O novo Papa e a atualidade do espírito de São Francisco

por Leonardo Boff

Lucas Nine
Lucas Nine

Pelo fato de o atual papa ter escolhido o nome de Francisco, muitos voltaram a se interessar por essa figura singular, talvez uma das mais luminosas que o cristianismo e o próprio Ocidente já tenham produzido: Francisco de Assis.

Seguramente, podemos dizer que, quando o cardeal Bergoglio escolheu esse nome, quis sinalizar um projeto de Igreja na linha do espírito de são Francisco, que optou por viver o evangelho puro, ao pé da letra, na mais radical pobreza, numa simplicidade quase ingênua e numa humildade que o colocava junto à terra, no nível dos mais desprezados da sociedade. Nunca criticou o papa ou Roma. Simplesmente, não lhes seguiu o exemplo. Para aquele tipo de Igreja e de sociedade, confessava explicitamente: “Quero ser um ‘novellus pazzus’, um novo louco” – louco pelo Cristo pobre e pela “senhora dama” pobreza, como expressão de total liberdade: nada ser, nada ter, nada poder, nada pretender.
Resistiu o mais que pôde e, no fim, teve que se render à mediocridade e à lógica das instituições que pressupõem regras, ordem e poder. Mas não renunciou ao seu sonho. Frustrado, voltou a servir aos hansenianos, deixando que seu movimento, contra sua vontade, fosse transformado na Ordem dos Frades Menores.

A humildade ilimitada e a pobreza radical lhe permitiram uma experiência que vem ao encontro de nossas indagações: é possível resgatar o cuidado e o respeito para com a natureza?
Francisco mostrou essa possibilidade e sua realização mediante uma prática vivida com simplicidade e paixão. Ao não possuir nada, entreteve uma relação direta de convivência, e não de posse, com cada ser da criação.

QUESTÃO DE RESPEITO

A pobreza e a humildade assim praticadas não têm nada de beatice. Supõem algo prévio: o respeito ilimitado diante de cada ser. Cheio de devoção, tira a minhoca do caminho para não ser pisada, enfaixa um galhinho quebrado para que se recupere, alimenta no inverno as abelhas que esvoaçam perdidas. Ao renunciar a qualquer posse de bens, rechaçando tudo o que poderia colocá-lo acima de outras pessoas e acima das coisas, possuindo-as, emergiu como irmão universal. Foi ao encontro dos outros com as mãos vazias e o coração puro, oferecendo-lhes apenas a cortesia, a amizade, o amor desinteressado, cheio de confiança e ternura.

A fraternidade universal surge quando nos colocamos com grande humildade no seio da criação, respeitando todas as formas de vida e cada um dos seres. Essa fraternidade cósmica, fundada no respeito ilimitado, constitui o pressuposto necessário para a fraternidade humana. Sem esse respeito e essa fraternidade, dificilmente a Declaração dos Direitos do Homem terá eficácia. Haverá sempre violações, por razões étnicas, de gênero, de religião e outras.

Essa sua postura de fraternidade cósmica, assumida seriamente, poderá animar nossa preocupação ecológica de salvaguarda de cada espécie, de cada animal ou planta, pois são nossos irmãos e irmãs. Sem a fraternidade real, nunca chegaremos a formar a família humana que habita a “irmã e Mãe Terra” com respeito e cuidado. Essa fraternidade demanda inarredável paciência, mas encerra também uma grande promessa: ela é realizável. Não estamos condenados a liberar o animal feroz que nos habita e que ganhou forma em Videla, Pinochet, Fleury e em outros covardes torturadores.
Oxalá o papa Francisco de Roma, em sua prática de pastor local e universal, honre o nome de Francisco e mostre a atualidade dos valores vividos pelo “fratello” de Assis.

Publicado por

Talis Andrade

Jornalista, professor universitário, poeta (13 livros publicados)

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