Lobisomens

Por:  

Rafa Camargo
Rafa Camargo

 

 

Não criança, e ainda não homem, um garoto atravessa em diagonal a esquina da Avenida Paulista com a Rua da Consolação. Pés descalços, cabelos curtos, camisa aberta, bermuda suja. Os carros param, ele ri. Exposto à morte, talvez também venha a matar se for preciso ou se, pelo menos, vier ao caso. Sua vida banalizada não ensina que outras também podem valer alguma coisa. Fácil ver que não tem pai, nem mãe. Escola, perguntamo-nos, onde? Papel do Estado? Dizem que o capitalismo é a prática do “estado mínimo”.

 

Deve ser aquele “mínimo” que se usa para salvar ricos à beira da falência como Aiquebatista. Enquanto isso, dizem que o filho de Aiquebatista, ele mesmo bem jovem e bem longe da esquina da Paulista com a Consolação, se tornou campeão brasileiro em luta de tomates. Ser jogador de tomates é uma nova modalidade no cenário dos esportes criada pelo menino rico. Fácil ver que, se este menino tem pai ou mãe, isso não tem lhe ajudado muito.

Dizer que a rua é a casa do menino da esquina seria pura retórica. O jovem usa o chão como cama, o muro como banheiro, a lata de lixo como mesa da cozinha. O filho de Aiquebatista tem piscina, lustres de cristal, banheira de hidromassagem, caviar e champagne para se alimentar em uma mesa de madeira de lei e mármore importada, desenhada por um designer mundialmente famoso. O menino da esquina sem pai nem mãe não tem 15 anos e não sabe como veio parar ali naquele mundo frio e seco de cortar o corpo e a alma. Não tendo o que comer, talvez se contentasse com um tomate desperdiçado da casa de Aique, talvez também quisesse brincar com os jovens bem vestidos com roupas de marcas usando drogas caras, diferente da cola e do crack que ele arranja de vez em quando. Mas ele não faz parte de nenhuma festa, nem das sobras de natal ou ano novo, não é convidado em lugar algum, todos tem medo dele. Só lhe resta atirar-se na frente dos carros para ver o que acontece.

No entanto, cães andam ao seu redor, são seus companheiros e não o temem. A diferença entre eles é muito pequena. Andando juntos, num movimento de matilha, parecem todos a mesma coisa.

Nós que assistimos a cena não gostaríamos de escrever esta crônica. Gostaríamos de falar de algo mais bonito. Mas não existe outra cena para a qual se possa olhar quando qualquer imagem é ameaça de cegueira. Por isso, fico pensando que há um Aiquebatista sorridente dentro de cada um de nós, e que é este Aiquebatista que joga o menino na zona cinzenta da rua ou lhe ensina a luta de tomates transformando-o num idiota.

Entre a família e o Estado há um acordo em nome da violência sob a sutil forma do abandono. Talvez o menino da rua, privado de sua cidadania, seja um desses seres da margem, um lobisomem que habita, entre a casa e a floresta, o espaço abandonado da rua. Talvez o lobisomem também seja o imbecil a lutar com tomates por pura desfaçatez e falta de inteligência moral.

Medo, por fim, é o sentimento geral gerado e experimentado por cada ser que pensa, em uma sociedade que torna claro a cada dia que o homem é o lobo do homem.

Publicado por

Talis Andrade

Jornalista, professor universitário, poeta (13 livros publicados)

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