Amancebar está em moda. Quandos os ricos adotam os costumes dos pobres

Estável quer dizer duradouro, consistente, constante, firme, fixo, inabalável, permanente, seguro, sólido.

A união hoje chamada de estável era condenada como amigação, mancebia, concubinato. Acontecia paralela ao casamento, e coisa de puta. Ainda hoje, praticamente, toda união estável começa com um adúltero ou adúltera.

A quem interessa essa liberdade?

Sou pelo amor livre, portanto, vamos esquecer a pregação religiosa. Mas fico preocupado com a origem do discurso contrário ao casamento. Veja o exemplo gay. Todas as campanhas contra a homofobia, a lesbofobia, na Argentina e na Europa, foram centradas no casamento igualitário e libertário. No Brasil, não. Os gays, nas suas passeatas de um milhão em São Paulo, apenas defendem o direito de ser, sem discriminações.

Trago de volta um texto de Pierre Dommergues (Le Monde, 12 de abril de 1981).

Assiste-se a um vasto questionamento da ideologia dos anos 60 – a contracultura, a “nova esquerda” americana, o feminismo – em que se misturam vozes da direita e da esquerda. Pode-se ver nesse movimento o ressurgimento, sob novas roupagens, de uma direita eterna , ou nova prova da incapacidade da esquerda em inovar…

Indagava Dommergues: Quais são as novas manifestações do poder? Como resistir às burocracias de todas as sociedades industriais? Qual o papel respectivo da filosofia e das ciências sociais? Como não trair o ideal da participação? A disciplina não é, apesar de tudo, uma valor fundamental?…

Nos anos 60 e 70, o historiador norte-americano Christopher Lasch explorou as forças e as fraquezas das ideologias liberais e radicais. “Em seu livro publicado na França sob o título de Le Complexe de Narcisse (A Cultura do Narcisismo, na edição brasileira), este homem de esquerda, cético e inquieto, analisa com franqueza, mas de forma nuançada, as novas formas de controle social ligadas ao que ele chama de cultura do narcisismo”.

A NOVA FAMÍLIA SUPERAUSENTE

Do debate Dommergues/Lasch, vou transcrever apenas os tópicos que me interessa provar o posicionamento do Correio Braziliense como porta-voz.

Afirma  Christopher Lasch: – O que me chama a atenção (…)  a ausência de uma verdadeira intimidade, a permeabilidade da família. É verdade que a criação dos filhos não é realizada por nenhum organismo exterior, mas vem sendo controlada por uma rede cada vez maior de conselheiros, de peritos, de técnicos em relações públicas – pense, por exemplo, nos manuais de puericultura! A história social da família moderna , onde se explica a sua evolução, é enganosa. Se há alguma modificação na família, é por influência dos especialistas, e  isso afeta o processo de civilização das crianças e cria um novo tipo de personalidade.

Enquanto, no passado, a sociedade capitalista dependia largamente da família e das outras instituições para moldar uma personalidade autoritária, centrada no indivíduo ativo e no trabalho, um novo tipo de personalidade é hoje requerido por um novo modo capitalista. Essa personalidade se insere em uma família não superpresente, como no século XIX, mas superausente. Ela se define não pela ética do trabalho ou a contenção sexual, mas pela ética da sobrevivência e pela promiscuidade sexual. Ela é dominada não pela culpa, mas pela angústia, um sentimento todo-poderoso, mas mal-definido, de insatisfação, de tédio, de desejos insatisfeitos”.

Eu que sofro dessas novas neuroses que são universais, bem demonstro minha sensibilidade nas minhas poesias. Assim condeno a explicação simplista e enaltecedora do Correio Braziliense:

” Pressão da família, dinheiro, convenção social ou filhos. Há poucas décadas, os brasileiros se casavam por uma série de motivações que muitas vezes deixavam o amor em segundo plano. Um casal que decidia morar junto sem antes subir ao altar e passar por todos os ritos do casamento era estigmatizado e não tinha direito a benefícios garantidos a outras uniões formais. Mas a sociedade evoluiu e o preconceito e o conservadorismo deram espaço à liberdade. Com isso, juntar as escovas de dente sem antes assinar uma certidão de casamento não é mais um tabu”.

Podemos encontrar na união apresentada como estável, a invisível pressão da família e a mesma inconfessável motivação do casamento por interesse, no ajuntamento de quem tem  um emprego precário (todo trabalho, no Brasil, nas empresas privadas, é temporário) com que tem estabilidade no emprego (o funcionário público do judiciário, do legislativo, do executivo). Fosse o contrário, Brasília seria a capital das Cinderelas.

O AMOR À BRASILIENSE

Não é verdadeira a conclusão de que os divórcios aconteceram porque “deixavam o amor em segundo plano”.

E as novas uniões são realmente estáveis?

Christopher Lasch: “A literatura analítica é efetivamente rica em descrições de um novo tipo de pacientes que não sofrem mais de neuroses clássicas e de sintomas de histeria, mas de desordens (…) que podem ser qualificadas de narcísicas. Encontra-se, especialmente, uma forma de desarticulação do tempo, o esgarçamento do sentimento de que vivemos em uma continuidade histórica, a perda do sentido do passado”.

Lembro das casas de antigamente nas cidades interioranas. Na  sala de visitas, os retratos do Sagrado Coração de Jesus e dos avós.  Que me lembravam o altar budista de uma família japonesa.

Uma das primeiras providências do golpe de 64 foi retirar a História dos currículos escolares. Não existe nenhuma novidade na campanha contra a Memória Histórica.

O passado não existe, nem no sentido coletivo, nem no individual, e isso Lasch jamais imaginaria que se tornasse possível como filosofia de vida de todo um país.

“Nossa cultura encoraja os traços narcísicos que existem em cada um de nós e lhes traz uma certa gratificação. As novas relações familiares baseadas na tolerância (repressiva) têm sua responsabilidade nesse processo de controle. Mas também os meios de comunicação de massa, que abolem a distinção  entre a imagem e a realidade, e sobretudo o sistema burocrático, no qual  o conteúdo do trabalho importa menos que a rede de relações interpessoais, a ‘representação da pessoa’, a projeção de uma certa imagem de si mesmo – tudo aquilo em que se destacam as personalidades narcísicas.

(…) Tomando como base as narrativas psicanalíticas fundadas na experiência clínica, outro sintoma é uma consciência de si mesmo pouca desenvolvida, acompanhada da mesma necessidade de se ver refletido no outro. A nova personalidade não deixa nunca de medir o impacto de seus encantos sobre os demais, a fim de reforçar seu sentimento de existir”.

Historia o Correio Braziliense: “Há poucas décadas, os brasileiros se casavam”. Até 13 de maio de 1888, os negros escravos eram proibidos de casar. E os casamentos índios eram um farsa dos colonos. Uma encenação do Século XVI para consolidar pactos de paz com as nações indígenas.

Quando fiz a cobertura jornalística da campanha do desquite, que tanto revoltou a Igreja Católica, realizei várias enquetes no Recife com operários e demais pobres, e deles sempre ouvi que o desquite, depois transformado na lei do divórcio, era um direito desnecessário. “Há pouca décadas, os brasileiros se casavam”… Uma minoria: os brasileiros das classes média e alta.

A igreja assim como batizava os índios, inventou no século XX, os casamentos coletivos. Na década de 50. Como catequese do Congresso Eucarístico no Recife. E nas romarias de Frei Damião pelos Sertões nordestinos.

“Em nossa sociedade ( Christopher Lasch fala dos Estados Unidos), a religião não conta mais, ou melhor, tornou-se terapêutica. O essencial é aprender a se virar, a atravessar as ‘passagens’, as “crises previsíveis da vida adulta’. (…) Os antigos objetivos transcendentais da religião não são mais correntes, embora vivamos um tempo em que proliferam os cultos terapêuticos, os programas de auto-ajuda e as seitas religiosas”. O que acontece nos Estados Unidos, cedo ou tarde, acontece no Brasil. Não é um processo simplesmente imitativo. Mas imposto. Do golpe de 64, o Rock in Rio, as igrejas evangélicas.

No Brasil que persiste o trabalho escravo, o poder patriarcal ruralista continua contrário ao casamento.

Essa de  “juntar as escovas de dente sem antes assinar uma certidão de casamento não é mais um tabu”, puro besterol de jornal de rico. Inclusive escova de dente é luxo. O pobre diz juntar os trapos. Sempre foi assim. Juntar-se ou ajuntar-se: Unir-se maritalmente, amancebar-se. Escreve Rachel de Queiroz, em uma de suas crônicas: “Nem mesmo sigo esta moda de ajuntar, que aqui (lá no Ceará) se usa muito”.

Publicado por

Talis Andrade

Jornalista, professor universitário, poeta (13 livros publicados)

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