Não é, mas será

por Carlos Chagas

 

Charge Daniel Paz & Rudy
Charge Daniel Paz & Rudy

“Não sou candidato” disse mais uma vez  o ministro Joaquim Barbosa, agora em entrevista a Mirian Leitão, no Globo. Impossível duvidar da sinceridade do presidente do Supremo Tribunal Federal, que entre os motivos para justificar a negativa, elenca o fato de ser negro e de o Brasil não estar preparado para ter um presidente da República negro. Também alega não ser político e não ter laços com qualquer partido político.

Só que tem um problema no tempo do verbo. Não  é, hoje, encerrando a questão no  momento em que fala a uma jornalista. Ninguém garante que amanhã manterá a decisão, correndo por nossa conta e risco a projeção futura: poderá ser. Ou será . Citou as manifestações espontâneas da população, “onde quer que vá”. “Pessoas pedem para que eu me candidate e isso tem  se traduzido em percentual de alguma relevância, nas pesquisas”.

Barbosa deixa em aberto a hipótese pela simples referência a um estado de fato, as manifestações espontâneas e as pesquisas. Em especial quando erra no diagnóstico de o país não estar preparado para um negro no palácio do Planalto. Está sim, até  porque já  o tem na chefia do Poder Judiciário. A cor da pele servirá  mesmo como fator de simpatia eleitoral.

Quanto a não ser político, a correção surge óbvia: é sim, pelo fato de estar onde está. Deixando de filiar-se a um partido, apenas cumpre determinação constitucional, válida para todo juiz, desembargador e ministro. Em certo  momento da trajetória estimulada pela voz das ruas  receberá, como  já tem recebido, montes de convites para filiar-se a uma legenda qualquer, também em cumprimento da lei.  Lei, aliás,  capaz de ser mudada na  reforma política com a  aceitação do princípio das candidaturas avulsas, por ele  defendido.

Em suma, nada haverá que opor à afirmação do presidente do Supremo Tribunal Federal sobre não ser, hoje, candidato. Mas tudo a acrescentar diante da previsão de que, amanhã, poderá ser.

As recentes pesquisas realizadas depois das explosões de junho indicam o descrédito nas candidaturas clássicas já  postas, a começar por Dilma Rousseff. A reeleição deixou de ser uma certeza. Aécio Neves não decola como imaginaram os tucanos. Marina Silva ocupa lugar restrito na disputa, situada à esquerda do PT. Eduardo Campos abriga-se na sombra de um hipotético lançamento do Lula, equação à espera de fatores variados. À exceção da atual presidente, comprometida com a indicação de Michel Temer para seu vice, os demais candidatos gostariam de ter Joaquim Barbosa como companheiro de chapa. Inverta-se a ordem dos fatores  e se terá, ao contrário da aritmética, um produto  capaz de alterar a sucessão.

O restante da entrevista referida mais pareceu uma plataforma de candidato.  Um social-democrata à maneira dos europeus, saber gastar bem porque o Brasil gasta muito mal, racionalizar a máquina publica, falta de  honestidade nas pessoas com responsabilidade, necessidade da exposição da vida privada de pessoas altamente suspeitas da pratica de crimes, insatisfação generalizada no país, relações fraternas com jornalistas, necessidade de os meios de comunicação discutirem questões verdadeiramente nacionais, superação das dificuldades, discriminação racial  evidente – essas e outras questões integram uma entrevista de  candidato. Apesar de hoje não ser…

(Transcrito da Tribuna da Imprensa)
[Acrescentei uma charge da campanha ora realizada, na Argentina, pela eleição dos juízes.
No Brasil, costuma-se dizer que os togados são apolíticos. Ora, ora, nada se faz sem Política.
Joaquim Barbosa candidato, suas ações no TST precisam ser politicamente analisadas. Principalmente porque, indo para um provável segundo turno, dependerá do apoio dos tucanos ou dos  petistas, sem contar outros partidos.
Que desconfio muito de candidato, tipo Fernando Collor, que vai para uma campanha eleitoral e declara que não quer nem precisa de apoio de políticos e partidos]

Publicado por

Talis Andrade

Jornalista, professor universitário, poeta (13 livros publicados)

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