O suicídio da enfermeira e os corruptos vivos

Jacintha Saldanha
Jacintha Saldanha

Não foi o trote que matou a enfermeira indiana. E sim a gozação dos radialistas. “Pensávamos que eles desligariam assim que ouvissem nossos sotaques terríveis”, afirmaram os jornalistas em nota.

Do outro lado da linha estava uma emigrante, marginalizada. Uma retirante humilhada, cujo cadáver retornou ao seu país.

corpo

Escreve João José Forni: “Em Londres, na terça-feira 4 a princesa Kate Middleton, mulher do príncipe William, foi internada no Hospital Rei Eduardo VII, com náuseas, decorrentes da gravidez. Dois radialistas australianos – Mel Greig e Michael Shristian – ligaram para o hospital e fingiram, imitando sotaque britânico, ser a rainha Elizabeth e o príncipe Charles, pedindo notícias de Kate. A ligação foi atendida pela enfermeira Jacintha Saldanha, às 5.30h, porque não havia telefonistas no horário. A seguir, passou a ligação para uma colega que deu as informações.

Qual não foi a surpresa dos radialistas, quando o trote deu certo, e a enfermeira passou a dar notícias de Kate como se fosse para os membros da família real. ‘Pensávamos que eles desligariam assim que ouvissem nossos sotaques terríveis’, afirmaram os jornalistas em nota. A enfermeira informante caiu no trote e forneceu detalhes sobre o estado de saúde da princesa, como se fosse para a família, que acabaram divulgados pela rádio e tiveram repercussão internacional.

‘Este é um caso trágico que não poderia ter sido previsto e nós estamos profundamente entristecidos. Eu acho que trotes telefônicos são uma ferramenta utilizada por rádios há muitas décadas, ao redor do mundo, e ninguém poderia ter previsto o que aconteceu’, disse Rhys Holleran, diretor da rádio”.

Esta foi a primeira vez que um trote terminou em suicídio. Além da vassalagem da imprensa internacional de publicar tolices e mais tolices da casa real, da ética dos trotes, o importante  que se destaque: se fosse uma inglesa o alvo do trote, certamente desfrutaria a suspeita notoriedade. Mas a vítima foi uma indiana. Ressalta-se que não foi ela quem deu as informações. Por que só o nome da Jacintha apareceu? Ela apenas passou o telefone.

“O que levou uma enfermeira experiente, mãe de família, ao suicídio?  Essa é uma pergunta que muitas pessoas devem está procurando a resposta. Todos que já ouviram falar sobre o caso de Jacintha Saldanha, 46 anos, sabem que ela não cometeu nenhum erro que justificasse um fim tão triste.

Lúcia Guimarães entrevistou um especialista que falou sobre o caso. O filósofo Kwame Anthony Appiah disse que  a vergonha e orgulho são emoções centrais da honra. ‘Se podemos, de fato, partir de um reconhecimento de que a enfermeira se suicidou porque sentiu vergonha, é preciso levar em conta o seguinte: o objetivo desses trotes de rádios é desonrar pessoas com sua exposição ao ridículo. Muita gente tem prazer em assistir aos outros perdendo a dignidade, esse é também o motor da reality TV. E isso mostra que carecemos de sensibilidade sobre a importância de respeitar a honra e a dignidade alheia. A enorme relutância em regular o comportamento da mídia é um sinal disso. Eu não defendo, de forma alguma, criminalizar o comportamento dos radialistas. Mas é preciso que haja uma conversa pública sobre o assunto. Se lutamos pela liberdade de expressão, devemos também lutar pela responsabilidade da mídia, que tem enorme poder, para exercer essa liberdade. Afinal, que chance tinha a enfermeira, diante dos poderes que enfrentou?”  argumentou o professor.
 
Appiah disse ainda que: ‘a enfermeira foi envergonhada pelo trote. Ela não fez nada moralmente errado porque estava convencida de que era a rainha do outro lado da linha, e sua obrigação era passar a chamada. Então, sua vergonha teve origem no engano. Ser enganado não é uma ofensa moral. Honra e vergonha são mecanismos usados para reforçar normas sociais. Há duas conexões importantes entre honra e moralidade. Primeiro, desonrar pessoas causa prejuízo moral; e quando a honra corre paralela à moralidade, as pessoas tendem a agir pelo bem comum.”
Concordo que “a vergonha e o orgulho são emoções centrais da honra”.
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Sofrem os emigrantes, os novos escravos do Século XXI, tantas humilhações – stalking, assédio moral, assédio sexual – que a verberação do trote na Índia matou Jacintha Saldanha.
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Minha estranheza é que qualquer acontecimento trágico, lamentável, termina em apelo por mais censura. Aconteceu no Brasil com a nudez de Carolina Dieckmann.
Certas operações da PF causaram a Lei das Algemas, a blindagem das bancas de advogados de porta de palácio.
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Nenhum sem-vergonha vai se suicidar por ter sido preso, algemado, enquanto espera um habeas corpus.
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Os corruptos são vaidosos de suas riquezas.

Publicado por

Talis Andrade

Jornalista, professor universitário, poeta (13 livros publicados)

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