242 mortos e ninguém preso. O povo precisa eleger a justiça. Escolher no voto direto como vai acontecer este ano na Argentina

Nesta quarta-feira, mais de quatro meses após a tragédia da boate Kiss, dois sobreviventes deixaram o hospital, em Porto Alegre. Os estudantes Cristina Peiter, 23 anos, e Marcos Belinazzo Tomazetti, 25, estavam internados no Hospital de Clínicas. Cristina estuda Engenharia Florestal na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), e Marcos cursa Agronomia na mesma universidade.

Cristina teve 20% do corpo queimado e precisou ficar 25 dias internadas na CTI.

Cristina-Peiter-

 

Ela passou 18 dias em coma induzido. O pai da jovem foi buscá-la na Capital na quarta. Os dois viajaram para a cidade de Casca, no Noroeste do Estado. Marcos, que também sofreu queimaduras, é natural de Dom Pedrito.

Para comemorar o feito, a justiça mandou soltar quatro réus. A decisão revoltou os familiares dos 244 mortos e centenas de sobreviventes. Inclusive dois ainda seguem internados em Porto Alegre. São duas jovens, Renata Ravanello, 25 anos, que está no Clínicas, e Ritchieli Pedroso Lucas, 19, internada no Mãe de Deus.

liberdade

Justiça manda soltar

Tribunal justifica que não há motivos para manter prisões. Decisão revoltou familiares de vítimas da Kiss

por Luiz Roese

Jader Marques (à dir.), advogado de Kiko Spohr, sustentou defesa (Luiz Roese/A Razão)

 

O que restou para os familiares de vítimas, depois da decisão judicial do Tribunal de Justiça do Estado (TJ-RS) que determinou a soltura dos quatro réus presos do processo da tragédia da Boate Kiss foi muita indignação e revolta. Como protesto, um grupo de aproximadamente 30 pessoas chegou a trancar por alguns minutos o trânsito na Avenida Borges de Medeiros, em frente ao TJ-RS, em Porto Alegre, depois da sessão de julgamento da 1ª Câmara Criminal.

“Tenho vergonha de ser brasileiro”, resumiu o presidente da Associação de Vítimas e Sobreviventes da Tragédia de Santa Maria (AVTSM), Adherbal Ferreira, logo depois do julgamento na 1ª Câmara Criminal que concedeu a liberdade aos quatro acusados. Ele havia saído na manhã de ontem de Santa Maria em um ônibus que levou cerca de 40 pessoas à Capital para acompanhar a sessão no TJ, à tarde.

“A responsabilidade pela integridade física dos quatro é dos desembargadores que colocaram eles na rua”, disse Ildo Toniolo, pai de uma vítima que foi a Porto Alegre para acompanhar a sessão do TJ. A decisão do TJ beneficiou os dois sócios da Kiss, Elissandro Spohr e Mauro Hoffmann, e os dois integrantes da banda Gurizada Fandangueira, o vocalista Marcelo de Jesus dos Santos e o produtor Luciano Bonilha Leão.

No primeiro habeas corpus relacionado à tragédia que foi analisado pela 1ª Câmara Criminal, foi julgado um pedido do advogado Jader Marques, que defende Elissandro Spohr, o Kiko, um dos sócios da Boate Kiss. Na solicitação, o defensor se refere ao que é chamado, no direito, de “inépcia da denúncia”. Marques entende que ela não deveria ter sido recebida pelo Judiciário ou poderia ter sido recebida em parte.

O advogado da AVTSM, Jonas Espig Stecca, foi ao TJ para fazer uma sustentação oral contra o pedido de Marques, mas sua exposição não foi permitida pelo desembargador Manuel José Martinez Lucas, que já julgou outros pedidos relativos à tragédia. O magistrado foi acompanhado em sua posição pelo também desembargador Julio Cesar Finger e pela juíza convocada Osnilda Pisa.

O pedido de Jader Marques foi negado por unanimidade, o que deu uma animada nos familiares que acompanhavam a sessão. Mas o julgamento que veio logo a seguir derrubou essa impressão.

O que estava em jogo era um habeas corpus do advogado Omar Obregon, que pedia a liberdade do vocalista da banda Gurizada Fandangueira, Marcelo de Jesus dos Santos. Apesar de a promotora Angela Salton Rotuno ter se manifestado contra a soltura dos presos, o relator deu seu voto se manifestando contra a manutenção da prisão dos acusados. “Temos que mudar o paradigma de que a polícia prende e a Justiça solta”, argumentou a promotora.

Mas foi justamente o que aconteceu. Em seu voto, Manuel José Martinez Lucas sustentou que não havia mais motivos para a prisão preventiva dos acusados. Um dos argumentos era o clamor público, mas, segundo o desembargador, agora ele estaria restrito ao “foro íntimo” dos familiares das vítimas. Outro motivo que poderia ser usado para a manutenção das prisões é uma “ameaça à instrução” do processo, mas, para Lucas, isso “precisaria ser mais concreto”. “Para o bom andamento do processo, o mais conveniente é a liberdade dos presos”, declarou Lucas.

Os outros magistrados tiveram o mesmo entendimento de Lucas. Finger disse que foi “a decisão mais difícil de sua vida”. Já a juíza Osnilda disse que os magistrados tinham que ser racionais. “E preciso ter coração, mas é preciso razão”, disse a magistrada.

 

Publicado por

Talis Andrade

Jornalista, professor universitário, poeta (13 livros publicados)

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s