A INFLUÊNCIA DA PUBLICIDADE NO CONSUMO DA MODA INFANTIL

por Tânia Patricia Cardoso

Concurso de beleza infantil
Concurso de beleza infantil

Pesquisas revelam que as crianças são alvos constantes da publicidade em prol do consumo, pois, de acordo com as estatísticas, elas influenciam 80% das decisões de compra de uma família. Neste sentido, a publicidade não se preocupa com as consequências de sua influência sobre o desenvolvimento infantil, assim atinge a criança por meio de estratégias direcionadas para um público que ainda não entende a intenção da propaganda e que, portanto, não é capaz de distinguir as representações enganosas da mesma. Desta forma, o presente trabalho tem como objetivo analisar a influência da publicidade no consumo, dando destaque à moda infantil, a partir da análise da publicidade da grife Lilica Ripilica, a fim de constatar os efeitos propagados pela mesma no desenvolvimento da criança, como a erotização precoce e o possível desaparecimento da infância. A pesquisa será fundamentada em autores que desenvolvem suas pesquisas na área, como Postman (1999) e Ariès (1981) que trabalham com a questão da infância e Shor (2010) e Ticianelli (2007) que analisam o tema publicidade, dentre outros.

erotizacao

Erotização da infância e moda

Atualmente, a publicidade e a mídia vêm criando condições de incentivo ao comportamento erotizado de crianças e adolescentes que, de acordo com Puggina, revela-se de forma sutil, por meio do modo de vestir dos adultos, forma de posar e fotografar, ou mesmo, a imitação de comportamentos erotizados. Neste sentido, segundo o autor, esse processo de erotização pode ocorrer por meio do estímulo infantil para adotar comportamentos estereotipados, como: forma de vestir, uso de maquiagem, dança, dentre outros. Desta forma, a mídia acaba, por meio de diversos instrumentos, produzindo uma infância em acelerado processo de erotização.

Puggina expõe que as telenovelas também têm contribuído com o processo de erotização da infância, à medida que apresentam cenas eróticas em horários de audiência infantil ou mesmo pela precocidade sexual de alguns personagens. Segundo o autor, existe uma reiterada degradação de valores morais e culturais nas telenovelas, à medida que, por meio do sensacionalismo de mercado, tem conduzido autores e diretores a explorar a sexualidade como atrativos de audiência. Neste sentido, acabam estabelecendo um padrão de naturalidade com relação à conduta de antecipação dos processos sexuais.

A partir do argumento de liberdade de expressão cultural, segundo Puggina, a mídia se aproveita para passar conteúdo ilícitos e o Estado, por sua vez, se ausenta no controle destes conteúdos, não apenas na questão da qualidade dos programas televisivos, como também na publicidade abusiva dirigida ao público infantil.

Nos países de primeiro mundo, a suspensão de emissoras de televisão que apresentam conteúdos impróprios ao público infantil é comum; já no Brasil, segundo Puggina, nada acontece, pois o Estado se omite em fiscalizar e punir tais práticas. Assim, sexo oral, bestialismo, estupros, enfim, tudo quanto se possa imaginar a respeito de sexualidade, já foi objeto de exibição nos horários televisivos.

Além disso, o autor destaca o fato do constrangimento gerado entre as famílias, quando cenas impróprias são presenciadas pelas crianças, acarretando em discussões acerca das mesmas, que acabam antecipando conteúdos os quais não são adequados a sua faixa etária, ou mesmo, que não são respondidos corretamente ou ignorados pelos pais.

De acordo com Puggina, o mercado da moda movimenta milhões de dólares no mundo inteiro e o Brasil possui destaque no fornecimento de ‘top models’ para o mundo. As agências internacionais, vedadas em seu país de origem de selecionar modelos com menos de dezessete ou dezoito anos, voltam-se para o Brasil, haja visto que aqui tudo é permitido. Assim, as modelos do mercado brasileiro, ao chegar aos dezessete anos, já possuem experiência para competir no mercado internacional, sendo este o sonho de muitas meninas. Referente ao ingresso precoce de meninas na carreira de modelo, Puggina indaga acerca de quantas garotas conseguem alcançar o estrelato entre as milhares que buscam o ingresso na carreira, ou mesmo o que elas fazem quando recebem ofertas inescrupulosas ou são rejeitadas pela seleção.

Neste sentido, o autor enfatiza que, em sua maioria, o que sobra às meninas que fracassam é a alta prostituição, ou mesmo o caminho das drogas como forma de superar a frustração. Além disso, Puggina expõe que muitas das jovens acabam abandonando os seus estudos, a fim de alcançar o sonho de ser modelo. Segundo o autor, nos cursos de modelo destinados a crianças, são perpassados postura, gestos e olhar adulto; assim, por meio desse erotismo postural, as crianças compreendem que tais comportamentos são bons e agradáveis ao olhar dos outros.
Dessa maneira, o autor salienta que o aumento do processo de erotização da infância, inclusive em níveis hormonais, acarreta na antecipação da puberdade e da vivência sexual. A mídia, por sua vez, contribui para tal processo, seja pelos estímulos eróticos que produz, seja pela permissividade com que tais estímulos chegam às crianças, ou mesmo pelo incentivo a reprodução a expressões de comportamento de conteúdo erótico.

As crianças estão crescendo cada vez mais rápido, pois, de acordo com Lurie (1997), na década de 1960, aproximadamente, a idade da primeira menstruação das meninas na América era 16 anos, as meninas que ainda não haviam atingido tal idade eram vestidas como crianças. Entretanto, atualmente, a idade média para a primeira menstruação é menos de 11 anos, consequentemente as meninas já começam a usar adereços de mulher adulta como sutiã, “as roupas de uma menina, mesmo as de 3 ou 4 anos, são freqüentemente desenhadas de modo a sugerir o desenvolvimento das características sexuais secundárias.” (LURIE, 1997, p. 60)

Referente à moda infantil no Brasil, Puggina expõe que é uma imitação da moda adulta, especialmente a feminina, sendo este um dos fatores do processo de erotização infantil. Segundo o autor, no Brasil, a moda infantil não objetiva vestir crianças como crianças, mas sim como adultos; desta forma, um desfile de moda infantil acaba sendo uma explícita imitação de um desfile de moda para adulto, inclusive no caminhar e no gestual erotizado.

Masquetti (2008) pontua como um dos impactos que a publicidade pode acarretar na formação, no bem-estar e na segurança infantil o comprometimento da formação sexual das crianças, pois a estimulação erótica, principalmente no período entre a segunda infância e a adolescência, põe em risco a formação sexual. De acordo com a autora, a necessidade de usar roupas da moda e maquiagem não é compatível com a inocência infantil. Assim, destaca que o período que vai da segunda infância à adolescência constitui-se num tempo necessário para o alcance do amadurecimento genital e para a formação das barreiras psíquicas que, mais tarde, irão ajudar a criança a controlar seus impulsos.

Diante de tais acepções, Puggina argumenta que o avanço de manifestações de pedofilia é decorrente, dentre outros fatores, do processo de erotização da infância, tanto pelo fato de se produzir crianças que emitem sinais e códigos típicos de sexualidade adulta, seja pelo alargamento consequente da reprovabilidade ética e até penal que tais sinais e códigos acabam gerando.

De acordo com o autor, existe um descuido por parte do Estado na fiscalização e controle de atividades midiáticas e publicitárias nocivas à infância, pois a erotização tem avançado, cada vez mais rápido, por meio da mídia em geral. Assim sendo, segundo o autor, existe um abrandamento com relação a tal fato, não apenas no interior das famílias, mas, especialmente, nas instâncias de poder estatal, analisado pela falta de padrão cultural que crie estruturas familiares, sociais e psicológicas capazes de por limites a tais padrões estabelecidos.

A partir disso, Puggina enfatiza que se faz necessário e é possível interferir nos meios de comunicação, estabelecendo limites e mecanismos de controle. Portanto, o Estado deve se fazer presente, haja visto que existem competências legais que não exercidas, assim como existem caminhos legais a serem construídos. Desta maneira, as instituições estatais e privadas direcionadas à proteção da infância devem criar grupos de trabalho que possam identificar os problemas acerca desse assunto, encontrando e apontando mecanismos de ação capazes de controlá-los.

Nesse ínterim, o autor destaca a importância da criação de grupos de trabalho específicos que busque as diretivas de ação para o Estado com finalidade de controlar e fiscalizar a ação da mídia no processo de erotização da infância. Transcrevi trechos

http://www.dfe.uem.br/TCC/Trabalhos%202011/Turma%2031/Tania_Cardoso.pdf

Publicado por

Talis Andrade

Jornalista, professor universitário, poeta (13 livros publicados)

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s