mais interessantes dessa cobertura. Se o Piero tivesse querido fazer uma matéria sobre uma pessoa sendo presa por carregar vinagre, não conseguiria fazer o que ele fez sobre ele mesmo, com frieza, continuar filmando numa situação de estresse, sendo preso, e o vídeo que ele faz. Tem uma cena sensacional, uma hora em que o coronel pega o telefone e diz: Filma aqui. É um resumo muito bem acabado do que foi a polícia naquele dia, do absurdo da situação. Na última cena [Piero] pergunta ao comandante da operação se é proibido ter vinagre, e ele diz que não, ele admite o absurdo da situação. (Veja aqui o vídeo.)

A matança ignorada

E realmente estava todo mundo perdido, cada um pensando uma coisa, ninguém sabia o que estava acontecendo. Agora as coisas estão acalmando e vão surgindo análises um pouco mais sensatas e estamos começando a entender levemente o que está acontecendo. Ainda vai levar tempo para conseguirmos entender realmente.

Sobre a violência da polícia, eu não esperava nada diferente do que está acontecendo. Acho que a polícia foi violenta, mas menos violenta do que ela é todo dia na periferia. A polícia está matando geral na periferia. Você escuta relatos absurdos de gente morrendo, tem acusações gravíssimas de grupos de extermínio formados por policiais, segundo essas acusações, que colocam touca ninja e matam gente na periferia aleatoriamente. O que aconteceu na quinta-feira (13/6) foi significativo, mas muito menos do que a gente vê todo dia, e a gente grita muito menos por conta dessa violência que acontece na periferia. A polícia não matou ninguém na quinta-feira, mas está matando todo dia na periferia.

PM do regime militar

Basicamente, a polícia que o regime militar montou é a que está aí. Em São Paulo, quando houve eleição direta para governador e ganhou o Franco Montoro [1982], houve uma preocupação com o fato de que o quartel-general estava cheio de oficiais fascistas. Tiveram a “genial” ideia de dizer: Vamos espalhar esses caras. O que fizeram? Espalharam o fascismo. Cada coronel desses foi defender suas ideias, e seu processo de formação, no quartel para onde foi mandado. São informações que um cara da PM me deu. Era meu vizinho de mesa numa função que tive [no governo do estado de São Paulo]. Era indignado com a polícia, embora fosse da polícia.

(Transcrevi trechos). Leia mais

Publicado por

Talis Andrade

Jornalista, professor universitário, poeta (13 livros publicados)

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