Reinventando o conceito de pobreza escondida

por Abel Coentrão

Habituámo-nos [em Portugal] nos últimos anos a chamar às pessoas da classe média que caem na armadilha do desemprego os “novos pobres”. Falamos, a propósito de muitas dessas situações, desconhecidas às vezes de familiares, amigos ou vizinhos, de “pobreza escondida”.

Os velhos pobres – de número engrossado, diz quem anda no terreno, pela situação do país – são então a novíssima face da pobreza escondida, porque a outra, a envergonhada, sempre existiu.

Escondidas em fábricas ou prédios abandonados, alojadas transitoriamente em casas-abrigo, centenas de pessoas ficaram, então, de fora [do censo]. Porque o conceito internacional usado pelo INE implica que elas estejam em jardins, estações de metro, paragens de autocarro, pontes, viadutos ou arcadas de edifícios. No Porto, bastaria entrar em algumas fábricas abandonadas de Campanhã, para perceber como o conceito, de tão redutor, acaba por falhar. Redundando numa outra forma de exclusão.

Transcrevi trechos.

No Brasil, podemos incluir nesta lista milhões de favelados. Na televisão, nos programas policiais podemos entrar nas moradias dos pobres brasileiros pobres. Nas favelas, que têm o mesmo traçado de becos e vielas das construções medievais fora do muro dos castelos. Nos cortiços. Nas pensões. Nos casebres levantados: em áreas de risco; em invasões de fazendas (pelos movimentos dos sem terra) no campo; em terrenos baldios nas cidades (pelos movimentos dos sem teto). Nas favelas, grande parte das moradias, são de propriedade dos moradores. Não são sem teto. São moradores de tocas, quartinhos, gaiolas, cubículos, celas sem janelas – o ar se renova quando se abre a porta de entrada.

Sem teto é quem paga aluguel. Acontece com a classe média. Que paga preço exorbitante para morar em apartamento de um ou dois quartos.

O Brasil é o país da especulação imobiliária. As vilas do programa Minha Casa, Minha Vida só faz enriquecer construtoras de gananciosos bandidos, apadrinhados de governadores e prefeitos.

Publicado por

Talis Andrade

Jornalista, professor universitário, poeta (13 livros publicados)

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