Prisão do jornalista Ricardo Antunes e o release da polícia do governador Eduardo Campos

A prisão de Ricardo Antunes foi ‘justificada’ por um suscinto e reles release da polícia publicado no Jornal do Comércio e Diário de Pernambuco, cuja versão original depois foi modificada pela imprensa nacional.

Primeiro: release não é notícia jornalística, constitui apenas uma das fontes e, no caso, suspeita. Que toda fonte é interesseira. Daí a necessidade de contatar outras fontes. No caso, o preso Ricardo Antunes e seu acusador o banqueiro e empresário Antônio Lavareda.

Vamos repetir o release, que depois foi espalhado por uma misteriosa agência de notícia, similar a do bicheiro Cachoeira, e reproduzido por todos os jornais impressos e on line, rádios, televisões e milhares de blogues:

In Jornal do Comércio do Recife e Diário de Pernambuco:

“O jornalista pernambucano Ricardo Antunes, 51 anos, foi preso pela Polícia Civil de Pernambuco, nesta sexta-feira (5), por volta das 15h30 . Ele é acusado de tentar extorquir o cientista político e marqueteiro Antônio Lavareda.

Segundo a Assessoria de Imprensa da Civil, o blog Leitura Crítica, assinado pelo jornalista, vinha publicando matérias ofensivas contra o marqueteiro. Ele teria exigido R$ 2 milhões para deixar de produzir as matérias. Foi quando a vítima procurou a polícia.

Eles marcaram um encontro no escritório do cientista político, na Ilha do Leite, no Recife, na tarde desta sexta, para efetuar a primeira parte do valor. Neste momento, foi dada voz de prisão ao jornalista.

O jornalista foi autuado em flagrante no Grupo de Operações Especiais (GOE) e deve ser encaminhado ainda esta noite para o Centro de Observação e Triagem Dr. Everardo Luna (Cotel)”.

PRESO PARA NÃO PUBLICAR MAIS NOTÍCIAS

Segundo: não publicar mais notícias é censura. E comprar um jornalista para ele “deixar de produzir matérias” constitui uma prática da imprensa vendida do Brasil. E crime.

Li o brogue Leitura Crítica e não encontrei nenhuma denúncia que justicasse o preço de um milhão de dólares. Nem todo o blogue de Ricardo Antunes seria vendido no mercado por este valor tão exorbitante.  Confira.

PRESO POR RETIRAR NOTÍCIAS 

O Comunique-se, o maior portal de jornalistas do Brasil, divulgou:

“Antunes teria pedido R$ 2 milhões para tirar todas as matérias do ar e ameçou a fazer as publicações em nível nacional. Lavareda procurou a polícia na última semana, e foi orientado a continuar com as negociações. O valor foi reduzido para R$ 1,5 milhão e seria pago em parcelas. Na tarde de sexta-feira, 5, Antunes recebeu R$ 50 mil , como a primeira parte do dinheiro. Ao sair do escritório de Lavareda ele foi autuado por policiais do Grupo de Operações Especiais (GOE), que possuem ainda outras provas contra o jornalista”.

Insisto: não existe nenhuma notícia publicada que mereça a exorbitante cotação de um milhão de dólares. Talvez a valiosa informação esteja nas “outras provas da polícia contra o jornalista” Ricardo Antunes. Provas que a polícia do governador Eduardo Campos esconde.

O “REPÚDIO VEEMENTE” CONTRA A PRISÃO DITATORIAL

O jornal O Globo procurou mais detalhes, conduta ética que a imprensa pernambucana não teve. O G1 publicou:

“De acordo com a Polícia Civil, Antunes estaria tentando extorquir dinheiro do marqueteiro e cientista político Antônio Lavareda, em troca da não publicação de matérias sobre a vítima no blog do jornalista, o Leitura Crítica. A prisão em flagrante aconteceu no escritório de Lavareda, que fica na Ilha do Leite, centro do Recife.

Ainda segundo os policiais, o atrito começou em março, quando o blog foi criado. Na época, Antunes teria convidado o empresário Antônio Lavareda para ser sócio dele ou participar da página como patrocinador. Quando Lavareda não demonstrou interesse na proposta, os problemas começaram: o jornalista começou a publicar matérias em que denegria a imagem de Lavareda.

Inicialmente, as matérias eram publicadas quase que semanalmente. Nos últimos meses, os textos eram veiculados quase todos os dias. Ao ser contactado por Lavareda, Antunes teria pedido R$ 2 milhões para tirar todas as matérias do ar. Caso não recebesse o dinheiro, poderia inclusive começar a fazer as publicações em nível nacional.

Lavareda procurou a polícia na última semana, e foi orientado a continuar com as negociações. O valor foi então diminuído para R$ 1,5 milhão, a ser pago em várias parcelas. Na tarde desta sexta, Antunes recebeu a primeira parte do dinheiro, que seria de R$ 50 mil e, ao sair do escritório de Lavareda, foi autuado por policiais do Grupo de Operações Especiais (GOE). Os policiais informaram ainda que possuem grande quantidade de provas contra o jornalista.

‘Ele usou dessa forma para exigir um dinheiro, sem nenhum parâmetro para isso, na condição de retirar essas matérias do blog. Ele vai responder em juízo pelo crime de praticou e somente o juiz pode liberá-lo, com o pagamento de fiança. Na delegacia isso não acontece, tendo em vista que o crime tem uma pena que varia de quatro a dez anos de prisão’, comentou o delegado Claudio Castro.

Ricardo Antunes tem especialização em jornalismo político pela Universidade de Brasília (UNB) e pós-graduação na Universidade de Georgetown em Washington, nos Estados Unidos. Com 51 anos, já passou por redações de Pernambuco e Brasília. Atualmente, além de editor do Leitura Crítica, Antunes é colunista eventual do portal LeiaJá.

Defesa
A defesa de Antunes afirmou que o jornalista acha muito estranho ser preso às vésperas da eleição, e ressalta o valor da liberdade de expressão. Os advogados informaram ainda que Antunes deve escrever uma nota que será divulgada em breve.

Como foi autuado em flagrante, o jornalista foi preso mesmo durante o período eleitoral. De acordo com a polícia, ele será encaminhado ainda nesta sexta para o exame de corpo de delito no Instituto Médico Legal (IML), e em seguida para Centro de Triagem (Cotel), em Abreu e Lima, onde ficará à disposição da Justiça.

Em nota de esclarecimento, o LeiaJá afirmou que ‘irá acompanhar as investigações e repudia veementemente qualquer atitude desta natureza”.

(Continua)

Publicado por

Talis Andrade

Jornalista, professor universitário, poeta (13 livros publicados)

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