Rio Cuiabá está seco e 19 afluentes já estão mortos

Equipe da Coordenadoria Estadual de Defesa Civil visita nascente do Cuiabá, em Rosário Oeste. Mário Vilela
Equipe da Coordenadoria Estadual de Defesa Civil visita nascente do Cuiabá, em Rosário Oeste. Mário Vilela

Engana-se quem acredita que o rio Cuiabá não esteja morrendo. Dos seus 29 afluentes, 19 estão mortos. São 17 contribuintes na margem esquerda; 10 vivem tragicamente, quase secos, constituindo-se em poças de água.

Entre os sobreviventes, estão os rios Manso (por causa da usina e dos interesses diversos que o cercam), o Coxipó e o ribeirão do Lipa. Alguns dos exauridos: os ribeirões Marzagão, Forquilha, Aleixo, Pai Caetano, Buriti e Pariba.

No lado direito, somam-se 12; ou melhor, 3, pois 9 estão em fase terminal. Constam apenas sob aspecto quantitativo dos mapas geográficos dos cursos acadêmicos e servem para enfeitar as paredes das repartições públicas.

Os vivos são os rios Nobres (próximo da cabeceira), o córrego Cuiabazinho (que, atualmente, está com fluxo de água maior que o Manso) e o Quibó.

Nomes de certos reservatórios naturais que soam apenas como decorativos: os rios Jangada e Pari, o córrego Carandá e o reibeirão Esmeril.

As informações são da Coordenadoria da Defesa Civil do Estado de Mato Grosso, cujos funcionários percorrem anualmente os rios, córregos e ribeirões que se ligam ao Cuiabá, da cabeceira até a foz.

Ele é formado pelos rios Cuiabá da Larga (margem direita) e Cuiabá do Bonito (esquerda), que se encontram na região de Limoeiro, no município de Rosário Oeste. E desemboca no Pantanal, ao se encontrar com o rio Paraguai.

O Cuiabá é o rio que mais deposita água no Pantanal mato-grossense. Em
seguida aparecem o Miranda e o Taquari, de Mato Grosso do Sul.

O Cuiabá possui 934 quilômetros de extensão, segundo uma cartilha da Defesa Civil de 25 de maio de 1993. Porém, o professor José Roberto Borges Monteiro, do Departamento de Botânica e Ecologia da UFMT, afirma em um artigo sobre mata ciliar, publicado este ano no livro “Rio Cuiabá Como Subsídio Para Educação Ambiental”, que a distância entre seu começo e seu fim é de 828 quilômetros.

Monteiro acrescenta que a área de drenagem do Cuiabá corresponde a 3,8 mil quilômetros quadrados, composta por extensas seções de veredas.

A aniquilação dos “braços d´água” vem ocorrendo com maior incidência de 10 anos para cá, assegurou Domingos Valerio Iglesias, coordenador da Defesa Civil.

A razão para a mortandade do rio é o esgotamento do lençol freático (camada líquida logo abaixo do solo). O que abastece e garante a retenção de água nesse reservatório subterrâneo é a quantidade de chuvas, o tipo de solo da bacia hidrológica, a cobertura vegetal e as ondulações do terreno.

Portanto, apenas o desmatamento configura-se majoritariamente como ação do ser humano. As demais são provocadas pelo processo de resfriamento das águas do oceano e pelas condições atuais da crosta, pois o formato e a constituição do subsolo e do relevo são resultados de uma evolução transcorrida durante milhões de anos, marcada por ações e reações de fenômenos naturais, como as ventanias e as enxurradas. É o que garante Iglesias.

Na história da consolidação do território mato-grossense, o rio Cuiabá sempre foi protagonista. De fonte de sustento dos índios paiaguás a principal destino do esgoto de uma cidade com 800 mil habitantes, o velho rio e sua saga contam três séculos de invasão, conquista, vida e morte. “Se não houvesse o rio Cuiabá, a tentativa de povoar essa região teria resultado em desastre”, garante o historiador Lenine de Campos Póvoas, autor de “História Geral de Mato Grosso”.

Segundo ele, toda a conformação territorial do oeste brasileiro está ligada aos rios. Dois séculos antes da chegada das bandeiras paulistas a Mato Grosso, já havia espanhóis explorando a região, em busca de rotas mais seguras rumo ao território peruano. “E o caminho que eles utilizavam era o fluvial”, conta.

Quando vieram, no início do século 18, os paulistas buscavam escravos e ouro. Póvoas conta que as bandeiras só foram viabilizadas pela existência de uma rota fluvial partindo de São Paulo rumo ao centro do país. “Em São Paulo, ao contrário dos outros estados do litoral, os grandes rios caminham da Serra do Mar para o interior, ou seja, eles foram feitos para ajudar o conquistador”.

Saindo do rio Tietê, as expedições geralmente seguiam pelos rios Pardo, Taquari e Paraguai, rumo a territórios repletos de povos indígenas – escravos em potencial – e ouro. Repleta de perigos e obstáculos, a jornada durava cerca de seis meses. Algumas comitivas chegavam a ter 400 pessoas. “Muitos trechos de cachoeiras tinham que ser cumpridos a pé, carregando as embarcações nas costas”.

O primeiro a dar notícias sobre esta região foi o bandeirante Antônio Pires de Campos que, em 1718, explorou o ribeirão Mutuca e o rio Coxipó até o encontro com o Cuiabá. “Naquela época, o rio, que não era esse esgoto de agora, permitia embarcações grandes, os chamados batelões”, conta Póvoas. “Mas Pires de Campos não encontrou o ouro, só índios”.

Mais sorte teve Pascoal Moreira Cabral. Em 1719, sua bandeira descobriu ouro no rio Coxipó, dando partida à ocupação do território mato-grossense. Nascia ali o Arraial da Forquilha (hoje o distrito de Coxipó do Ouro).

Em 1722, uma descoberta mudaria os rumos da história e o destino do rio Cuiabá. “Miguel Sutil construiu sua casa às margens do rio Cuiabá. Certo dia, ao ver que faltava açúcar, pediu os índios lhe trouxessem mel. Eles trouxeram ouro”, conta Póvoas. “Ele havia encontrado uma das maiores jazidas de ouro de todo o mundo”.

Com a descoberta das novas jazidas, a povoação inicial foi gradativamente se mudando para a região do rio Cuiabá. “A partir do córrego da Prainha, onde estavam as lavras do Sutil, uma cidade começou a se constituir rumo ao Porto”.

Em condições extremamente desfavoráveis aos colonizadores, os rios fizeram a diferença. Todo o comércio com São Paulo era feito por meio do Paraguai, o Cuiabá, o Vermelho e o São Lourenço. “Eram a espinha dorsal de Mato Grosso”, diz Póvoas.

Pelo rio Cuiabá, chegavam escravos, alimentos, remédios e roupas, além de novos exploradores, interessados não só nas jazidas de ouro, mas nas terras férteis da região do rio abaixo. “O rio Cuiabá, após suas enchentes, deixava grandes campos fertilizados e propícios à agricultura. Era um terreno muito produtivo, uma réplica do que acontece no rio Nilo, no Egito. As beiras do rio foram se povoando nesta época e, mais tarde, surgiriam ali muitos engenhos de açúcar e fazendas de gado”.

Em meados do século 18, já havia indícios de que aquela ocupação não seria transitória, ajudando a consolidar a porção portuguesa das terras do “novo mundo”. “Quando o vice-reinado do Prata foi se dividindo (Argentina, Paraguai e Uruguai), o Brasil já tinha sua unidade garantida, graças aos rios, inclusive o Cuiabá”, lembra Póvoas.

Como meio de comunicação com os grandes centros políticos e econômicos do litoral, os rios perderam importância no final do século 18. Segundo Póvoas, a longa duração das expedições fluviais (que só permitiam o abastecimento de Mato Grosso duas vezes ao ano) e os cada vez mais freqüentes ataques dos índios paiaguás forçaram os colonizadores a buscar rotas terrestres até o litoral – cortando o território de Goiás.

A assinatura de um tratado bilateral, em 1856, faria novamente deslanchar a hidrovia do Prata, em franca operação até o início do século 20 (ver matéria). Por outro lado, o desenvolvimento do núcleo urbano começou a exigir mais do rio como fonte de água, alimento e via de escoamento dos dejetos. Mais uma vez, o velho Cuiabá correspondeu, sustentando o desenvolvimento da cidade até os dias de hoje.

Para o historiador, se o rio foi fundamental no período colonial, hoje é ainda mais imprescindível. “Se não fosse o rio Cuiabá, eu repito, a tentativa de povoar essa região seria um desastre. Mas estamos nos aproximando de um desastre ainda maior, pois, se hoje o transporte fluvial não representa mais nada para a cidade, o mesmo não podemos dizer do abastecimento de água, cuja única fonte é a mesma do tempo dos colonizadores”.

Em 1933, lembra Póvoas, o Rio Cuiabá atingia 1,3 metro no período de maior estiagem. “Hoje, com a seca ainda começando, ele já está abaixo de zero”, lamenta. “Logo vamos ter 2 milhões de habitantes em Cuiabá e Várzea Grande. Ao mesmo tempo, os ribeirões e córregos que alimentam o Cuiabá estão secando. Vai haver água para matar a sede de toda essa gente?”. (Diário de Cuiabá)

A poluição chegou a tal ponto, que o número de peixes diminui ano após anos. Encontrar um peixe realmente grande já virou algo raro. Certos pescadores acham perigoso consumir peixes pegos no rio Cuiabá. Se você achar um peixe de 10 a 20 quilos tem que pegar, tascar um beijo nele e falar: ‘Você é um herói!’, e depois soltá-lo novamente no rio. O curimbatá tem um gosto de óleo e um sabor forte, diferente se você pescar de outro lugar” - Benedito Moia Filho
A poluição chegou a tal ponto, que o número de peixes diminui ano após anos. Encontrar um peixe realmente grande já virou algo raro. Certos pescadores acham perigoso consumir peixes pegos no rio Cuiabá. Se você achar um peixe de 10 a 20 quilos tem que pegar, tascar um beijo nele e falar: ‘Você é um herói!’, e depois soltá-lo novamente no rio. O curimbatá tem um gosto de óleo e um sabor forte, diferente se você pescar de outro lugar” – Benedito Moia Filho

 

 

Publicado por

Talis Andrade

Jornalista, professor universitário, poeta (13 livros publicados)

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