Não são “islâmicos”

por Mauro Malin

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O grau de desconhecimento do chamado Ocidente sobre os conflitos no norte do Mali se reflete na hesitação da imprensa ao denominar as forças que agora são combatidas por militares franceses.

Os fenômenos sociopolíticos nessas áreas sulinas do Deserto do Saara são tão intrincados e remotos que a imprensa, e mesmo especialistas, têm dificuldade para descrevê-los. Isso é compreensível. Mas não o é a simplificação preconceituosa que leva praticamente toda a mídia jornalística a usar o adjetivo “islâmicos”, acompanhado ou não de outro adjetivo – por exemplo “radicais” –, para denominar esses guerrilheiros e terroristas.

A imprensa joga assim água no moinho dos jihadistas, ou, mais precisamente, combatentes ligados à al-Qaeda no Magreb Islâmico (AQMI) ou a qualquer outro dos grupos que se haviam coligado para lançar em 2012 a primeira ofensiva no norte do Mali. A saber: a dissidência do AQMI chamada Mujao – Movimento pela Unidade e o Jihad na África do Oeste; o grupo salafista tuaregue Ansar Dine, “defensores da fé”; e o também tuaregue MNLA, Movimento Nacional de Libertação de Azauade, área de confluência do Saara com a região do Sahel.

Lenha na fogueira

Os islamitas adeptos da luta armada e do terrorismo usam a bandeira do insulto que é feito a todos os islamitas. Em dezembro, o londrino The Independent publicou declaração de um “veterano líder islâmico” segundo a qual o povo dos Estados Unidos é “contra o Islã”.

“Jihadistas” nem sequer é denominação aceita consensualmente pela cultura muçulmana como designação de guerrilheiros ou terroristas. Talvez menos preconceituosa, certamente quando comparada a islâmicos, ou islamitas (islamistas, na versão de Portugal), muçulmanos, maometanos etc.

A denominação só revela a dificuldade de descrever o objeto e não faz o menor sentido quando se sabe que em toda a parte setentrional da África, imprecisamente segundo uma linha que vai de Monróvia, capital da Libéria, até Adis-Abeba, capital da Etiópia, predomina amplamente a religião muçulmana.

A denominação neutra (combatentes, insurgentes, rebeldes) não traduz preconceito. Mais preciso é usar o nome específico: militantes da AQMI, terroristas da al-Qaeda etc.

Eis uma amostra de designações encontradas no fim de semana de 19-20/1 em jornais e revistas:

>> O Globo –Radicais islâmicos, rebeldes.

>> O Estado de S. Paulo – Militantes islamitas, combatentes islâmicos, militantes da AQMI, islamitas, insurgentes, grupos islâmicos, insurgentes islâmicos, fundamentalistas islâmicos.

>> >> Folha de S. Paulo –Islamitas, militantes islamitas, grupo islamita, grupo terrorista, militantes do grupo terrorista “Signatários por Sangue”, terroristas.

>> Veja – Fundamentalistas, tuaregues, terroristas islâmicos, mercenários (uma parte dos rebelados), indivíduos adoráveis, bando, rebeldes, força terrorista, islâmicos (“islâmicos e demais facínoras”), terroristas, praga fundamentalista, terroristas islâmicos, terroristas da al-Qaeda, grupos islâmicos, cão cérbero.

>> Valor (21/1) – Militantes islâmicos ligados à Al Qaeda.

>> Época – Radicais islâmicos, grupos terroristas islâmicos, militantes, combatentes, insurgentes, terroristas próximos ao grupo AQMI, fundamentalistas, islamistas, movimento tuaregue por independência do norte malinês, discípulos salafistas africanos, grupos radicais, extremistas, grupos islâmicos, militantes, grupos extremistas, extremistas, forças fundamentalistas.

>> Associated Press – AQIM (AQMI)

>> The Economist – Incursão islamita, coluna rebelde, grupos islamitas, jihadistas.

>> El País – Rebeldes tuaregues, rebeldes islamistas, grupos islamistas, radicais islamistas.

Mesquita em São Paulo
Mesquita em São Paulo

Um mínimo de informação

A questão de fundo é a vasta ignorância que preside todo esse noticiário. Um mínimo de informações deveria ser passado aos leitores. (A ignorância não é atributo dos jornalistas. É ampla, geral e irrestrita. E inevitável, dadas as características geográficas, históricas e sociais da região. Ver “Guns, cigarettes & Salafi dreams: the roots of AQIM“, de Andy Morgan.)

O Mali é uma construção artificial da França, antiga potência colonial (ver no mapa as fronteiras oeste-centro, centro-norte e norte-leste, todas imensas linhas retas).

O governo militar nacionalista da Argélia transformou em sangrenta guerra civil uma vitória eleitoral de partido religioso islâmico em 1991.

Os tuaregues são um povo berbere (hoje, em torno de 1,5 milhão de pessoas, segundo o El País) que estabeleceu rotas comerciais transaarianas quando camelos foram domesticados. Tornaram-se nômades quando foram deslocados do sul do Mediterrâneo por tribos de invasores árabes nômades saídos do Oriente Médio ou da Península Arábica.

Os tuaregues são divididos em tribos e confederações de tribos. Em sua descida rumo ao centro do continente, houve mesclas étnicas com negros. A descolonização fez com que suas terras ficassem repartidas entre Mali, Argélia, Níger, Líbia, Chade, Burquina Faso e Nigéria. Durante séculos, transportaram cativos negros para senhores árabes. O ressentimento das populações negras não foi superado.

Mesquita em Lages, Santa Catarina
Mesquita em Lages, Santa Catarina

Publicado por

Talis Andrade

Jornalista, professor universitário, poeta (13 livros publicados)

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