Estiagem castiga o interior da Paraíba

por Valéria Sinésio

BRA_JP seca Paraíba

 

 

“O sertanejo é, antes de tudo, um forte”. Foi com essa frase que Euclides da Cunha classificou o homem do campo quando escreveu a obra “Os Sertões”, em 1902. Mais de um século depois, o sertanejo continua forte na luta pela sobrevivência diante da seca que assola a Região Nordeste desde o ano passado e deixa marcas de destruição por onde passa. O cenário desolador da estiagem na Paraíba será mostrado a partir de hoje em uma série de reportagens.

Para conhecer de perto as consequências da estiagem no interior do Estado, o JORNAL DA PARAÍBA percorreu 1,5 mil quilômetros e visitou oito cidades no Sertão e no Cariri durante três dias. Em cada lugar foi possível encontrar histórias emocionantes de paraibanos que perderam tudo o que foi construído ao longo da vida por conta da falta de chuvas. São histórias que misturam dor e sofrimento, mas que ao mesmo tempo revelam a bravura do homem do campo. Nessa luta desigual, o sertanejo perde tudo, menos a esperança de dias melhores.

A estiagem no Semiárido secou barragens, açudes e rios, acabou com lavouras e matou o rebanho. Para o homem do campo, pouco restou diante dessa realidade. A Federação da Agricultura e Pecuária da Paraíba (Faepa) estima que já houve redução de 50% do rebanho, levando em conta as mortes e a venda precoce dos animais. A falta de crédito para recuperação e manutenção, segundo a Faepa, agrava ainda mais a situação.

Esta seca já é considerada a pior dos últimos 50 anos por técnicos de órgãos ligados à agricultura, pecuária, economia e meteorologia, além de historiadores. A falta de água e alimentos vem dizimando o rebanho em vários municípios paraibanos. A carcaça do gado sendo atacada por urubus às margens das estradas é um sinal de que a situação é grave no interior. Em muitas cidades, a reportagem encontrou cemitérios clandestinos a céu aberto, como em Pedra Branca, São José de Piranhas, Monteiro, Zabelê e Sousa. Para evitar mais mortes, o Governo estadual distribuiu variedades de palma forrageira, resistentes à cochonilha.

Mas não foi só o rebanho que sofreu com fome e sede. A realidade da seca na Paraíba consegue ser ainda mais cruel.

Na zona rural do município de Pedra Branca, por exemplo, uma família teve que matar um tamanduá para comer assado no almoço. O desespero tinha um motivo fácil de ser entendido: a carne do animal era a única alternativa à mesa da família composta por cinco pessoas.

No Alto Sertão da Paraíba, como em São José de Piranhas, a 500 quilômetros de João Pessoa, a fome e a sede assombraram a vida de dezenas de famílias, como a do aposentado José Bento da Silva, 67 anos. Segundo ele, faltou água até para beber. “A gente só não morreu de sede porque meu genro foi comprar água em garrafa de refrigerante em Cajazeiras, mas nem todo dia eu tinha dinheiro para isso”, contou.

Na zona rural de Aparecida, a população teve que tomar água esverdeada e barrenta, intragável em condições normais de vida, mas essencial para quem luta contra a sede.

Em Patos, moradores do sítio Retiro também foram castigados pela seca e tiveram que tomar a água suja do açude Jatobá.

Esse problema se repete em outras cidades da Paraíba, onde a população clama por providências e padece diante da estiagem.

 

A SECA CONTINUA

 

por Maria Lívia Cunha
Considerada a pior dos últimos 50 anos, a seca que atinge o Nordeste já provocou, pelo menos, R$ 3,5 bilhões em perdas diretas nas lavouras da região. O número faz parte de um balanço organizado pelo economista-chefe do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em Natal, Aldemir Freire, com base na produção das principais lavouras nordestinas de 2012 e do ano anterior.

Para se ter uma ideia do impacto desta estimativa, o montante calculado é quase a metade do valor total da obra de Transposição do Rio São Francisco – a mais importante da região e que está orçada em R$ 8,2 bilhões. Segundo o levantamento, as safras nordestinas que mais deram prejuízo foram a do feijão (-68,46%), da castanha de caju (-66,52%) e a do arroz (-39,37%).

“A grande questão é que a seca continua porque as chuvas que tivemos foram escassas e insuficientes. O primeiro semestre ainda conta com o alívio das chuvas, mas no segundo deveremos ter um problema agudo na região. Deveremos ter uma nova perda de safra, os rebanhos passarão por mais dificuldades – inclusive porque o milho doado pelo governo federal não chega com facilidade para alimentá-los – e a pior repercussão é que o abastecimento urbano de água começa a ser prejudicado”, alertou.

No Nordeste, a Paraíba tem a segunda maior taxa de municípios em situação de emergência. O percentual paraibano (89,23%) perde apenas para o do Ceará (96,19%) e, hoje, dos 223 municípios do Estado, 195 fazem parte da lista da seca.

Aqui, a estiagem vem derrubando a economia aos poucos. O saldo de empregos no campo sofreu uma grande queda chegando ao menor nível dos últimos dez anos. A exportação de produtos, a exemplo do mel, caiu pela metade, e a seca elevou, em muitas centenas de reais, a dívida do produtor rural.

 

CONSEQUÊNCIAS PODEM DURAR ANOS

O pesquisador Pedro Gama, da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), disse que as consequências da seca podem perdurar por muito tempo depois, pois após o período da seca chegará a vez dos agricultores e criadores tentarem recuperar o que foi perdido, o que nem sempre é possível. “Isso geralmente leva anos. Ninguém consegue repor o rebanho de um mês para o outro”, afirmou o pesquisador.

No Semiárido nordestino, conforme Gama, a produção de leite foi reduzida a 1/3 do que era obtido antes, o que representa uma queda brusca na renda de centenas de famílias. Houve redução também no efetivo bovino. “Isso se deu não apenas pela morte dos animais, como também pelo abate”, explicou.

“Podemos dizer que houve uma sangria muito forte desse rebanho”, completou. Segundo ele, a categoria mais afetada foi a de bovinos, seguida dos ovinos e, em menor proporção, a de caprinos.

O pesquisador também apontou a morte das pastagens como outro problema sério, que leva tempo para ser recuperado. “Em muitos campos a pastagem precisa ser completamente reimplantada”, disse. “As consequências da seca variam dependendo de quem a observa. O meteorologista e o homem do campo têm conceitos distintos sobre a estiagem, porque cada qual a analisa conforme sua realidade”, explicou.

De acordo com Gama, o grande problema da seca no Nordeste é a falta de investimento permanente. “Se o Nordeste tivesse programas consistentes de convivência com a seca, o impacto não seria tão forte. Seria preciso a implantação de programas de apoio a atividades produtivas, a exemplo da agricultura irrigada, que de certa forma apresentou êxito”, comentou.

Iniciativas como o Bolsa Família e abastecimento por carros-pipa são, segundo o pesquisador, medidas emergenciais que não resolvem, apenas amenizam a situação das famílias que sentem os efeitos da seca. “Também é necessário o investimento hídrico e novas pesquisas para buscar novas alternativas econômicas”, considerou. “O mais indicado seria uma combinação de fatores, e não medidas isoladas”, disse. (Valéria Sinésio)

 

 

Publicado por

Talis Andrade

Jornalista, professor universitário, poeta (13 livros publicados)

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