Preso que ler tem pena reduzida. O governo devia oferecer livros para a polícia

O Brasil tem preso especial. Mas falta construir os presídios especiais.

Em diferentes operações, a Polícia Federal deteve pessoas importantes dos três poderes da República, e as principais fortunas do País. Que logo são soltas por habeas corpus mais rápidos que o julgamento político de Fernando Lugo. Que perdeu a presidência  do Paraguai em um “juicio político” relâmpago, eufemismo para golpe de estado.

O capo Daniel Dantas ganhou dois habeas corpus em uma semana. Era apenas um detido. Outros são julgados e condenados e jamais presos. Acontece com a quadrilha de Salvatore Cacciola, preso por engano pelo príncipe de Mônaco. Turista da justiça, foragido na Itália, esqueceram de tirar o nome de Cacciola da lista de procurados da Interpol. Acontece o mesmo com a quadrilha do juiz Lalau.

Publicou a Agência Brasil hoje:

Os presos que se dedicarem à leitura de obra literária, clássica, científica ou filosófica poderão ter as penas, em regime fechado ou semiaberto, reduzidas. A cada publicação lida, a pena será diminuída em quatro dias. No total, a redução poderá chegar a 48 dias em um ano com a leitura de até 12 livros, de acordo com a Portaria 276 do Depen (Departamento Penitenciário Nacional) publicada nesta sexta-feira no Diário Oficial da União.

As normas prevêem que o detento terá o prazo de 21 a 30 dias para a leitura de uma obra literária disponibilizada na biblioteca de cada presídio federal. Ao final, terá que elaborar uma resenha que será analisada por uma comissão de especialistas em assistência penitenciária. O participante do projeto contará com oficinas de leitura.

A comissão avaliadora também observará se as resenhas foram copiadas de trabalhos já existentes. Caso sejam consideradas plágio, o preso perderá automaticamente o direito de redução de sua pena.

Um prisão com biblioteca tem que ser considerada especial. Que existem universidades no Brasil sem bibliotecas.

Ler um livro é, realmente, um castigo para muitos. Mas se esta lei for retroativa, Marcola, líder do PCC em São Paulo tem a liberdade garantida. Transcrevo trechos de entrevista:

– A morte para vocês é um drama cristão numa cama, no ataque do coração… A morte para nós é o presunto diário, desovado numa vala… Vocês intelectuais não falavam em luta de classes, em “seja marginal, seja herói”? Pois é: chegamos, somos nós! Ha, ha… Vocês nunca esperavam esses guerreiros do pó, né? Eu sou inteligente. Eu leio, li 3.000 livros e leio Dante… Mas meus soldados todos são estranhas anomalias do desenvolvimento torto desse país. Não há mais proletários, ou infelizes ou explorados. Há uma terceira coisa crescendo aí fora, cultivado na lama, se educando no absoluto analfabetismo, se diplomando nas cadeias, como um monstro Alien escondido nas brechas da cidade. Já surgiu uma nova linguagem. Vocês não ouvem as gravações feitas “com autorização da Justiça”? Pois é. É outra língua. Estamos diante de uma espécie de pós-miséria. Isso. A pós-miséria gera uma nova cultura assassina, ajudada pela tecnologia, satélites, celulares, Internet, armas modernas. É a merda com chips, com megabytes. Meus comandados são uma mutação da espécie social, são fungos de um grande erro sujo.

– Vou dar um toque, mesmo contra mim. Peguem os barões do pó! Tem deputado, senador, tem generais, tem até ex-presidentes do Paraguai nas paradas de cocaína e armas. Mas quem vai fazer isso? O Exército? Com que grana? Não tem dinheiro nem para o rancho dos recrutas… O país está quebrado (…). O Exército vai lutar contra o PCC e o CV? Estou lendo o Klausewitz, “Sobre a guerra”. Não há perspectiva de êxito… Nós somos formigas devoradoras, escondidas nas brechas

Marcola não é um preso especial. Não tem diploma de bacharel. Preso especial é quem pratica o chamado crime de colarinho branco. Gente final. Da alta. Muitos são analfabetos. Mas podres de ricos.

Toda CPI tem uma musa. Se acontecer de alguém da quadrilha do bicheiro Cachoeira ir preso, imaginemos a cena em uma prisão especial…

Consequentemente, o governo precisa investir na educação dos soldados. Inclusive na cultura. Ter boas bibliotecas nos quartéis e delegacias. Pagar o salário educacão. E outro para a cultura. Para evitar o absurdo do soldado inculto, brucutu, e preso intelectual.

Publicado por

Talis Andrade

Jornalista, professor universitário, poeta (13 livros publicados)

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