Como ser presa duas vezes no mesmo dia

por Mariana Albanese

No dia 13 dezembro de 2012, os moradores do Vidigal acordaram com a notícia de que uma retroescavadeira iria demolir sua única área de lazer para dar lugar à nova sede da UPP Vidigal. Sem avisar a Associação dos Moradores sobre a subida, muito menos apresentar um mandado, eles foram derrubar tudo. Fui lá com meu celular, acompanhar a movimentação para o site Vidiga! e o perfil Vidiga Vidigal. Acabei agredida, roubada, presa e agora respondo por lesão corporal e desacato à autoridade.

Para você que nunca foi preso e nem quer ser, um roteiro de quem chegou bem perto do xadrez.

Mariana-Record-UPP-Agressão

A PRISÃO
A emoção de ser presa, na minha vida, só se comparou a de ver, do barco, a bandeira da Ilha de Caras ao vento. Sabe a sensação de que está acabando a lista de coisas surreais que precisam acontecer na sua vida? Então.
E aí foi. “Você está presa!”: cinco policiais me imobilizaram, enquanto eu gritava “pode bater que estão filmando!”. Aquilo era tão louco, que só me restava rir: “Júlia, tira foto da minha algema! Eu nunca fui presa e quero registrar esse momento!”. Dentro do camburão, uma Mariana sorridente posou para fotos.
Não havia motivos para eu me render. Se eu estava certa, se levei um tapa, se destruíram meu celular e eu ainda fui presa, por que chorar? O jeito era esperar uma das CINCO CÂMERAS que registraram a UPP do Vidigal agredindo, e depois prendendo uma jornalista, fazerem seu papel.
Primeiro, foi o olhar matador. Poucos segundos antes de um tapa levar meu celular ao chão e um chute o esquartejar, eu sabia que seria agredida. O cabo Péricles, que tinha ordens do Capitão Fábio Pereira para “prender quem tentasse impedir” a demolição, estava lá para fazer o trabalho sujo.

1Eu filmava a confusão de longe e havia gritado, não para ele, mas para seus colegas cujo lema é “Servir e Proteger” (os interesses do Governo): “Vocês vão acabar com a UPP do Vidigal!”. Mas foi ele, que nem estava na minha linha de filmagem, quem me agrediu. E não pensei duas vezes em partir para cima dele, mesmo sabendo que perderia a briga. Na raiva, sua força se multiplica por mil. E se eu soubesse lutar boxe, o estrago teria sido feio. Ah, meu celular. Ninguém toca nele sem que eu vire um bicho!
Na confusão, minha bolsa caiu. Implorei para irem buscar. Mas nada. Fui para a delegacia sem documentos e telefone, e assim fiquei por dois dias, o que me impediu de fazer exame de corpo de delito.

DAS ALGEMAS
Não sei se você já foi algemado, pela polícia ou fetiche, mas algemas têm um segredo: se você ficar quietinho, elas não te machucam. Basta não girar os pulsos.
Mas a alça de meu macaquinho abriu e eu estava quase nua dentro da viatura. Então me esforçava para, com as mãos atadas na parte de trás do corpo, dar um jeito de ficar minimamente digna.
Quando a viatura parou na porta da 15ª DP, desci e pedi para o policial, que dirigia o carro, levantar minha roupa. Ele ficou sem jeito, mas fez isso. A situação foi um tanto constrangedora, a ponto do Péricles mandar o cara soltar minhas algemas – ou talvez porque ele pensou que eu, este elemento tão periculoso, não ousaria fugir da porta da delegacia.

DAS VANTAGENS E DESVANTAGENS DE ESTAR NUM CAMBURÃO
camburaoNa verdade, só vi uma coisa boa: andar na contramão e passar no sinal vermelho sem ser multada. Eles ligaram a sirene, enfiaram o pé no acelerador e rumaram para a Gávea como se eu tivesse acabado de decepar três cabeças.
Já a pior parte, é aquela área isolada no fundo do camburão. Foi o único momento em que eu realmente senti medo. Lá não há nenhuma saída de ar. Com o calor acumulado em horas no sol, estava o mais próximo que poderia chegar do inferno. Algemada, eu gritava e batia no vidro, implorando para me tirarem de lá. Não aguentaria mais cinco minutos sem desmaiar, sem qualquer exagero. Comecei a ficar tonta, faltava ar e eles quase não me ouviam, porque o vidro blindado dá uma proteção acústica. Mas aí o policial disse que me passaria para frente, se eu prometesse ficar quieta. Prometi, obviamente, e também não via exatamente uma forma de ficar muito agitada estando com as mãos algemadas para trás do corpo. (Acho que eles não te algemam pra frente por causa dos filmes americanos. Lembrei que você pode tipo enforcar alguém com a corrente. Obrigada, Hollywood).

DOS FÃS NA RUA
Tá aí uma coisa que nunca tinha parado para pensar: na forma como as pessoas te olham quando você está algemado dentro de um carro da polícia.
Claro que eu, com esse rostinho de moça bem criada, causava mais espanto que o comum. Teria ela assassinado os pais?
No canal do Leblon, um vendedor de biscoito fez um sinal: “força!”. Na Gávea, realmente me senti um ET. As pessoas me olhavam com uma curiosidade de circo das aberrações.
Dentro do Vidigal, quando parávamos no trânsito, às vezes eu dizia pra alguém: “fui presa…”. Do outro lado, a pessoa assentia com pesar.
Mas nunca vou esquecer de um menininho, de uns quatro anos. O policial “gente boa” (depois ele não ficou tão legal, porque depôs contra mim) parou pra falar com ele. Me espantava a cara de admiração da criança. A primeira geração do Vidigal que não chora ao ver uma farda. “Só vou ali fazer uma ocorrência e já volto”, disse pro menino, que então me viu no banco de trás. A expressão dele mudou. Ele perguntou com os olhos: “O que é isso?”. Pensei em dizer. Mas não achei justo detonar a imagem da polícia para o menino, que ali não entenderia que nem todos são do mal.

A SALA DE ESTAR DA DELEGACIA
Quando entramos na delegacia, o Péricles parou no carinha que faz as primeiras anotações. Anunciou o crime: “Desacato à autoridade”. O cara anotou. Depois: “E agressão”. O rapazinho olhou para a cara dele, olhou para a minha e perguntou: “Agressão da parte de quem???”.
Fiquei sentada algumas horas por lá. Chegaram meus anjos, Júlia Giglio e Raff Giglio.
Mais tarde, a Neusa Lima foi lá, prestar solidariedade. E, por fim, chegou o Sebastião Aleluia, o Doquinha, vice-presidente da Associação dos Moradores da Vila do Vidigal.
Minha mãe, Ana Maria, lá de São Paulo, ligava para toda a imprensa do Rio de Janeiro, para a Comissão de Direitos Humanos da Alerj (que foi impecável) e ligaria para a Dilma, se tivesse o telefone dela.
Ao mesmo tempo, os telefones da delegacia não paravam. “Vidigal. Vidigal. Vidigal”. Eles já estavam ficando meio chateados, principalmente quando a Record, o SBT e a Rede TV! chegaram lá.
O inspetor foi bem esperto. Primeiro, ouviu a gente informalmente. Depois, falou com os policiais. O Péricles tinha ido ao Miguel Couto fazer corpo de delito (imagino o resultado: “três botões arrancados”). Na volta, depôs por um tempão, criando a seguinte obra de ficção: “Mariana Albanese, no calor das discussões, lhe empurrou e deu uma pancada no olho esquerdo. Teve que se defender da agressão, empurrando e imobilizando a agressora. O telefone celular dela caiu no chão”.

QUER ROMANCE? LEIA UM LIVRO!
Quando chegou minha vez de depor, era só porrada. “Você incitou os moradores a se rebelarem?”. “Não perguntei o que aconteceu. Quero saber o que você fez”. Perguntei se podia registrar uma queixa contra o policial, ele disse que não, que era “tudo junto”.
Depois, pedi para ele incluir que permaneci algemada, mesmo sem oferecer resistência. Ele não queria colocar, porque aquilo não era um “romance pra você ficar contando história”. Eu disse que se ele não colocasse, eu não assinaria. Ele disse que se eu não assinasse, ele me prenderia. Que eu estava “desacatando” ele. Aí, para me provocar, escreveu: “E diz que foi algemada”.
Como eu já estava sem paciência, soltei: “Você tá me tirando, né?”. Ele me deu voz de prisão. Pra mim, ficou claro: se tirarem a prisão por desacato, metade dos policiais vai pedir o desligamento. É um orgulho que vem de dentro. Ele se levanta, levanta a voz e fala cantando, marcando cada sílaba: “Vo-cê es-tá pré-sa por de-as-ca-to à –au-to-ri-da-de”.
Achei legal aquilo e usando meu direito de cidadã, avisei que poderia da voz de prisão a ele também. Por desacato ao cidadão. Aí, antes que ele soltasse mais fumaça pelas ventas, o telefone tocou. Ele foi atender. E voltou um anjo.
Colocou que permaneci algemada. Depois, um investigador me disse que eu não ficaria presa se me negasse a assinar. Mas aí o texto estava certo e assinei. Fui liberada, dei entrevistas e decidi que voltaria ao Vidigal, mesmo com medo.

SEM LENÇO E SEM DOCUMENTO
Minha bolsa não apareceu por dois dias. Não tinha a chave de casa, nem documentos, nem dinheiro. Dormi na casa de uma amiga e usei sua roupa. Quando me devolveram a bolsa, descobri que estava sem o outro celular e R$ 50.
Agredida, roubada e presa duas vezes no mesmo dia, fui enquadrada no artigo 129 do Código Penal: Lesão Corporal Provocada por Socos, Tapas e Pontapés. Além de Desacato à Autoridade.

COMO DIZER OBRIGADA CENTENAS DE VEZES, SEM ME REPETIR
Faz cinco dias que isso aconteceu, e até agora não consegui responder a todos os amigos e anônimos que me escreveram. É tanta gente mandando “força”, “estou contigo” e até mesmo se desculpando por ser “de classe-média e acomodado”, que mudei minha forma de ver o mundo.
Eu achava que tinha mais gente ruim do que boa. Hoje, penso que as boas são maioria e fiquei com mais vontade de viver e lutar.
No Vidigal, 98% das pessoas com mais de 5 anos viram o vídeo da agressão. Chegam a gritar: “Filho, vem ver quem tá aqui! É a menina que apanhou”.
Depois de tudo, só me resta uma dúvida: coloco no meu portifólio o vídeo em que apareço na Globo, dando uma joelhada num policial?

povo banco poder indigados apatia

O Rio de Janeiro de Mariana Albanese

Mariana Albanese

 

Verão… Ai, o Verão… Abro a torneira e canto:

Rio de Janeiro
Cidade que nos seduz
De dia falta água
De noite falta luz.

Abro o chuveiro
Não cai nem um pingo
Desde segunda
Até domingo.

Eu vou pro mato
Ai! pro mato eu vou
Vou buscar um vagalume
Pra dar luz ao meu chatô.

 

 

Explicações mentirosas para o aumento do preço de energia

Os constantes apagões sempre têm uma explicação religiosa: “Satanás, como um raio, caiu do céu”. E nada se faz para exorcizar  o demônio. O Rio de Janeiro é uma cidade minada. Virou um inferno.
Depois que os serviços essenciais foram privatizados, as Anas cuidaram de regular os preços para o alto. Acima de qualquer orçamento da nova e velha classe média baixa.
Os piratas não investem.
BRA_OE luz privatização

Light

Dilma precisa deixar de ser a “dama de ferro” à Margareth Thatcher, que a Light é dos ingleses. Tem que dar uma de índio.

Evo Morales nacionaliza cuatro filiales de la empresa energética española Iberdrola
El presidente boliviano, Evo Morales, decretó este sábado la expropiación de las acciones de la española Iberdrola en dos distribuidoras de energía eléctrica en las regiones de La Paz y Oruro, una empresa de servicios y una gestora de inversiones.
“Nos hemos visto obligados a tomar esta medida para que las tarifas de servicio eléctrico sean equitativas en el departamento de La Paz y Oruro y la calidad de servicio eléctrico sea uniforme en el área rural y urbana”, afirmó Morales.Las firmas expropiadas son dos de las principales distribuidoras de electricidad en La Paz, Electropaz, y en Oruro, Elfeo, además de la empresa de servicios Edeser y la gestora de inversiones Compañía Administradora de Empresas.El mandatario ya expropió en mayo pasado las acciones de Red Eléctrica Española (REE) en la Transportadora de Electricidad (TDE).Iberdrola, a través de su filial Iberbolivia, posee el 89,5% de las acciones en la Empresa de Electricidad de La Paz (Electropaz) y el 92,8% en la Empresa de Luz y Fuerza de Oruro (Elfeo).Según el decreto leído por Morales este sábado en una comparecencia no anunciada, la estatal Empresa Nacional de Electricidad (ENDE) asumirá el control de las cuatro empresas nacionalizadas en representación del Estado boliviano.

La compensación a Iberdrola

Al igual que en anteriores expropiaciones, se dispuso también que la compensación a Iberdrola provendrá de una tasación realizada por una empresa independiente en el plazo de 180 días hábiles.

“En resguardo del interés público, el gerente general de ENDE contará con el apoyo de la fuerza pública para garantizar la continuidad de la distribución eléctrica” en La Paz y Oruro, agrega el decreto.

Morales justificó que hay una brecha grande entre las tarifas urbanas y rurales en estos departamentos, por lo que se decidió la “nacionalización” de las distribuidoras eléctricas.

“Esta medida garantizará el derecho igualitario de los ciudadanos que viven en el área rural, precautelando su economía con tarifas equitativas y un servicio de calidad uniforme. Lamentablemente nos han dejado unas diferencias enormes entre el área urbana y rural”, aseveró el mandatario.

Citó el caso de La Paz, donde la tarifa eléctrica urbana en promedio es de 0,63 bolivianos (0,09 dólares) por kilovatios/hora, mientras que en el área rural es de 1,59 bolivianos (0,23 dólares).

Otras expropiaciones

Morales ya expropió en 2010 las acciones de cuatro empresas generadoras de electricidad, incluidas dos filiales de la francesa GDF Suez y la británica Rurelec.

Además de las eléctricas, el mandatario ha nacionalizado una quincena de empresas de hidrocarburos, cementos y minas, entre otras, desde que llegó a la presidencia en 2006.

Con la expropiación de estas cuatro filiales se pone fin a la presencia de Iberdrola en Bolivia.

Desculpa para enganar os bestas
Desculpa para enganar os bestas

Copa do Mundo, o turismo predatório e a adultização da criança

Mauri König, em premiada reportagem, mostrou quanto o Brasil está “a mercê do turismo predatório”, com o seu lamentável universo de 250 mil prostitutas infantis. O mesmo König, que denunciou o tráfico de crianças-soldados brasileiras para o Paraguai.
Biografa o CPJ: “Em 2000,  enquanto investigava para uma série de artigos sobre o recrutamento e sequestro de crianças brasileiras para o serviço militar no Paraguai, König foi brutalmente espancado com correntes, estrangulado e largado para morrer perto da fronteira do Brasil, supostamente por três policiais paraguaios. Em 2003, foi forçado a abandonar sua pesquisa ao longo da região fronteiriça de Brasil, Paraguai e Argentina, depois de receber ameaças da policia local. Nenhum desses casos foi solucionado. Suas abrangentes investigações, nas quais expôs abusos de direitos humanos e corrupção, lhe trouxeram reconhecimento mundial e inúmeros prêmios jornalísticos, incluindo Prêmio Internacional da Liberdade de Imprensa 2012 do CPJ,  que recebeu em novembro em Nova York”.

O jornalista Mauri König após sofrer atentado no Paraguai: vida em risco para revelar o recrutamento ilegal de adolescentes brasileiros pelo serviço militar paraguaio
O jornalista Mauri König após sofrer atentado no Paraguai
Comprova König, que das cidades sedes da copa do mundo, Recife pouco investe na prevenção e no combate à exploração sexual de crianças e adolescentes.
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 Pobre Recife. Acontece que a Prefeitura tem dinheiro de sobra para investir em desfile de moda infantil.
Os desfiles de moda infantil e os concursos de beleza infantil promovem o consumismo, a adultização,  a erotização das crianças.
Em 17 de setembro último, menos de um mês antes de ser preso, denunciou Ricardo Antunes: “Uma das empresas do grupo do publicitário [Antônio Lavareda]  foi beneficiada com uma verba de R$ 200 mil reais pela Prefeitura do Recife. A contratação foi publicada no Diário Oficial da prefeitura e feita pelo regime de dispensa de licitação ou seja sem qualquer concorrência. O objeto é um evento de moda infantil.
‘É um patrocínio para uma ação de moda para inclusão dos artistas pernambucanos’, disse o presidente da Fundação de Cultura, André Brasileiro. Ao ser indagado o motivo da contratação  da empresa para o evento Shopping Day, que trata de moda infantil”.
Sob a rublica cultura, a prefeitura encobre inúmeras safadezas, inclusive os embalos de fins de semana, os comícios cantados superfaturados. No governo João Paulo, nos tempos que os jornalistas faziam a pergunta cretina sobre a virgindade de Sandy, a moça realizou, numa noite de uma semana natalina, um show de meio milhão de dólares.
A denúncia de Ricardo Antunes foi um dos motivos de sua prisão. Quando devia ser motivo de investigação pelas autoridades competentes.
O verdadeiro jornalista para o executivo e o judiciário de Pernambuco
O verdadeiro jornalista para o executivo e o judiciário de Pernambuco
Mauri König, que ora vive escondido dos delegados de polícia do governador Beto Rocha, se morasse no Recife já estaria morto ou preso, escreveu:
Copa do Mundo trará 500 mil turistas estrangeiros, entre eles muitos pornoturistas. Infância está vulnerável à exploração nas cidades-sedes
Quando a Copa de 2014 chegar, o Brasil terá provado ao mundo ser capaz de erguer uma dezena de odes de concreto ao esporte que o notabilizou como país do futebol. Terá estádios monumentais, mais aeroportos, metrôs e avenidas. Vai dispor para isso de R$ 27 bilhões, o equivalente a metade da economia de um ano inteiro de um país como o Paraguai, ou o Bahrein. Mas a Copa não é para todos. Uma parcela dos brasileiros já saiu perdendo, a começar pelas 170 mil pessoas ameaçadas de perder suas casas para dar lugar às obras. Há também os que ainda vão perder com a Copa, mas não sabem, e, ao contrário, pensarão estar tirando alguma vantagem.

O Brasil espera um grande movimento financeiro durante a Copa e, antes disso, com as obras de infraestrutura nas 12 cidades-sedes. Mas há uma ameaça por trás de tanta euforia: a concentração de operários nas obras, a grande movimentação de pessoas nos jogos e a circulação de dinheiro representam um risco maior às crianças socialmente vulneráveis. As redes de exploração sexual e de tráfico de seres humanos tendem a se organizar para recrutar mulheres, crianças e adolescentes para uma demanda que certamente crescerá com a vinda de mais de meio milhão de turistas, pelas estimativas do Ministério do Turismo.

Mais vulneráveis

Quem mais vai perder é uma infância já maltratada, que ficará sem Copa e sem direitos. As condições estão postas desde há muito. Durante 45 dias, a equipe da Gazeta do Povo percorreu 10.500 km pela costa brasileira, passando por Rio de Janeiro, Recife, Natal, Salvador e Fortaleza, as cinco cidades-sede da Copa onde crianças e adolescentes estão mais vulneráveis ao turismo sexual, um simulacro do turismo convencional que melhor se qualificaria como turismo predatório, pelo pouco que deixa e o muito que leva. O sexo turismo existe, ainda que governos e parte do setor turístico não o reconheçam. Leia mais

Veja vídeo

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A INFLUÊNCIA DA PUBLICIDADE NO CONSUMO DA MODA INFANTIL

por Tânia Patricia Cardoso

Concurso de beleza infantil
Concurso de beleza infantil

Pesquisas revelam que as crianças são alvos constantes da publicidade em prol do consumo, pois, de acordo com as estatísticas, elas influenciam 80% das decisões de compra de uma família. Neste sentido, a publicidade não se preocupa com as consequências de sua influência sobre o desenvolvimento infantil, assim atinge a criança por meio de estratégias direcionadas para um público que ainda não entende a intenção da propaganda e que, portanto, não é capaz de distinguir as representações enganosas da mesma. Desta forma, o presente trabalho tem como objetivo analisar a influência da publicidade no consumo, dando destaque à moda infantil, a partir da análise da publicidade da grife Lilica Ripilica, a fim de constatar os efeitos propagados pela mesma no desenvolvimento da criança, como a erotização precoce e o possível desaparecimento da infância. A pesquisa será fundamentada em autores que desenvolvem suas pesquisas na área, como Postman (1999) e Ariès (1981) que trabalham com a questão da infância e Shor (2010) e Ticianelli (2007) que analisam o tema publicidade, dentre outros.

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Erotização da infância e moda

Atualmente, a publicidade e a mídia vêm criando condições de incentivo ao comportamento erotizado de crianças e adolescentes que, de acordo com Puggina, revela-se de forma sutil, por meio do modo de vestir dos adultos, forma de posar e fotografar, ou mesmo, a imitação de comportamentos erotizados. Neste sentido, segundo o autor, esse processo de erotização pode ocorrer por meio do estímulo infantil para adotar comportamentos estereotipados, como: forma de vestir, uso de maquiagem, dança, dentre outros. Desta forma, a mídia acaba, por meio de diversos instrumentos, produzindo uma infância em acelerado processo de erotização.

Puggina expõe que as telenovelas também têm contribuído com o processo de erotização da infância, à medida que apresentam cenas eróticas em horários de audiência infantil ou mesmo pela precocidade sexual de alguns personagens. Segundo o autor, existe uma reiterada degradação de valores morais e culturais nas telenovelas, à medida que, por meio do sensacionalismo de mercado, tem conduzido autores e diretores a explorar a sexualidade como atrativos de audiência. Neste sentido, acabam estabelecendo um padrão de naturalidade com relação à conduta de antecipação dos processos sexuais.

A partir do argumento de liberdade de expressão cultural, segundo Puggina, a mídia se aproveita para passar conteúdo ilícitos e o Estado, por sua vez, se ausenta no controle destes conteúdos, não apenas na questão da qualidade dos programas televisivos, como também na publicidade abusiva dirigida ao público infantil.

Nos países de primeiro mundo, a suspensão de emissoras de televisão que apresentam conteúdos impróprios ao público infantil é comum; já no Brasil, segundo Puggina, nada acontece, pois o Estado se omite em fiscalizar e punir tais práticas. Assim, sexo oral, bestialismo, estupros, enfim, tudo quanto se possa imaginar a respeito de sexualidade, já foi objeto de exibição nos horários televisivos.

Além disso, o autor destaca o fato do constrangimento gerado entre as famílias, quando cenas impróprias são presenciadas pelas crianças, acarretando em discussões acerca das mesmas, que acabam antecipando conteúdos os quais não são adequados a sua faixa etária, ou mesmo, que não são respondidos corretamente ou ignorados pelos pais.

De acordo com Puggina, o mercado da moda movimenta milhões de dólares no mundo inteiro e o Brasil possui destaque no fornecimento de ‘top models’ para o mundo. As agências internacionais, vedadas em seu país de origem de selecionar modelos com menos de dezessete ou dezoito anos, voltam-se para o Brasil, haja visto que aqui tudo é permitido. Assim, as modelos do mercado brasileiro, ao chegar aos dezessete anos, já possuem experiência para competir no mercado internacional, sendo este o sonho de muitas meninas. Referente ao ingresso precoce de meninas na carreira de modelo, Puggina indaga acerca de quantas garotas conseguem alcançar o estrelato entre as milhares que buscam o ingresso na carreira, ou mesmo o que elas fazem quando recebem ofertas inescrupulosas ou são rejeitadas pela seleção.

Neste sentido, o autor enfatiza que, em sua maioria, o que sobra às meninas que fracassam é a alta prostituição, ou mesmo o caminho das drogas como forma de superar a frustração. Além disso, Puggina expõe que muitas das jovens acabam abandonando os seus estudos, a fim de alcançar o sonho de ser modelo. Segundo o autor, nos cursos de modelo destinados a crianças, são perpassados postura, gestos e olhar adulto; assim, por meio desse erotismo postural, as crianças compreendem que tais comportamentos são bons e agradáveis ao olhar dos outros.
Dessa maneira, o autor salienta que o aumento do processo de erotização da infância, inclusive em níveis hormonais, acarreta na antecipação da puberdade e da vivência sexual. A mídia, por sua vez, contribui para tal processo, seja pelos estímulos eróticos que produz, seja pela permissividade com que tais estímulos chegam às crianças, ou mesmo pelo incentivo a reprodução a expressões de comportamento de conteúdo erótico.

As crianças estão crescendo cada vez mais rápido, pois, de acordo com Lurie (1997), na década de 1960, aproximadamente, a idade da primeira menstruação das meninas na América era 16 anos, as meninas que ainda não haviam atingido tal idade eram vestidas como crianças. Entretanto, atualmente, a idade média para a primeira menstruação é menos de 11 anos, consequentemente as meninas já começam a usar adereços de mulher adulta como sutiã, “as roupas de uma menina, mesmo as de 3 ou 4 anos, são freqüentemente desenhadas de modo a sugerir o desenvolvimento das características sexuais secundárias.” (LURIE, 1997, p. 60)

Referente à moda infantil no Brasil, Puggina expõe que é uma imitação da moda adulta, especialmente a feminina, sendo este um dos fatores do processo de erotização infantil. Segundo o autor, no Brasil, a moda infantil não objetiva vestir crianças como crianças, mas sim como adultos; desta forma, um desfile de moda infantil acaba sendo uma explícita imitação de um desfile de moda para adulto, inclusive no caminhar e no gestual erotizado.

Masquetti (2008) pontua como um dos impactos que a publicidade pode acarretar na formação, no bem-estar e na segurança infantil o comprometimento da formação sexual das crianças, pois a estimulação erótica, principalmente no período entre a segunda infância e a adolescência, põe em risco a formação sexual. De acordo com a autora, a necessidade de usar roupas da moda e maquiagem não é compatível com a inocência infantil. Assim, destaca que o período que vai da segunda infância à adolescência constitui-se num tempo necessário para o alcance do amadurecimento genital e para a formação das barreiras psíquicas que, mais tarde, irão ajudar a criança a controlar seus impulsos.

Diante de tais acepções, Puggina argumenta que o avanço de manifestações de pedofilia é decorrente, dentre outros fatores, do processo de erotização da infância, tanto pelo fato de se produzir crianças que emitem sinais e códigos típicos de sexualidade adulta, seja pelo alargamento consequente da reprovabilidade ética e até penal que tais sinais e códigos acabam gerando.

De acordo com o autor, existe um descuido por parte do Estado na fiscalização e controle de atividades midiáticas e publicitárias nocivas à infância, pois a erotização tem avançado, cada vez mais rápido, por meio da mídia em geral. Assim sendo, segundo o autor, existe um abrandamento com relação a tal fato, não apenas no interior das famílias, mas, especialmente, nas instâncias de poder estatal, analisado pela falta de padrão cultural que crie estruturas familiares, sociais e psicológicas capazes de por limites a tais padrões estabelecidos.

A partir disso, Puggina enfatiza que se faz necessário e é possível interferir nos meios de comunicação, estabelecendo limites e mecanismos de controle. Portanto, o Estado deve se fazer presente, haja visto que existem competências legais que não exercidas, assim como existem caminhos legais a serem construídos. Desta maneira, as instituições estatais e privadas direcionadas à proteção da infância devem criar grupos de trabalho que possam identificar os problemas acerca desse assunto, encontrando e apontando mecanismos de ação capazes de controlá-los.

Nesse ínterim, o autor destaca a importância da criação de grupos de trabalho específicos que busque as diretivas de ação para o Estado com finalidade de controlar e fiscalizar a ação da mídia no processo de erotização da infância. Transcrevi trechos

http://www.dfe.uem.br/TCC/Trabalhos%202011/Turma%2031/Tania_Cardoso.pdf

O fim da infância? As ações de marketing e a “adultização” do consumidor infantil

por Carla Freitas Silveira Netto; Vinícius Andrade Brei; Maria Tereza Flores-Pereira

A marca Lilica Ripilica busca estabelecer uma forte ligação com o mundo da moda. Essa ligação pode ser observada de várias formas, seja no discurso publicitário, seja na linguagem apresentada nas outras formas de interação que a marca procura ter com o seu público. De maneira geral, a marca procura conduzir sua comunicação diretamente ao seu público (infantil, feminino, camadas médias e altas), por meio de uma linguagem que caracteriza a marca Lilica Ripilica, frequentemente representada por uma mascote, como uma das crianças, uma “amiguinha”. Como mascote, a empresa usa um coala, animal característico da Austrália, vestido como uma criança do sexo feminino. Essa mascote tem o mesmo nome da marca. Vamos, então, descrever e analisar um pouco as campanhas de comunicação da Lilica Ripilica.

use e se labuze

Em um outdoor da campanha inverno 2008, a mensagem “Use e se lambuze” é apresentada de maneira quase centralizada no espaço. Ocupando o lado esquerdo, encontramos a foto de uma menina aparentando cerca de 4 ou 5 anos. No canto inferior direito, como uma assinatura, está o nome da marca: Lilica Ripilica. De maneira geral, as imagens contidas no outdoor transmitem a ideia de sofisticação. A menina aparece maquiada, com expressão séria e pose que faz referência às propagandas de moda para adultos. Sua roupa se constitui de uma camiseta, um casaquinho – tipo bolero – e uma saia. A mascote aparece de maneira discreta, seja na estampa da camiseta, seja no brasão costurado ao casaquinho sobreposto. O clima de sofisticação se estende para a bem combinada estampa da saia e da gola do casaquinho, a estampa de fundo do outdoor, dando ideia de um papel de parede, além da fonte usada no texto, que lembra fonte cursiva, como se alguém tivesse escrito com uma caneta tinteiro.

A mensagem nesse outdoor – “Use e se lambuze” – é usada no imperativo, como é comum no discurso publicitário. Essa mensagem parece estar primeiramente ligada ao conceito de chá da tarde (a menina segura um doce na mão esquerda e sua boca está um pouco lambuzada por esse doce), mais especificamente com as brincadeiras de chá com bonecas. Podemos concluir (possivelmente como também devem ter imaginado os responsáveis pela campanha) que, assim como as crianças (literalmente) se lambuzam com os doces nos chás, as meninas deveriam “se lambuzar” (aproveitar) com essa coleção. É importante, ainda, enfatizar a sutil conotação erótica da propaganda, uma vez que o verbo lambuzar está, ao menos no Brasil, culturalmente associado a questões sexuais, entre outros sentidos mais literais da palavra. Por conta dessa associação erótica, a exibição desse outdoor gerou um processo do Ministério Público do Estado de Santa Catarina, que comprometeu a empresa e obrigou-a a não mais veicular propaganda com imagens como a do outdoor em questão, além do pagamento de multa no valor de vinte mil reais, segundo o Instituto Alana (2008).

O DISCURSO DA LILICA RIPILICA – UMA ANÁLISE SOCIAL

Nossa análise social está ancorada no processo de “adultização” das representações acerca das consumidoras infantis, retratado nas ações de marketing da marca de vestuário Lilica Ripilica. Além disso, discutiremos os reflexos das ações de marketing dessa empresa a partir da ótica de organizações especialistas em direitos de crianças e adolescentes, tais como o Instituto Alana.

Primeiramente, sobre a questão da adultização, temos que as ações de marketing da empresa de vestuário infantil Lilica Ripilica estão fortemente ligadas a um contexto etário referente à vida adulta e, com maior ênfase, a um determinado arquétipo de vida adulta do feminino. A ideia de que os usuários da marca seriam pessoas ligadas à moda, por exemplo, está na reformatação da mascote e na caracterização de sua personalidade como alguém que adora estar na moda e que apresenta postura madura. Essas ideias, na realidade, permeiam todas as formas de comunicação da empresa.

De forma complementar, as ideias de sonhos e de encantamento, fortemente ligadas à aspiração hoje comum das meninas em se tornarem modelos, também são uma constante na comunicação da Lilica Ripilica. Nessa comunicação, as crianças também são representadas e tratadas como adultos. Por exemplo, em sua definição de estilo, a marca afirma sua visão sobre a criança como alguém “que sabe o que quer”. Portanto, uma visão coincidente com a literatura recente a respeito do consumo infantil, que identifica como traço característico dos publicitários a quebra do “velho código de inocência infantil” (CROSS, 2002, p. 442).

A quebra desse “código”, entretanto, ainda não é aceita socialmente de maneira explícita. Uma demonstração disso é que, em entrevista para o jornal Zero Hora, a produtora de moda do desfile da marca no evento Donna Fashion Iguatemi, Madeleine Müller, cita que “o que de pior se pode explorar em uma coleção infantil é a sensualidade. Expor o corpo de uma criança de maneira inadequada é abominável. Nem elas gostam” (SHOW MIRIM, 2008). Porém, as informações empíricas anteriormente apresentadas contradizem esse discurso da produtora, como no outdoor da campanha da Lilica Ripilica que descrevemos na seção referente à análise textual.

Nossa conclusão de que o discurso da produtora do desfile não condiz com a prática da empresa não é infundada. O Instituto Alana (2008), em seu site, reforça nossa conclusão ao apresentar o parecer da psicóloga Maria Helena Masquetti, anexado à denúncia feita ao Ministério Público em decorrência da exibição do referido outdoor. Em seu parecer, a psicóloga comenta que

[…] algumas publicidades vão ainda mais além, divulgando conceitos dissociados da realidade, muitos deles distorcendo valores fundamentais para a educabilidade dos pequenos, importando-se apenas em destacar a mensagem na paisagem publicitária (INSTITUTO ALANA, 2008).

Ela ainda acrescenta, em sua análise para o Instituto, que nada é tão capaz de cativar a atenção do que “crianças em cenários afetivos ou demonstrando graça e esperteza em suas expressões”. Segundo a psicóloga, ainda mais “interessante” é quando elas se comportam como uma espécie de adulto em miniatura, pois, se essas estratégias têm o poder de seduzir adultos, elas são ainda mais sedutoras para crianças e adolescentes. O problema com esse tipo de comunicação é que, para seu entendimento, é necessária uma estrutura intelectual que não está ao alcance das crianças ou que, pelo menos, não se identifica no público em geral, e menos ainda nas crianças. Maria Helena Masquetti conclui:

[…] um adulto pode até compreender que a expressão “Use e se lambuze” faz uma analogia entre o doce com o qual a pequena provavelmente lambuzou o rosto e a idéia de se deliciar com o uso da roupa. Este tipo de mensagem ambígua não é decodificável por uma criança preservada em sua ingenuidade, restando a possibilidade incômoda de ser lida maliciosamente por adultos inescrupulosos. Portanto, trata-se de uma construção pautada em valores e conceitos adultos e não infantis (INSTITUTO ALANA, 2008).

É importante analisar, entretanto, que a própria fala da psicóloga Maria Helena Masquetti está amparada em uma conceituação sócio-histórica das categorias etárias que diferencia as crianças (ingênuas) dos adultos (inescrupulosos e maliciosos). Na fala da psicóloga, está bastante presente a ideia de que as crianças não apresentam uma estrutura intelectual capaz de interpretar, por exemplo, mensagens ambíguas como a da propaganda em análise. A criança é, portanto, um sujeito distinto do adulto e cuja “construção” deve ser preservada de valores e conceitos “não infantis”, para que, enfim, ela seja uma criança e não um adulto em miniatura (POSTMAN, 1999).

Além da imagem de erotização apresentada na campanha do outdoor, outras comunicações também se valem de outros argumentos sedutores ou que poderiam ser facilmente voltados ao público adulto. Relembrando, a coleção de inverno da Lilica Ripilica do ano de 2008 tinha como tema um chá da tarde inglês. As roupas, os emblemas, cortes e tecidos buscavam lembrar a sofisticação e a elegância das coleções europeias. Além disso, o fato de as meninas apresentadas nas diversas peças publicitárias estarem vestidas com roupas características de pessoas mais velhas, assim como com maquiagem e fazendo poses normalmente vistas em propagandas com mulheres de mais idade, serviram de base para a denúncia da campanha como incitadora da “adultização” e, principalmente, da “erotização” infantil, pois, como pode-se perceber, as crianças não aparecem nas imagens brincando ou tendo atitudes tipicamente infantis. Ao contrário, a linguagem corporal e a seriedade das expressões são nitidamente copiadas de coleções direcionadas para mulheres mais velhas.

No caso da propaganda para a televisão, assim como nas imagens da campanha impressa, o discurso da marca é direcionado para a realização do desejo de ser famosa. Ou seja, as propagandas falam que, usando os produtos Lilica Ripilica, ser tão bela e admirada como as modelos é possível, não é um sonho. Esse “sonho”, por sua vez, nada mais é do que um arquétipo emocional do feminino adulto contemporâneo (ser modelo, famosa e consumir roupas de marca), na medida em que se refere a “padrões comuns a toda cultura humana […] elementos simbólicos que resgatam estados de espírito comuns a todos nós” (MARTINS, 1999, p. 37). Na propaganda impressa, as expressões de frustração das modelos adultas por não entrarem nas roupas Lilica Ripilica procuram transmitir, em um primeiro momento, um sentimento de superioridade das meninas crianças em relação às mulheres adultas. Entretanto, não são os atributos infantis aqueles que são valorizados (poder brincar, ser socialmente protegida etc.), mas sim a possibilidade de, ao usar Lilica Ripilica, estar mais próxima de atributos do mundo adulto feminino do que as próprias mulheres adultas (estar na moda, ser magra, ser top model etc.).

Além das roupas tipicamente adultas e da ligação com o universo da moda, existe também a menção a padrões estéticos específicos, como a magreza, imprescindível para a entrada da consumidora em questão ao mundo da moda. A propaganda para a televisão mostra uma menina que exibe vaidade, arrumando-se, maquiando-se e posando para fotos. Já a campanha impressa valoriza os atributos físicos das modelos (magreza, pernas longas, altura), qualidades determinantes na sociedade contemporânea para se encaixar no conceito de beleza (SANT’ANNA, 2001; GOLDENBERG; RAMOS, 2002; STENZEL, 2004). Como Preston (2004) afirma, a propaganda ensina esses conceitos para as crianças.

Um outro exemplo: no catálogo da coleção primavera/verão 2008/2009, as palavras usadas para descrever as diferentes inspirações para a coleção falam de encanto, beleza, romantismo, feminilidade, delicadeza e sofisticação. Essas expressões são comuns na comunicação para adultos e fazem uma ligação entre os mundos infantil e adulto. Assim, identificamos um retorno a características observadas por Ariès (1981, p. 70) em relação à Idade Média: “nada, no traje medieval, separava a criança do adulto”.

Além do traje, observamos nas campanhas também comportamentos, olhares, posturas e mensagens não verbais tipicamente adultos, ligando as ideias de beleza ao mundo da moda. Por exemplo, segundo o jornal Zero Hora, as marcas Lilica Ripilica e Tigor“roubaram a cena no úlitmo dia de desfiles” do Donna Fashion Iguatemi, em sua segunda edição de 2008. A matéria chama atenção para o fato de que, mesmo fazendo um trabalho “de gente grande”, essas meninas e meninos continuam brincando, comendo e se divertindo. Verifica-se pelas entrevistas que as meninas levam esse trabalho mais a sério: “Quero trabalhar com moda, por isso comecei a desfilar” (Bianca, 9 anos) (SHOW MIRIM, 2008).

As consequências desse tipo de discurso, que “ensina” às crianças padrões de beleza e de comportamentos relacionados ao mundo adulto, podem levar a uma “adultização” e erotização precoce desse público, como atesta a psicóloga parecerista do Instituto Alana. Obviamente, não é só a comunicação das empresas que provoca esse tipo de resultado; ele é reforçado em várias das manifestações culturais exibidas na mídia de massa e pelo próprio comportamento das crianças, muitas vezes incentivado por familiares e amigos. Hoje, o senso comum exalta as relações entre beleza, moda e fama. O que a Lilica Ripilica faz é utilizar esses valores associados ao senso comum, e que indiscutivelmente são sedutores, em suas estratégias de comunicação.

Resta-nos questionar os efeitos psicológicos e comportamentais dessa estratégia sobre as meninas consumidoras da marca. Será que elas acreditam que, ao adquirirem as roupas e os acessórios da marca, conseguirão atingir esses ideais do senso comum? Será que elas pensam que, ao tornarem-se consumidoras fiéis da Lilica Ripilica, elas se manterão no mundo da moda e serão admiradas por todos e vistas como adultas, maduras, que “sabem o que querem”? Esses questionamentos fogem do escopo deste artigo, mas são muito relevantes para análise dos efeitos do marketing sobre as crianças e são aspectos importantes a serem investigados em estudos futuros. Transcrevi trechos. 

In http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S1678-69712010000500007&script=sci_arttext

Polícia permite que o jornalista Ricardo Antunes receba “visita humanitária” do Sinjope

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[Depois de várias tentativas, o Sinjope consegue visitar o sócio jornalista Ricardo Antunes. Eis a nota sindical:]

A presidente do Sinjope, Cláudia Eloi, o vice-presidente, Chico Carlos e os diretores Geraldo Bringel e Graça Prado estiveram [nesta sexta-feira, 28 de dezembro] no Centro de Triagem Professor Everardo Luna (Cotel), para um encontro com o jornalista e filiado do Sinjope, Ricardo Antunes. A visita, de caráter humanitário, teve como objetivo ouvir o jornalista que, há dois meses está recolhido naquela unidade prisional.

A presidenta Cláudia Eloi procurou saber como Ricardo se encontra física e emocionalmente. [Esta tardia visita desmente os boatos de que o preso vem sofrendo tortura]. O jornalista revelou que está bem [Não está não! Vem padecendo tortura psicológica. E sob um clamoroso assédio policial. E assédio judicial. Encontra-se depressivo e temeroso de sofrer um atentado por parte de algum assassino].

A presidente explicou o intuito da visita e que, no caso em pauta, o Sindicato nada pode fazer no âmbito jurídico, visto que a acusação que pesa sobre ele não está relacionada com o exercício da profissão. [Está, sim, acusado de ter publicado informações injuriosas contra o bacharel em jornalismo Antônio Lavareda, além do crime de extorsão de venda de uma notícia por um milhão de dólares. Coisa que nenhum jornalista acredita. Que notícia vale tanto? Ricardo considera que está sendo vítima de um complô armado contra ele. Este precedente atinge todos os jornalistas que realizam o Jornalismo Investigativo e o Jornalismo Opinativo. Qualquer um pode ser preso, agora, por extorsão, crime hediondo, inafiançável].

Ricardo Antunes agradeceu o gesto do Sinjope e disse entender perfeitamente a posição do Sindicato. Como não tem antecedentes criminais e possui residência fixa, o jornalista, que está sendo assistido por um advogado, espera para os próximos dias o relaxamento da prisão.

Ricardo Antunes até o momento não deu sua versão pública sobre o caso e manifestou apreensão pelo fato de que o autor da denúncia contra ele conseguiu na justiça que ele seja impedido de se pronunciar em qualquer circunstância sobre o fato , nem mencionar o nome do autor do processo em qualquer publicação. Nesse sentido, Ricardo Antunes fez um apelo ao Sinjope em defesa da liberdade de expressão e contra a censura prévia. O caso será encaminhado para apreciação da Federação Nacional dos Jornalistas – FENAJ, em Brasília.

[Fui, durante seis anos, representante eleito do Sinjope na FENAJ, inclusive disputei a presidência com o maior líder sindical da época, Joezil Barros, e deu empate.

Reconheço a liderança e a exemplar vivência jornalística dos profissionais que visitaram Ricardo Antunes. Entendo a isenção do posicionamento do Sinjope, por envolver dois jornalistas: Antônio Lavareda e Ricardo Antunes. E os perigos que corre Ricardo como prisioneiro. Aqui fica ressaltada a importância de tornar o caso nacional, pela necessária e devida apreciação da FENAJ.

É inacreditável que, numa democracia, um réu fique “impedido de se pronunciar em qualquer circunstância sobre o fato, nem mencionar o nome do autor do processo em qualquer publicação”.  Parece os tempos da Santa Inquisição. Isto tem nome. E acontecia nas ditaduras de Hitler, de Stalin e de pequenos césares, como Franco, Salazar, Pinochet, Médici e outras almas sebosas, que mantinham a justiça cativa.

Natural o medo de Ricardo, que se encontra sob o efeito de medicamentos antidepressivos. Que preso fala contra a polícia dentro de uma cadeia de segurança máxima? Veja o caso do jornalista  Mauri König, que se encontra escondido dos delegados do governador Beto Rocha do Paraná. De André Camarante, da Folha de S. Paulo, que se encontra exilado, ameaçado pela bancada da bala da Câmara Municipal de São Paulo. 

Impensável que um jornalista seja impedido de falar, de escrever, de mostrar (fotografar, filmar etc). A liberdade de imprensa no Brasil não é dos jornalistas. Pertence às empresas. Aos monopólios dos meios de comunicação de massa. Liberdade já para o preso político Ricardo Antunes. A prisão de Ricardo está ligada à campanha presidencial de 2014. Não esquecer que foi preso na antevéspera das eleições municipais.

Foi preso porque denunciou desvios e desperdícios de dinheiro público no governo estadual e prefeituras municipais, inclusive para a adultizacão de crianças, crime condenado por educadores, religiosos, verdadeiros sociólogos e psicólogos infantis].

pensamento censura jornalista jornalismo apagão