Seis sessões para aprender a fazer sexo

por Mafalda Santos

as sessões

Na calha dos óscares, hoje decidi falar de um tema que é abordado por um dos filmes que ainda se encontra em exibição nas salas de cinema portuguesas e que levou a que Helen Hunt tivesse sido nomeada, este ano, para melhor atriz secundária pela Academia: Seis Sessões ou “The Sessions”, no título original.

“Seis sessões” conta a história verídica do jornalista, poeta e escritor Mark O’Brien, que em criança contraiu poliomielite e que, derivado disso, ficou paralisado até ao resto da sua vida. Mark, apesar de paralisado e condenado a uma maca e a um “pulmão de ferro” que lhe garantia o oxigénio necessário à sua sobrevivência, tinha – à semelhança do comum dos mortais – desejos sexuais que, derivado do seu estado e condição física, não eram satisfeitos ou resolvidos. Por isso, aos 38 anos e ainda virgem, decidiu recorrer a uma terapeuta sexual para o ajudar a ultrapassar esta situação, garantir-lhe confiança enquanto ser sexual ativo e ir até onde nunca ninguém tinha ido.

O filme é uma história comovente, divertida e bastante humana de uma questão que é tudo menos pacífica: as “surrogates” (título original em inglês), que se assumem como terapeutas sexuais e que ajudam a ultrapassar os mais variados traumas, a descobrir o corpo e a permitir que muitos homens em condições físicas adversas (e não só), obtenham o prazer e a confiança de tirar partido e satisfação da experiência sexual plena.

Mas isso não é o que uma vulgar prostituta também faz, perguntam muitos de vocês? Haverá quem diga que sim e há quem diga que não, pelo menos assim defendem estas terapeutas sexuais que, nos Estados Unidos, têm um código de ética e uma Associação Profissional regulada.

Terapeuta ou prostituta? As opiniões dividem-se.

Há diferenças entre uma terapeuta sexual (surrogate) e uma prostituta – e embora a profissão seja polémica e existam códigos de conduta – a verdade é que há estados norte-americanos que não a aprovam e permitem. A linha que divide esta atividade pode ser ténue e confusa para muitos, ficando sempre uma certa indecisão sobre o que acontece entre quatro paredes, mas para estas terapeutas sexuais, o foco da questão não é o sexo, mas sim a familiaridade e a intimidade criada com o paciente, levando-o a quebrar os seus próprios preconceitos e barreiras. Não se procura o prazer pelo simples prazer. Procura-se ultrapassar problemas, aprender, libertar fantasmas e ajudar a que estes homens, no futuro, consigam – com base nos conselhos recebidos – ter uma vida sexual normal e satisfatória com as suas companheiras sem recorrer a mais nenhuma terapia sexual. E isso, tanto se adequa a um deficiente ou paraplégico que não sabe como iniciar a sua vida sexual ou o que fazer, por total ausência de contacto físico nesse sentido, como a um homem perfeitamente normal que viva assombrado pelo medo de não proporcionar prazer.

A terapia também se paga… e bem!

Na Europa não há equiparação possível. Não há cá “surrogates” que valham aos nossos deficientes ou aos nossos homens que tenham problemas sexuais e necessitem de ajuda. Ou resolvem a coisa com psicoterapia e eventuais tentativas de erro, ou estão entregues à sua própria sorte. A profissão “terapeuta sexual” não existe nem é reconhecida e tudo o que recorra a serviços que envolvam sexo pelo meio e que são pagos, só há uma catalogação possível: prostituição.

Voltando ao filme “Seis Sessões” e ao papel interpretado por Helen Hunt – que deu vida à terapeuta sexual (ou surrogate) Cheryl Cohen Greene – hoje com 68 anos e ainda em exercício das suas funções, a mesma refere; “Necessitamos de um parceiro para resolver a maior parte dos nossos problemas sexuais e para os homens solteiros e sem companheira, isso é um enorme problema.”

A senhora Greene, que permaneceu amiga do escritor Mark O’Brien até à morte do mesmo em 1999, continua casada com um “maravilhoso e compreensivo companheiro”, segundo palavras da mesma, podendo lucrar por ano, mais de 50 mil dólares. O preço das consultas ronda os 300 dólares e tem a duração de 2 horas, não ultrapassando em número, as seis sessões. Geralmente é na sexta e última sessão que ocorre penetração e, por regra, não existe mais contacto físico ou presencial. O objetivo não é tornar a terapia recorrente, como se fossemos ao psicólogo ou fidelizar clientes. O objetivo é dar-lhes as ferramentas para, a partir daqui, dependerem de si próprios.

E se a senhora Greene foi uma percursora deste tipo de terapia, hoje podemos dizer que o preço dos seus serviços até é bastante em conta e com um grande desconto, pois há surrogates a cobrar entre 3.000 e 5.000 dólares por sessões de duas horas e com um número mínimo que variam entre as 12 e as 15, ou seja, mais do dobro que as praticadas pela senhora Greene.

Caso para dizer que, como em tudo na vida, a quantidade nem sempre significa qualidade do serviço.

Publicado por

Talis Andrade

Jornalista, professor universitário, poeta (13 livros publicados)

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