O Papa e os espantados jornalistas brasileiros

Os jornalistas brasileiros estão reclamando do contato direto do Papa Francisco com o povo. É novidade para eles – principalmente os focas – ver uma autoridade perto das multidões. Que no Brasil é assim: cada autoridade no seu palácio, cercado de guardas.

Para falar com o povo, as autoridades usam a televisão. Nas campanhas eleitorais, de dois em dois anos, ficam distantes, lá longe, nas alturas dos palanques.

No judiciário, o povo precisa de um intermediário: um advogado, para falar com algum meritíssimo.

No legislativo, a casa do povo, cada câmara de vereadores, cada assembléia legislativa e a Câmara dos Deputados e o Senado reservam pequenos espaços para os cidadãos comuns. Quanto menos gente nas galerias melhor. Os representantes do povo preferem trabalhar em paz.

No país do segredo eterno, da justiça secreta, do segredo de justiça, do foro especial, do sigilo bancário, do sigilo fiscal, dos amigos ocultos premiados pela Caixa, das outorgas e concessões escondidas, da censura judicial, da autocensura da mídia, do nada se faz que preste para o povo, ora, se deu que chegou um papa chamado Francisco.

papa perto do povo

Esse papa Francisco foi pro meio do povo sem carro blindado.

Esse papa Francisco beijou crianças.

Essa papa Francisco apertou a mão do povo.

papa perto

papa perto

Quando comecei no jornalismo, as autoridades concediam audiências para o povo.

Nos palácios havia a chamada sala de imprensa, um território livre, como acontece com uma embaixada em um país estrangeiro. O jornalista não ficava tomando banho de sol, de lua, de chuva, para esperar uma autoridade falar o óbvio.

O Papa em Roma sempre abraçou o povo. Por que no Brasil seria diferente?
O Papa em Roma sempre abraçou o povo. Por que no Brasil seria diferente?

Para a mídia, o povo nas ruas é o caos. Atrapalha o atrapalhado trânsito.

Para dispersar o povo,  que a polícia atire balas de chumbo, balas de borracha. Jogue bombas de gás lacrimogêneo. Que a polícia venha ao encontro do povo com cachorros, bestas e canhões sônicos.

Morrer no Brasil é tão banal, coisa de quem está vivo, que não se investiga morte por bala perdida nem morte por causa desconhecida.

_borgoglio

Ora, se deu que chegou esse Papa Francisco que não tem nojo do povo.

Ora, se deu que chegou esse Papa Francisco que não tem medo do povo.

Esse Papa Francisco!

Esse Papa Francisco!

P.S. Meu admirado romancista Moacir Japiassu, que fez Jorge de Lima personagem do romance Quando Alegre Partiste, o nosso Poeta vai perdoar minha heresia?

Publicado por

Talis Andrade

Jornalista, professor universitário, poeta (13 livros publicados)

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