O Paraguai fugidio

Julgado de Nossa Senhora do Desterro do Desemboque
Julgado de Nossa Senhora do Desterro do Desemboque

por Sebastião Nery

 

A 50 quilometros de Sacramento e a 120 quilometros de Uberaba, no Triângulo Mineiro, uma cidade que foi glória e nervo da riqueza de Minas estava se acabando, perdida no tempo e na desesperança.

O Julgado de Nossa Senhora do Desterro do Desemboque, lá por 1800, era o portão dos campos de Goias e entroncamento do comercio do ouro. Restaram apenas duas maravilhosas igrejas barrocas inteiramente abandonadas, uma praça de capim, doze casas e exatamente 36 habitantes.

Altar mor da Igreja Nossa Senhora do Desterro -Desemboque (foto Virgínia Dolabela)
Altar mor da Igreja Nossa Senhora do Desterro -Desemboque (foto Virgínia Dolabela)

Quem redescobriu o Desemboque foi o romancista Mário Palmério e o jornalista Mauro Santayana, que lá foram e tão fascinados ficaram que pensaram comprar a cidade para recuperar igrejas, praça, casas e o tempo.

Lá lhes contaram uma história fantástica. Os 36 habitantes ali viviam segregados, plantando suas frutas e legumes e comendo o que brotava do chão. Uma manhã, alguém perguntou ao vizinho que dia era. Não sabia. Foram de casa em casa, ninguém sabia. As folhinhas estavam amarelecidas e já não diziam nem os dias, nem os meses, nem os anos. O jeito foi mandar um portador a cavalo até Sacramento para buscar o dia.

O dia veio. Fugidio, mas veio.

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PARAGUAI

Mario Palmerio, o romancista telúrico dos clássicos “Vila dos Confins”, “Chapadão do Bugre” e outros, foi um homem múltiplo e um amigo único. Formado em filosofia pela USP (Universidade de São Paulo) e em medicina pela UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), ensinou matemática, fundou as faculdades de Odontologia, Medicina, Direito e Engenharia e a Universidade de Uberaba, foi deputado federal (PTB) de Minas de 1950 a 1962, entrou para a Academia Brasileira de Letras, aprendeu sozinho a tocar piano, morou anos em um barco no rio Amazonas e foi embaixador do Brasil no Paraguai, de 1962 a 1964.

Lá, criou o “Colégio Experimental”, concluiu a “, compôs garanias que se tornaram patrimônios nacionais : “Saudade” (vídeo, até hoje uma das musicas mais tocadas e cantadas no Paraguai), “Non Digas No”, “Assuncion”. E deixou historias maravilhosas.

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STROESSNER

De noite, tocou o telefone na embaixada do Brasil em Assunção:

– Dom Mário, estava precisando falar com o senhor.

– Pois não, presidente Stroessner.

– Pode passar aqui pela manhã? Às cinco.

– Da manhã?

– Sim. Chego ao Palácio às cinco.De manhã é melhor para conversar.

– Presidente, em nome da amizade do Brasil com o Paraguai essa conversa não podia ser às 11?

Foi às onze.

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SAPEÑA PASTOR

Mário Palmério fez da Embaixada do Brasil em Assunção um abrigo de políticos e intelectuais da oposição.

Uma tarde chega o então ministro do Exterior, Sapeña Pastor:

– Senhor embaixador dom Palmério, nosso país deseja e precisa manter as melhores relações possíveis com o Brasil. Mas o senhor tem aqui na embaixada, asilados, mais de 40 inimigos do regime, e isso está causando os maiores problemas para o governo. O senhor não podia tomar uma providência para ajudar meu ministério e nosso governo?

– Pois não, Sr. Ministro, já estou tomando.

– Qual, senhor embaixador?

– Vamos lá em cima, no segundo andar, para o senhor ver a beleza de apartamento que estou preparando para asilados de luxo.

– Mas esta é uma brincadeira de mau gosto, senhor embaixador.

– Não é, não, senhor Ministro. O general Stroessner, seu presidente, em outros tempos já foi hospede aqui da embaixada do Brasil. O senhor, em qualquer eventualidade, também pode contar conosco.

Sapeña Pastor saiu e nunca mais tocou no assunto.

O Paraguai, com o pífio golpe parlamentar que derrubou o presidente Lugo, mostrou que continua asilado em um tempo cada vez mais fugidio.

Julgado de Nossa Senhora do Desterro do Desemboque, foto de Virginia Abdalla
Julgado de Nossa Senhora do Desterro do Desemboque, foto de Virginia Abdalla

Publicado por

Talis Andrade

Jornalista, professor universitário, poeta (13 livros publicados)

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