Repórteres proscritos

por Dirceu Martins Pio

Sai a reportagem, entra a pesquisa. Alguém estabeleceu algo assim, por decreto, uns 20 anos atrás, e a cobertura da mídia às campanhas políticas virou esse ramerrão aí que todos vemos, entediados e sonolentos. Saiu a reportagem e junto com ela foram embora a emoção e aquelas previsões do jornalismo muito mais precisas porque baseadas nos eventos de bastidores e na opinião mais compenetrada de quem vota.

A reportagem – todo tipo de reportagem – tem de ser um dos grandes diferenciais dos impressos na competição com os meios digitais e eletrônicos, mas quanto mais a competição se acelera, menos reportagens os impressos publicam. Um bom texto de um repórter experiente pode valer mais que meia dúzia de pesquisas, do Ibope ou do Datafolha, e traz para reflexão dos eleitores muitas outras dimensões e conexões da política.

Em 1988, trabalhei como coordenador da cobertura da campanha política pela Agência Estado, que na época administrava a rede de sucursais e correspondentes do Grupo Estado de S.Paulo. O diretório nacional do Partido dos Trabalhadores era comandado por políticos do Rio Grande do Sul – Olívio Dutra, Tarso Genro – e todas as lideranças do partido entregavam-se ao esforço de eleger Luiza Erundina à prefeitura de São Paulo.

Tive a ideia de deslocar para São Paulo o chefe da sucursal do Estado em Porto Alegre: era Elmar Bones, um dos mais talentosos e experientes repórteres do país. Pedi-lhe: “Entreviste aí o comando do PT e depois venha a São Paulo, passe uma semana acompanhando os candidatos e depois escreva um texto tentando apontar quem vencerá as eleições”.

Repórteres substituídos pelo Ibope

Erundina travava uma guerra com Paulo Maluf, o grande favorito. A 30 dias do pleito, quem ousasse prever que Erundina venceria as eleições em São Paulo tinha tudo para ser internado num manicômio. Pois foi exatamente a um mês das eleições que Elmar Bones concluiu sua reportagem. Começava com uma frase de alerta de José Dirceu: “Sinto cheiro de Maria Luiza em São Paulo”. Maria Luiza Fontenele fora o azarão do PT nas eleições de 1985: chegou à prefeitura de Fortaleza, no Ceará, contrariando todas as expectativas.

Elmar Bones acompanhou por um dia cada candidato à prefeitura de São Paulo. Ouviu dezenas de eleitores e todas as lideranças partidárias. Percebeu, apurou, observou. Escreveu um texto carregado de emoção que falava principalmente da empolgação popular que cercava o líder metalúrgico Luiz Inácio Lula da Silva em passeatas pelas ruas de São Paulo. Quem lesse sua reportagem se convencia de que Luiza Erundina venceria as eleições, o que de fato aconteceu. Augusto Nunes comandava a redação do Estadão na época. Torceu o nariz para a previsão de Elmar Bones e providenciou para que o Estado aproveitasse quando muito dez linhas da reportagem. O texto de Elmar Bones foi salvo pelo Jornal da Tarde, que o publicou na íntegra.

Foi talvez a última iniciativa do gênero na imprensa brasileira. Os repórteres foram proscritos da cobertura das campanhas. Servem, quando muito, para fazer o registro diário de eventos banais, que não influenciam os resultados. Foram substituídos pelo Ibope, pela frieza dos números, pela assepsia das estatísticas. Uma pena.

(Transcrito do Observatório da Imprensa)

Publicado por

Talis Andrade

Jornalista, professor universitário, poeta (13 livros publicados)

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