Honduras e Paraguai, golpes completamente diferentes

Entrevista de Martin Almada

 

– Como se deu a articulação do golpe que destituiu Fernando Lugo da presidência do Paraguai?

Foi uma trama muito bem montada pela direita paraguaia. E quando digo direita paraguaia, refiro-me à oligarquia Vicuna, aos grandes fazendeiros, refiro-me aos donos da terra, os plantadores de soja transgénica, refiro-me às multinacionais, como a Cargil e a Monsanto, e também aos partidos tradicionais ligados a essas oligarquias. É um caso muito particular de golpe.

 

– Mas é possível compará-lo, por exemplo, com o golpe que ocorreu nas Honduras?

Ao contrário do que muitos dizem, não se pode comparar. Foram golpes completamente diferentes. Nas Honduras, o exército norte-americano interveio, juntamente com as tropas hondurenhas. A embaixada americana teve uma atuação clara. O presidente caiu na sua cama. No Paraguai, tudo foi articulado via parlamento, que é a instituição mais corrupta do país. No fundo, é claro, sem aparecer, também estava a embaixada americana. Mas a sua participação deu-se através das organizações não governamentais (ONGs) e dos órgãos de segurança. Normalmente, um golpe de estado, como ocorreu nas Honduras, dá-se com tiroteio, bomba, pólvora, morte. No Paraguai, não houve tiroteio, não houve pólvora. O que rolou foi muito dinheiro, muitos dólares.

– E como se comportou a imprensa paraguaia?

Os meios de comunicação estavam todos ao serviço do golpe. É por isso que digo que foi um golpe perfeito: quando o presidente golpista assumiu, cantou-se o hino nacional com uma orquestra. E uma orquestra de câmara. Foi um golpe planificado com muita antecipação.

– E onde estava o povo, os movimentos organizados que não saíram às ruas?

O presidente Lugo cometeu muitos erros. Primeiro, quando ocorreu a morte dos sete polícias e onze camponeses, eu penso, como defensor dos direitos humanos, que tanto a polícia quanto os camponeses eram inocentes. Aquele conflito foi uma trama. Os polícias usavam colete à prova de balas, mas os tiros ultrapassaram estes coletes. E nós sabemos que as armas usadas pelos camponeses são muito artesanais. Não teriam essa capacidade. O que nós imaginamos é que haviam infiltrados com armas muito potentes. E Lugo, após o conflito, fez uma declaração péssima: condenou os camponeses e prestou condolências aos familiares dos polícias. Isso caiu muito mal. Segundo, Lugo assinou uma lei repressiva, uma lei de tolerância zero. Outro erro de Lugo foi firmar acordo com a Colômbia para assessorar a polícia paraguaia.

– Para tentar manter-se no poder, ele fez concessões à direita que o desgastaram com as classes populares. É isso?

Exatamente. Então, no momento do golpe, o povo não saiu às ruas. Na verdade, foram dois motivos. Primeiro, a frustração, a indignação e o desencanto com Lugo. Segundo, no Paraguai, as pessoas com mais de 40 anos têm muito medo. Porque nós não vivemos 20 anos de ditadura. Nós vivemos 60. Então, só os jovens saíram às ruas. Aliás sempre, no Paraguai, as manifestações de rua são protagonizadas por jovens, que têm uma coragem admirável.

 (Transcrevi trechos)
Da campanha estudandil dos estudantes Paraguai, indignados com as lei de Lugo de tolerância zero, e acordo com a polícia da Colômbia
Cartazete da campanha dos estudantes do Paraguai, indignados com as lei de Lugo de tolerância zero, e acordo com a polícia golpista e corrupta da Colômbia

Publicado por

Talis Andrade

Jornalista, professor universitário, poeta (13 livros publicados)

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