Agronegócios, monopólio de terras e transgênicos por detrás do golpe de Estado no Paraguai

Uma complexa trama na qual milhares de camponeses sem terra vêem avançar os grandes produtores brasileiros sobre o Paraguai para plantar soja transgênica, junto à investida contra o governo para introduzir definitivamente os transgênicos em todo o país, terminou em um golpe de Estado “express” no qual os aliados políticos do agronegócio atuaram rapidamente, para destituir o presidente do país.

As tentativas de destituir o titular do Servicio Nacional de Calidad y Sanidad Vegetal (Senave), Engenheiro Miguel Lovera, com uma lista de acusações que incluía sua posição “contra a produção agropecuária moderna”, por parte da Unión de Gremios de la Producción (UGP), e a tentativa para liberar os transgênicos – que era explícito no ‘tratoraço’ – deixam às claras a luta para torcer o braço de um governo que, com muitíssimas limitações, havia começado a dialogar com os movimentos camponeses. Mal Lugo foi destituído, a medida de força [tratoraço] impulsionada pelo agronegócio foi suspensa.

A situação da terra e sua distribuição desigual, com 85% das terras –uns 30 milhões de hectares- em mãos de 2% dos proprietários, somada à penetração de produtores brasileiros, produz uma tensão permanente na qual a violência parapolicial, por parte das forças públicas, é algo cotidiano, e vem acompanhada pela criminalização das lutas camponesas. A matança de Morombí, em Curuguaty, que aconteceu no dia 15 de junho, como resultado dessas tensões, e a repressão estatal e paraestatal, que culminou com a morte de 6 policiais e 11 camponeses, foram utilizadas para empreender o julgamento político e o golpe institucional.

Desde a Alianza Biodiversidad, condenamos o golpe, que tem recebido o rechaço de todo o povo paraguaio, e denunciamos as grandes corporações do agronegócio, com Monsanto e Cargill à cabeça, como responsáveis, junto aos grandes latifundiários locais e os políticos cúmplices, por esse golpe. Estão amplamente demonstrados os vínculos e interesses comuns desses setores.

Ao mesmo tempo, partilhamos o apoio político expresso pelos governos de distintos países, e pela Unasul, ao presidente constitucional Lugo, que constataram a violação de garantias processuais e democráticas por parte do vice-presidente Federico Franco, de dirigentes políticos de diversos partidos e autoridades legislativas. Acompanhamos também as manifestações de repúdio e de solidariedade expressas por inúmeras organizações políticas e movimentos sociais de toda a América Latina.

Acompanhamos o povo paraguaio em sua resistência, e nos comprometemos a sustentar a denúncia de ilegitimidade do atual governo, e a apoiar a luta do povo paraguaio e as reivindicações das organizações camponesas e povos indígenas do Paraguai.

Hoje, todos somos Paraguai!

Assinam:

Alianza Biodiversidad
– REDES-Amigos de la Tierra, Uruguay
– GRAIN, Chile, Argentina y México
– ETC Group, México
– Campaña Mundial de las Semilla de Vía Campesina, Chile
– Grupo Semillas, Colombia
– Acción Ecológica, Ecuador
– Red de Coordinación en Biodiversidad de Costa Rica, Costa Rica
– Acción por la Biodiversidad, Argentina
– Sobrevivencia, Paraguay
– Centro Ecológico, Brasil

Publicado por

Talis Andrade

Jornalista, professor universitário, poeta (13 livros publicados)

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