Dilma Rousseff não sabia sequer se os interrogatórios e as sessões de tortura aconteciam de dia ou de noite

“As marcas da tortura sou eu. Fazem parte de mim”
DILMA ROUSSEFF – 25 DE OUTUBRO DE 2001

Militante de esquerda, Estela, que tinha 22 anos na época, apanhou muito nos porões da ditadura. E foi torturada em Minas, mais especificamente em Juiz de Fora, e não só no Rio de Janeiro e em São Paulo como se sabia até agora. Estela é um dos codinomes usados na época por Dilma Vana Rousseff, hoje a presidente do Brasil. É o que revela a repórter Sandra Kiefer, que obteve documentos inéditos em que Dilma relata ter sido pendurada por seus algozes mineiros no pau de arara, apanhado de palmatória e levado choques e socos que a marcaram para o resto da vida.

Dente arrancado com um soco
“Uma das coisas que me aconteceu naquela época é que meu dente começou a cair e só foi derrubado posteriormente pela OBAN. Minha arcada girou para outro lado, me causando problemas até hoje, problemas no osso do suporte do dente. Me deram um soco e o dente deslocou-se e apodreceu. Tomava de vez em quando Novalgina em gotas para passar a dor. Só mais tarde, quando voltei para SP, o Albernaz completou o serviço com um soco, arrancando o dente”.

Pau-de-arara e palmatória
…“Se o interrogatorio e de longa duracao, com interrogador ‘experiente’ ele te bota no pau-de-arara alguns momentos e depois leva para o choque, uma dor que nao deixa rastro, so te mina. Muitas vezes tambem usava palmatoria; usava em mim muita palmatoria’’…

Público, Portugal:
O “Estado de Minas” reproduz uma entrevista de Rousseff ao Conselho de Direitos Humanos de Minas Gerais, concedida em 2001, na qual narra as torturas que sofreu entre 1970 e 1973, quando foi detida e condenada por um tribunal militar como militante de um grupo de esquerda que lutava contra o regime militar (1964-1985).

Nas suas declarações, Dilma disse que às vezes não sabia sequer se os interrogatórios e as sessões de tortura aconteciam de dia ou de noite. “No início, não tinha rotina. Não se distinguia se era dia ou noite. Geralmente, o básico era o choque (…) Se o interrogatório é de longa duração, com interrogador experiente, ele te bota no pau de arara alguns momentos e depois leva para o choque, uma dor que não deixa rastro, só te mina. Muitas vezes usava palmatória; usaram em mim muita palmatória. Em São Paulo, usaram pouco este ‘método’”.

“Estive presa três anos. O stress é feroz, inimaginável. Descobri, pela primeira vez, que estava sozinha. Encarei a morte e a solidão. Lembro-me do medo quando a minha pele tremeu. Tem um lado que marca a gente pelo resto da vida”, afirmou Rousseff.

De acordo com o “Estado de Minas”, até ao momento a Presidente do Brasil sempre se recusou a falar sobre a tortura a que foi sujeita, fosse “por discrição ou por precaução”.

Só em 2003 Dilma contou alguns detalhes sobre as torturas a que foi sujeita no Rio e em São Paulo, que apenas vieram a público em 2005. Nessa altura Dilma era ministra e acabava de ser nomeada para ocupar a Casa Civil.

O relato pessoal de Dilma, que agora se torna público, é anterior a isso. Data de 25 de Outubro de 2001, quando ela ainda era secretária das Minas e Energia no Rio Grande do Sul.

Publicado por

Talis Andrade

Jornalista, professor universitário, poeta (13 livros publicados)

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