Chacina dos fiscais em Unaí: nove anos depois, justiça à vista?

 

Antero Mânica, depois de comandar a chacina, foi condecarado pela Assembléia Legistiva de Minas Gerais
Antero Mânica, depois de comandar a chacina, foi condecarado pela Assembléia Legistiva de Minas Gerais

por Gilvander Luís Moreira

Era dia 28 de janeiro de 2004, 8h20 da manhã, em uma emboscada, cinco jagunços dispararam rajadas de tiros em quatro fiscais da Delegacia Regional do Ministério do Trabalho, perto da Fazendo Bocaina, município de Unaí, Noroeste de Minas Gerais. Passaram-se 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8 anos. Já foi aprovada a Lei 12.064, que criou o dia 28 de janeiro como Dia Nacional de Combate ao Trabalho Escravo. Mas e a Justiça? Por onde anda? No dia 28 de janeiro de 2013 completam 9 anos da chacina.

Na maior chacina contra agentes do Estado Brasileiro, foram ceifadas as vidas de Erastótenes de Almeida Gonçalves (o Tote), de 42 anos, João Batista Soares Lage, 50, e Nelson José da Silva, 52, além do motorista Aílton Pereira de Oliveira, 52. Por quê? Como servidores éticos, estavam cumprindo seu dever: fiscalizando fazendas do agronegócio no município de Unaí. Multaram vários fazendeiros. A família Mânica, por exemplo, foi multada em mais de 3 milhões de reais. Motivo das multas: trabalhadores em situações análogas à escravidão, sobrevivendo em condições precárias e imersos no meio de uso exagerado de agrotóxicos. Por isso, os fiscais foram ameaçados de morte. O fiscal Nelson chegou a fazer um relatório alertando sobre as ameaças que vinha sofrendo.

Quem matou e quem mandou matar? Um arrojado processo de investigação das Polícias Federal e Civil apresentou um grande elenco de provas robustas, tais como: confissão dos jagunços que estão presos, pagamento de 45 mil reais em depósito bancário, nomes e identidades dos jagunços no livro do hotel, em Unaí, onde estavam hospedados os fiscais, comprovando que lá dormiram também os jagunços; depoimento do Ailton, motorista dos fiscais, que, após recobrar a consciência depois do massacre ainda encontrou forças para dirigir a camionete até a estrada asfaltada, mas morreu sendo levado para socorro em Brasília; uma série de telefonemas entre os jagunços e mandantes, antes e depois da chacina; um automóvel encontrado jogado dentro do lago Paranoá, em Brasília; relógio do Erastótenes encontrado dentro de uma fossa, na cidade de Formosa, GO  etc.

No 3º aniversário da chacina, dia 28 de janeiro de 2007, no local onde o sangue dos fiscais foi derramado na terra mãe, Dom Tomás Balduíno, da Comissão Pastoral da Terra (CPT) alertou: “Os fiscais são mártires da luta contra o Trabalho Escravo. A Comissão Pastoral da Terra diz que há mais de 25 mil pessoas ainda submetidas a situação análoga à escravidão no Brasil. Os fiscais foram vítimas do agronegócio, das monoculturas da soja, do feijão, da cana-de-açúcar, do eucalipto. Exigimos justiça já, em nome do Deus da vida.”

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Morre um dos acusados de participação na Chacina de Unaí

Um dos acusados de participar do crime que ficou conhecido como Chacina de Unaí, Francisco Helder Pinheiro, de 77 anos, morreu sem ser julgado. O homem foi vítima de um Acidente Vascular Cerebral (AVC) em novembro de 2012, mas após cerca de dois meses internado no Hospital Municipal de Contagem, na Grande BH acabou morrendo na segunda-feira (7).

O homem, também conhecido como Chico Pinheiro, estava preso desde agosto de 2004 na penitenciária Nelson Hungria, que também fica em Contagem, aguardando a data do júri a que seria submetido. A demora na definição motivou um pedido de agilidade do Ministério Público Federal, que afirmou que não há entrave processual que explique a demora.

Segundo o delegado Wagner Pinto que, à época, participou das investigações, Chico Pinheiro foi o responsável por contratar os homens que executaram três auditores e um motorista do Ministério do Trabalho em uma emboscada na zona rural de Unaí, no noroeste do Estado. O acusado seria o responsável por elaborar e conferir a execução do plano.

— Ele morava em Formosa, em Goiás, e já era bastante conhecido na região por contratar pistoleiros para cometerem vários delitos de homicidios na região de Goiás e também em Minas Gerais.

O principal acusado da chacina é o empresário Norberto Manica que, inconformado com as constantes fiscalizações e multas que eram aplicadas a ele, teria resolvido “acabar” com os auditores.

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Maria Clara Prates – Estado de Minas

A novela do julgamento, que tem entre os réus o milionário fazendeiro Noberto Mânica, maior produtor de feijão do país, e seu irmão, Antério Mânica (PSDB), prefeito reeleito de Unaí, está muito longe do fim. Ninguém se arrisca a fazer previsões para a data do júri

Publicado por

Talis Andrade

Jornalista, professor universitário, poeta (13 livros publicados)

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