Justiça condena PMs por massacre no Carandiru. Falta quem autorizou

BRA_AG carandiru

 

Um júri popular formado por sete pessoas condenou na madrugada deste domingo (21), no Fórum Criminal da Barra Funda, zona oeste da capital paulista, 23 policiais militares a 156 anos de prisão cada um pela morte de 13 detentos no massacre do Carandiru, como ficou conhecido a ação que terminou com 111 pessoas assassinadas na Casa de Detenção de São Paulo, em 2 de outubro de 1992. Um dia de terrorismo estatal, que o Brasil não pode esquecer. Que comprova que o sistema penitenciário brasileiro é um matadouro como qualquer outro campo de concentração nazista. E que existe a cadeia para os pobres, e prisão especial para os ricos.

Fleury admite ‘responsabilidade política’ pelo massacre do Carandiru

O coronel Ubiratan Guimarães sempre declarou que “recebeu ordens superiores”. Nunca apontou nomes. Mas a justiça jamais quis investigar ou punir os mandantes do Massacre do Carandiru.
O governador é o comandante das polícias estaduais. A “responsabilidade política” prova este comando, inclusive constitucional.  Entenda-se por este nome “política” várias coisas, e precisamente: 1. a doutrina do direito e do moral; 2. a teoria do Estado; 3. a arte ou a ciência do governo; 4. o estudo dos comportamentos inter-subjetivos.
Principalmente no Brasil presidencialista, onde impera o politicismo no governo federal e nos governos estaduais. Isto é, a prevalência ou a excessiva importância que as exigências políticas assumem frente às outras exigências, isto é, as exigências científicas, artísticas, morais, religiosas etc.
“A responsabilidade política do evento é minha, porque eu era o governador”, assumiu Luiz Antonio Fleury Filho. Confessou pela certeza da impunidade no passado, hoje, e sempre.
Ele chamou o Massacre do Carandiru de “evento”.
O atual presidente do maior tribunal do mundo, com 260 desembargadores, o de São Paulo, também assumiu a responsabilidade pelo Massacre do Pinheirinho. O desembargador  Ivan Ricardo Garisio Sartori classificou o violento despejo policial de “episódio”. Faltou dizer: mero episódio.
O policial Fleury realizou um governo escandaloso, sangrento e corrupto. Escreve Gisele Brito, da Rede Brasil Atual:

“A responsabilidade política do evento é minha, porque eu era o governador. A penal cabe aos acusados responderem”, afirmou Fleury no segundo dia de julgamento de 26 dos 84 policiais indiciado pelas mortes. O Tribunal do Júri ocorre no Fórum Criminal da Barra Funda, zona oeste de São Paulo. Ele depôs como testemunha de defesa dos agentes de segurança.

O ex-governador relatou que a ordem para entrada da PM foi dada pelo então secretário de Segurança Púbica doestado, Pedro Franco de Campos, que também depôs hoje como testemunha de defesa. “Ele tinha autonomia”, disse.Fleury lembrou que estava em Sorocaba, interior de São Paulo, no dia do episódio, que demorou a se inteirar da situação (“Na época não havia telefonia celular”, disse) e que, ao chegar à capital, o massacre já havia ocorrido. Ele afirmou, porém, que a ação da PM foi “necessária e legítima”.

Eleições e PCC

Durante seu depoimento, o ex-governador negou que tenha escondido o número oficial de mortos para evitar prejuízos eleitorais. A invasão ocorreu em 2 de outubro, um sábado. No dia seguinte haveria eleições municipais. A totalizaçãodos 111 mortos só se tornou pública às 16h de domingo, uma hora antes de as urnas serem fechadas. Antes, o governo falava que havia entre 40 e 60 vítimas. Fleury disse que a demora na divulgação se deu por “cautela”.

Ele também refutou a tese de que o grupo criminoso Primeiro Comando da Capital (PCC) tenha surgido por causa domassacre. “O PCC, que dizem ter sido criado no meu governo, era só um time de futebol, porque não teve espaço para crescer”, ironizou. Segundo Fleury, o grupo só fortaleceria no governo seguinte, do tucano Mário Covas.

“Espalhamento”

Pedro Franco de Campos falou ao júri depois de Fleury e confirmou que estava à frente da operação, que conduziu por telefone porque a presença dele no local “não foi solicitada”. Ele reforçou a tese de que havia uma rebelião no Pavilhão 9 (rechaçada pela acusação) e disse que a invasão ocorreu para que não houvesse o “espalhamento” para o Pavilhão 8.

Campos afirmou que conversou “pessoalmente” com o coronel Ubiratan Guimarães, comandante da Rota à época, e que teria dito a ele: “Havendo necessidade, pode entrar”. O comando in loco das operações teria ficado com o secretário-adjunto Antonio Filardi Diniz.

Publicado por

Talis Andrade

Jornalista, professor universitário, poeta (13 livros publicados)

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