Notinha submissa do Sindicato dos Jornalistas de Pernambuco

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Os jornalistas vêm sendo espancados nos protestos diários e greves realizadas no Recife e cidades de diferentes regiões de Pernambuco. A imprensa silencia. Agora, que as eleições do continuísmo se aproximam – faltam doze dias -, o encantado sindicato coloca no seu sítio a seguinte notinha oficial:

“O Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Pernambuco (Sinjope) e a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) repudiam  o cerceamento ao trabalho e a violência policial  de que foram vítimas três jornalistas profissionais no exercício de sua funções, durante protesto na noite desta sexta-feira, no Derby, Recife. Mesmo após se identificar como repórter, um jornalista do NE10 foi intimidado por quatro policiais e obrigado a apagar as imagens e desligar a câmera. Um repórter fotográfico da Folha de Pernambuco tentou intervir na defesa de seu colega e foi expulso do local por PMs. Uma jornalista do Portal G1-PE foi atingida no rosto por spray de pimenta.

Essas ações claramente objetivaram impedir o registro da ação da PM no momento em que foram utilizados balas de borracha, spray de pimenta, ameaças e agressões para dispersar os manifestantes que até então realizavam um protesto pacífico. Isso inclusive, por policiais que não tinham identificação em sua farda, o que dificulta a necessária apuração e punição de excessos.

O Sinjope e a Fenaj defendem intransigentemente o livre exercício da profissão de jornalista para o correto registro e divulgação dos fatos. Cobramos da Secretaria de Defesa Social a identificação e punição dos agressores e a imediata revisão dos procedimentos adotados pela PM durante coberturas jornalísticas.

O Sindicato vai solicitar uma audiência com o secretario de defesa social, Wilson Damásio, para cobrar a apuração dos fatos e se mantém à disposição desses profissionais, como de toda a categoria, para garantir o correto e livre exercício da profissão”.

A Polícia Militar prende e arrebenta e o sindicato “vai solicitar uma audiência ao secretário de defesa social”. Não sei se Wilson Damásio concedeu esse favor. Vale ressaltar a denuncia implícita de que a polícia civil, que não usa farda, está infiltrada nos movimentos de ruas para praticar vandalismo.

Em que deu o encontro dos jornalistas do sindicato com Wilson Damásio, que nada foi noticiado?

A polícia civil de Wilson Damásio incita a PM a jogar os cachorros, e os cavalos, e as bombas de gás lacrimogêneo contra o povo e os jornalistas. Isso é muito grave: a polícia civil, com suas balas de borracha, usa as mesmas armas de terror que a polícia militar.

A denúncia sindical acusa o povo de “vandalismo”: “Essas ações claramente objetivaram impedir o registro da ação da PM (…) para dispersar os manifestantes que até então realizavam um protesto pacífico“. Este “até então” mostra quanto o sindicato é solidário com a polícia civil e com a polícia militar. Depois deste “até então” … o protesto deixou de ser pacífico… O discurso do Sinjope permanece afinado com a fala palaciana.

Pela notinha frouxa, a polícia civil realizou ações criminosas contra jornalistas para “impedir o registro (censura) da ação da PM”.

Um sindicato verdadeiro, cujos associados sofreram, na carne, a violência de uma polícia ditatorial, não pede.

O pedido devia partir do secretário Wilson Damásio. Ele é quem deve explicações.

A notinha faz referência apenas ao terrorismo policial de um único dia, ou melhor, a noite de uma sexta-feira de brutalidade da polícia do governador Eduardo Campos, o principal responsável.

Além de “esquecer” de citar o nome do governador, do comandante da polícia militar, humilha os jornalistas com o anonimato. O sindicato designa as empresas como se elas fossem mais importantes. Empresas que noticiam a queima de um carro, e não se compadecem dos mortos, como aconteceu no Pará com uma gari, assassinada pelo estouro de uma bomba da polícia – a mesma polícia da ditadura militar.

O mais danoso da notinha é que antecipa e aprova a impunidade: a crueldade e a censura foram covardemente realizadas “por policiais que não tinham identificação em sua farda, o que dificulta a necessária apuração e punição de excessos”. Santa dificuldade. Resultado: nada vai ser apurado como sempre. E punição dos excelsos “excessos” só depois que for desnecessária a saudação: “Have imperator, morituri te salutant!“, nas ruas do Recife e na Arena da Mata de São Lourenço.

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Publicado por

Talis Andrade

Jornalista, professor universitário, poeta (13 livros publicados)

2 comentários em “Notinha submissa do Sindicato dos Jornalistas de Pernambuco”

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