Um Sábado em Trinta dos jornalistas de Pernambuco

O bom de fazer jornalismo: a possibilidade de conhecer pessoas geniais.

Nas entrevistas e reportagens, no final da década de Cinquenta, várias personalidades citavam o cientista e o artista Reinaldo de Oliveira.

Até que uma dia conheci Reinaldo, o professor de médicos, teatrólogos e atores hoje famosos.

Estava no Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Pernambuco, para votar, no dia 17 último, nas eleições sindicais. Na inquietação de matar o tempo, e levado pela saudade, entrei no Teatro Valdemar de Oliveira, prédio vizinho. Pura sorte e alegria, um grupo de jovens ensaiava a peça Um Sábado em Trinta de Luiz Marinho.

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Em 1960, Luiz Marinho entregou a Valdemar de Oliveira Um Sábado em Trinta. Parece escrita para os dias de hoje. Particularmente para os jornalistas, que acabam de realizar uma votação bico-de-pena, com urnas prenhas, capangada da CUT, e o mando do coronelismo. Tudo no jeitinho da República Velha.

O Brasil fez uma Revolução, em Trinta, para acabar com a corrupção política, e  mudar uma sociedade, cujos costumes, e comportamento, Luiz Marinho transformou em comédia; e Moacir Japiassu, em romance.

Nei Duclós, poeta de primeira, e crítico literário, escreve sobre Concerto Para Paixão e Desatino, de Japiassu:

“Sua galeria de personagens inclui tantas figuras fundamentais, que elencá-las numa resenha parece ser o relatório do viajante iludido em levar o romance como lembrança. O jornalista do jornal Imprensa às Suas Ordens, cúmplice do assassinato do presidente João Pessoa, ilumina as origens de um conterrâneo tornado ilustre, Assis Chateaubriand; o José Américo recriado aqui revela o lado desconhecido da Revolução de 30, com suas contradições no bojo da luta; o conde cafetão e a soprano lírica amante do político poderoso são um ensaio sobre os bastidores de um movimento que ainda guarda inúmeros enigmas. Não satisfeito, Japiassu ainda brinda o leitor com os antecedentes de toda a situação política e social do Nordeste ao colocar em praticamente dois parágrafos (páginas 185 e 186) as origens da República por meio de ilustres figuras da transição, vindas do Império. Parece um confeito no bolo da noiva, mas é mais uma bala nesse rifle recheado”.

Diz mais Duclós: Wagner Carelli define o livro como um épico “capaz de ser poderoso como um sinfonia de Mahler – mas que se lê rápida, clara e deliciosamente como uma partitura de Mozart”.

Relatei para Moacir Japiassu que, nas eleições do Sinjope, nem parece que o Brasil fez uma revolução em Trinta.

Jornalistas metidos a intelectuais votam encabrestados, sim. Votam do jeito que o governo de Eduardo Campos manda.

Eu, que fui barrado na cancela do Jornal do Comércio que dirigi, revivi as redações eternizadas noutro romance de Moacir Japiassu: Quando Alegre Partiste, “Melodrama de um Delirante Golpe Militar”.

Fico imaginando se o título Quando Alegre Partiste é uma referência a uma época, o Brasil de antes de 1964; um tempo do Nunca Mais, a juventude; uma profissão, o jornalista sonhador e desprendido; uma mulher, talvez Vera, personagem do romance.

O que se foi na alegria, não significa que deixou a tristeza, a solidão, a desesperança de nunca escrever a Carta a uma Paixão Definitiva, título de um livro de crônicas de Japiassu, que considero o maior romancista brasileiro da atualidade. Gosto de repetir, como um mantra, que Moacir Japiassu é o maior romancista brasileiro da atualidade.

Certamente que nunca vou perder a esperança de um Brasil melhor, e este Brasil, que sonho, depende muito dos jornalistas.

Parece paradoxal, a salvação do jornalismo advirá do jornal que se fazia antigamente: o jornalismo opinativo, escrito na primeira pessoa: o jornalismo de opinião, que a rádio informa instantaneamente; e a televisão mostra; e o jornalismo on line consegue ser estas três mídias.

Não quer dizer que o jornalismo impresso esteja morto. Nem o livro. Mauri König mostra que não. E por fazer jornalismo, o verdadeiro, Mauri pena no exílio.

Vizinha à sede do Sindicato, estudantes ensaiavam a peça Um Sábado em Trinta. Que gostoso de ouvir: Falavam de Luiz Marinho, de Valdemar de Oliveira, do TAP – Teatro de Amadores de Pernambuco, de Reinaldo de Oliveira.

Estavam em um ensaio, prova de conclusão do Curso Theatros&Cia, sem esquecer a realidade, de que eram jovens viventes deste ano de 2013, que o Papa Francisco pede para os jovens ir para as ruas do povo.

No Sindicato, os jornalistas viajavam na máquina do tempo, e viviam a farsa de um eleição em Trinta.  (Continua)

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Publicado por

Talis Andrade

Jornalista, professor universitário, poeta (13 livros publicados)

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