Os sem teto da classe média

Quando se fala em sem teto, as elites pensam na maioria dos brasileiros de rendimento mensal máximo de 270 reais, nos socorridos pelo bolsa família, inclusive nos que ganham o mínimo do mínimo, o tabelado 610 reais (305 dólares) como salário ou aposentadoria ou pensão. Ledo engano. Os miseráveis, os pobres constroem suas casas em áreas de risco, nos mais distantes lugares, nos locais sem os serviços essenciais, inclusive terrenos invadidos. Certamente que existem os moradores de rua, os que alugam imóveis. O aluguel de um casebre em uma favela do bairro de Boa Viagem, Recife, custa mais de 70 reais. É um quartinho e wc, coberto com telhado de zinco.

Sem teto, o verdadeiro sem teto, é o morador de apartamento. O bacharel que ganha o salário piso. Que mora dois, três anos em um prédio, até receber o aviso de denúncia vazia, e vai residir noutro lugar duas, três vezes mais caro. Que o tabelamento dos aluguéis, pelo governo, nenhum proprietário de imóvel respeita. E quem aluga não possui nenhum direito, nenhunzinho.

Existe no Brasil um mercado de aluguéis, empresas com mais de mil imóveis, um negócio que rende mais que qualquer outro ramo da agiotagem.

Com empréstimos facilitados pelos bancos oficiais, mais o ganho do mercado de aluguéis, o especulador imobiliário vai enriquecendo. É este prestamista o principal comprador de imóveis residenciais no Brasil, mais os corruptos, ou estrangeiros que decidem viver seus tempos de velhice no Brasil.

Um trabalhador honesto não tem como comprar a casa própria. Salvo se juntar a renda familiar ( e rezar para ninguém ser desempregado), tirar na loteria, receber herança ou conseguir estabilidade em um rendoso emprego público, de preferência no judiciário ou legislativo.

Mais quem paga aluguel assina um contrato de cão. Veja que absurdas obrigações, e o governo e legisladores e a justiça não sabem nada deste mercado negro:

* Satisfazer, incontinenti, todas as notificações ou intimações expedidas por órgãos públicos da administração direta ou indireta, decorrentes de atos, ações ou omissões de sua responsabilidade, bem como entregar, imediatamente, ao(à) locador(a) todos os documentos de cobranças de taxas, tributos e encargos de qualquer natureza

* Pagar, incontinenti, qualquer multa imposta pelos poderes públicos, por inflação de leis, regulamentos ou posturas dando imediata ciência ao(à) locador(a)

* Permitir, no caso de exposição para venda do imóvel locado, que este seja visitado e examinado por terceiros (isto é, se o inimigo deseja te visitar, stalking, ou amigo urso assediar sexualmente…)

* Fica assegurado ao (à) locador(a) a faculdade de, a qualquer tempo, por si ou pessoa de confiança, vistoriar o imóvel (o direito de privacidade não existe)

Transcrevi parte de um contrato de locação com comentários meus entre parêntesis, apenas para assinalar que, quem aluga imóvel, é um brasileiro de merda, isto é, não é um cidadão.

A sujeição de ter de alugar é que o Brasil paga os piores salários do mundo, e todo emprego é temporário, que o ditador Castelo Branco cassou a estabilidade. Quem não possui emprego fixo não pode realizar nenhum projeto para o futuro.

Os salários estão congelados, e no Brasil fazer greve passou a ser um crime, baderna. E quanto mais baixo um salário, maior o ganho do empregador.

Quanto mais velho um comprador de imóvel mais caro fica o sonho da casa própria, maior o juro (as seguradoras cobram taxas exorbitantes), e menor o prazo das prestações.

Publicado por

Talis Andrade

Jornalista, professor universitário, poeta (13 livros publicados)

Um comentário sobre “Os sem teto da classe média”

  1. Fruto do judiciário. Houve a pouco uma barulhenta CPI – A do poder Judiciário – na qual se destacou o Senador Antônio Carlos Magalhães (PFL-BA) que arrecadou milhares de sentenças e processos mostrando como a corrupção mancha o Judiciário de Norte à Sul do país.(outros debatedores, mais cultos e ilustres, falara antes e antes desta CPI, que o principal problema nacional é construir uma Justiça Pública e Autônoma, livre das pressões dos poderosos. Hoje, sem margem a erro, pode-se dizer que estamos na mesma situação de 157 anos atrás, quando Nabuco de Araújo, em 1943, já discutia a reforma do Judiciária, com uma frase que é por si só um programa: “ Ou organizais a Justiça Pública, verdadeira, real, completa – ou legitimais a vindita (punição) popular. Não tendes pois, escolher: é preciso organizar a Justiça Publica.” (Joaquim Nabuco, “um estadista do império”, I, PA 45).

    Pior: O povo não acredita na Justiça… E o próprio Rui Barbosa – Artífice da Constituição 1891 – pode constatar que a Generalização do Sufrágio direto e o Self-government, não foram suficientes para por cobro às violências praticadas pelas elites dominantes.“ O Judiciário é um poder que mais falhou à nação” (Fonte: Junho/2002, Estado de Minas, p. 13).

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