Ricardo Antunes preso incomunicável

Tentei falar com Ricardo Antunes e não consegui. Em que porão da polícia de Pernambuco o jornalista, preso na antevéspera das últimas eleições, se encontra acorrentado, lembrando os tempos da ditadura de militar?

Tentei falar com o meu ex-aluno Antônio Lavareda e não consegui.

Sobre a prisão de Ricardo Antunes existe apenas um release – tudo indica que da autoria da polícia do governador Eduardo Campos – que foi publicado na imprensa e em uma imensidão de blogues. Este o release multiplicado ad infinitum:

“O jornalista Ricardo Antunes foi detido nessa sexta-feira, 5, por suspeita de extorsão. A Polícia Civil afirma que ele estaria tentando extorquir dinheiro do cientista político Antônio Lavareda, colunista da Rádio Band News FM. A quantia seria entregue em troca de que matérias sobre Lavareda fossem retiradas do blog ‘Leitura Crítica”.

Retirar notícias não é extorsão. Nunca será. Esta prática existe. Trata-se de uma corrupção comum na imprensa. O bicheiro Cachoeira é mestre nisso. Espionou autoridades, empresário, e filmou reuniões, gravou conversas telefônicas, roubou documentos secretos, forjou dossiês que foram publicados na grande imprensa escrita e televisionada, tendo jornalistas famosos como parceiros.  O ‘jornalismo investigativo’ de Cachoeira recebeu prêmios Esso de Jornalismo. Pobre imprensa brasileira, “pusilânime jornalismo” como bem definiu o jornalista, poeta, teatrólogo e filósofo Millôr Fernandes.

Apesar da origem sebosa este jornalismo marrom não é extorsão. Extorsão foram as matérias com assinaturas de jornalistas e espiões que Cachoeira não divulgou. A caixa-preta da imprensa está cheia dessas notícias escabrosas. Idem o livro 2 da polícia, a investigação policial sob segredo de justiça, e a justiça secreta do foro especial.

O Brasil é o país do segredo eterno.

A repetição da mesma notícia não é suíte, uma prática necessária, mas que vem sendo abusivamente realizada na cobertura do julgamento do mensalão.

Sobre a retirada de notícias: de repente, não mais do que de repente, a imprensa pára de publicar um suíte.

Suíte – é uma matéria que dá sequência ou continuidade a uma notícia, seja por desdobramento do fato, por conter novos detalhes ou por acompanhar um personagem.

O JORNALISMO COMO BALCÃO DE NEGÓCIOS

Pagar para publicar uma notícia ou não publicar faz parte do mercado negro do jornalismo.

Óbvio que na imprensa de papel é impossível retirar uma notícia depois de publicada. Paga-se para que determinado ato ou fato não seja mais noticiado.

Na internet isso acontece. No caso Lavareda-Ricardo Antunes falta saber quem tomou a iniciativa. Se Lavareda propôs: pago tanto para você retirar tais notícias. Um ato de corrupção e/ou armadilha que Ricardo Antunes caiu. Ou se foi Ricardo Antunes que fez a proposta nojenta: me vendo, retiro as notícias por dois milhões de reais.

Lavareda é banqueiro, empresário imobiliário e dono de duas agências de publicidade, noticiou Ricardo Antunes. Lavareda tem o dinheiro. Se Ricardo Antunes é tão esperto, por que aceitou receber em trinta prestações de 50 mil reais?

(continua)

Publicado por

Talis Andrade

Jornalista, professor universitário, poeta (13 livros publicados)

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