A FRANÇA ENTRE O AMOR E A GUERRA

Jesus jamais tocou neste tema: o amor grego.
No Velho e no Novo Testamento não existe nenhuma referência ao amor entre mulheres.
São Paulo faz uma referência ao sexo anal. Sodomia.

No Velho Testamento se combate o amor entre os homens. Em defesa da supremacia racial: O famoso “Crescei e Multiplicai-vos”.

Que temem os franceses? O crescimento da população mestiça. O aumento da população de emigrantes. É um movimento xenófobo e racista.

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Uma Palma de Ouro que é um ménage à trois

por Vasco Câmara

O júri da 66.ª edição quis premiar os três cúmplices de La Vie d”Adèle: o realizador Abdellatif Kechiche e as duas actrizes

Cinco anos depois de A Turma, de Laurent Cantet, nova Palma de Ouro para um filme francês, e de novo em caminhos de juventude e de literatura, mas desta vez acrescentando-se algo de novo à experiência, como um patamar que foi ultrapassado: a intimidade sexual, como não a tínhamos experimentado assim – se calhar já, mas a memória suspendeu os juízos e deu à sessão das 19h do dia 23 a emoção dos momentos históricos. Cúmplices a introduzirem a imprensa mundial no Festival de Cannes nesse vórtice, Abdellatif Kechiche, realizador de La Vie d”Adèle, Chapitres 1 et 2, Léa Seydoux e Adèle Exarchopoulos, intérpretes de duas raparigas que se amam, foram ontem designados como os três artistas dignos do prémio máximo do palmarés deste 66.ª edição.

Subiram os três ao palco, cada um com a sua Palma, decisão com o seu toque de originalidade mas que faz justiça à experiência de rodagem nos filmes de Kechiche: a entrada numa família de afectos. Palmas para o presidente do júri Steven Spielberg. Que será responsável pela coroação do franco-tunisino, que na imprensa francesa já começara a ser chamado, como se se reparasse uma injustiça, o maior cineasta francês da actualidade – já recebera Césares e prémios em Veneza, com A Esquiva (2002) ou O Seg­redo de um Cus­cuz (2007), mas a Palma é outra coisa. Kechiche dedicou o prémio à belle jeunesse de França e da Tunísia, onde se faz a revolução.

Era o prémio que todos esperavam, faltava saber como o júri se iria desenvencilhar – até porque a opção de entregar o prémio máximo a La Vie d”Adèle, Chapitres 1 et 2 e distinguir as actrizes com o prémio de interpretação é um cúmulo não permitido pelos regulamentos do festival. O júri saiu-se bem, e não foi apenas artimanha, é a verdade de La Vie d”Adèle, uma pessoal adaptação de Kechiche da novela gráfica Le Bleu est une couleur chaude de Julie Maroh, que conta a educação sentimental e sexual de uma rapariga, Adèle (Adèle Exarchopoulos), a partir do coup de foudre por uma Emma (Léa Seydoux) de cabelos azuis (estreia-se em França em Outubro e está comprado para Portugal pela Leopardo Filmes).

Assim Spielberg & Cia. abriram caminho para a premiação de Bérénice Bejo como Melhor Actriz por Le Passé, do iraniano Asghar Farhadi (Uma Separação), alvo de uma recepção bastante mitigada em Cannes. Mas o prémio confirma os recentes triunfos de Bejo, a vencedora do César de melhor actriz por O Artista que muitas vezes alude que sempre “soube perder” e por isso agora lhe sabe bem ganhar – para este papel de uma mulher entre o marido iraniano de quem se vai divorciar e o homem com quem iniciou nova relação, tinha sido escolhida, inicialmente, a estrela Marion Cotillard.

Se exceptuarmos a ausência do palmarés do snob e amoroso Only Lovers Left Alive, de Jim Jar­musch – muito melhor filme do que o dos Coen ou de Alexander Payne -, é verdade que o júri fez o que tinha a fazer com os títulos que, melhor ou pior, marcaram esta edição. Pode-se ver no Prémio do Júri – Tel Père, Tel Fils, do japonês Hirokazu Kore-Eda – ou na distinção a um dos tesouros do cinema americano dos anos 1970, Bruce Dern, de 75 anos (prémio de interpretação por Nebraska, de Alexander Payne: história de um homem que acredita que ganhou um milhão e obriga o filho a levá-lo do Montana ao Nebrasca para cobrar o prémio), um percurso para a reconciliação com a figura do pai, tema, trauma ou perda em algum do melhor Spielberg. Antes de chegar Kechiche, o filme dos Coen, Inside Llewyn Davis, era o favorito para a Palma. Saiu-se com o Grande Prémio. Ambientado nas dark ages da cena folk de Greenwich Village no final dos anos 1950, antes dos ícones, é menos um retrato de um mundo do que o retrato da obsessão de uma personagem – Inside Llewyn Davis tal como na cabeça de Barton Fink, o filme que deu a Palma em 1991 a Joel e Ethan. Não poderão ser secundarizadas as distinções ao mexicano Amat Escalante, por Heli (melhor realizador, a distinção que teve Carlos Reygadas em 2012 por Post Tenebras Lux: de novo a violência que sangra a sociedade mexicana) e ao chinês Jia Zhangke, pelo argumento de A Touch of Sin, corajosa e gráfica explicitação da China de hoje. Zhangke diz que o cinema lhe permite acreditar na liberdade. (Público, Portugal)

Kechiche e as suas actrizes
Kechiche e as suas actrizes

Publicado por

Talis Andrade

Jornalista, professor universitário, poeta (13 livros publicados)

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