Democracia real: a ocupação da reitoria como um instrumento político legítimo

Por todo o país, o setor de Ensino Superior está em greve. Em muitos lugares, a greve abrange as três categorias (estudantes, professores e técnico-administrativo). O que poderia parecer recorrente para alguns, no entanto, para outros, chama atenção o caráter que os estudantes da UFPR deram para a greve local.

 

Por Paulo Gustavo Roman

 

Pode-se notar assim a peculiaridade que o processo de greve na UFPR, não foi à toa que os estudantes decidiram ocupar a reitoria no dia 3 de julho. Este ato foi resultado de um processo mais profundo, no qual os estudantes já estavam inserido. Cabe perguntar-se qual processo? Este responde à crise do sistema político brasileiro, o povo já não acredita mais nesta “democracia representativa”, na qual somos obrigados a “escolher” quem vai nos dirigir, mas não podemos escolher o que será feito. O escritor uruguaio, Eduardo Galeano, tem uma anedota bem interessante que ilutra esse processo, diz ele que havia um cozinheiro que resolveu reunir as aves para que ela decidissem qual salsa elas gostariam que fosse usada para comê-las, algumas disseram que preferiam molho de tomate, outras molho branco, e uma ave disse que não gostaria de ser comida, já o cozinheiro afirmou, afinando a faca, que essa opção não existe. É justamente assim que a Reitoria vem tratando os estudantes da UFPR. Quando estes decidiram por radicalizar o processo, pois entendiam que a reitoria vinha tratando a negociação (leia-se, conversa) com desprezo, o cenário foi o mesmo da ave que não queria ser comida.

Para frear esse movimento de democracia real (ou democracia direta como o movimento grevista tem afirmado), a Reitoria ameaçou os estudantes de expulsão, processos judiciais e administrativo. Como também lançou um “Informe” (veja aqui) no qual deixava entender que os estudantes/lutadores eram semelhantes aos “terroristas”, nada mais perigoso e assustador pois esse discurso frente aos penosos tempos da ditadura militar, na qual todo lutador(a) foi considerad@ um terrorista. No entanto, o que a Reitoria não conseguiu ver é que a crise política já está instalada, que novas formas de organizações estão surgindo das novas relações que estão sendo travadas. Ainda é muito cedo para avaliar o que estes estudantes deixaram para a história das lutas universitária, mas já podemos dizer que uma nova forma de se organizar está nascendo, que o acúmulo deste movimento será (re)aproveitado pelos que virão futuramente. Não vai ser um “Informe Reitoria” que desmobilizará a luta dos estudantes, pelo contrário, a raiva se torna combustível para alavancar a luta. Porque a nossa raiva é digna!

Para finalizar, cabe lembrar que estamos numa encruzilhada histórica, a ideologia da “democracia representativa” está perdendo força, no seu lugar está surgindo outra democracia, uma organização que as pessoas não precisam mais esperar que os Outros façam algo por elas, mas estamos tomando às rédeas da vida em nossas mãos, se não for nós que construiremos Outro Mundo Possível, então quem vai ser? Por isso o choque tende a crescer, é a luta por uma democracia direta que vai de encontro com a “democracia representativa”, é o combate dos “de baixo” com os “de cima” que move este processo. Nós não precisamos que a Reitoria (e as outras instituições que defendem os interesses de uma classe) diga que a ocupação é um instrumento legítimo, mas somos nós, os estudantes “de baixo”, os únicos que podemos dizer quais instrumentos são legítimos e como iremos lutar.

 (Transcrevi trechos)

Publicado por

Talis Andrade

Jornalista, professor universitário, poeta (13 livros publicados)

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