Major Curió suspeito de ameaçar testemunhas do Araguaia


Membros de grupo que busca ossadas na área também correm risco, diz juíza

Quatro pessoas relatam intimidações, entre elas um ex-motorista do major Curió

por JOÃO CARLOS MAGALHÃES e
LUCAS FERRAZ

Testemunhas da guerrilha do Araguaia (1972-1975) e ouvidores do grupo governamental que busca corpos do conflito vêm sendo ameaçados de morte, segundo relatou a juíza Solange Salgado, responsável pelo caso. A Polícia Federal abriu inquérito para apurar as ameaças.

“Essa questão do Araguaia está ficando muito preocupante, as ameaças são recorrentes, há indícios concretos”, disse a juíza àFolha.

Ela é responsável pela sentença que condenou a União em 2003 a buscar as ossadas dos militantes assassinados na região da Amazônia, o que vem sendo feito pelo grupo composto por familiares de guerrilheiros, membros do governo e do Exército.

Em 2010, a Corte Interamericana de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos condenou o Brasil a identificar e punir os responsáveis pelas mortes.

Organizado pelo PC do B, o conflito foi o maior foco da luta armada contra a ditadura. Cerca de 70 dos guerrilheiros foram mortos. Só dois corpos foram identificados até hoje.

Em decisão de dezembro, a juíza disse que “as pessoas que viveram naquele momento triste da história nacional e que hoje tentam colaborar com a Justiça estão sendo ameaçadas de morte”.

Pelo menos quatro relataram ameaças. Dois são ouvidores do grupo de trabalho, Paulo Fonteles e Sezostrys Alves, que trabalham em campo buscando testemunhos.

Um camponês que contribuiu com as buscas e um ex-motorista de Sebastião Rodrigues de Moura, o major Curió, um dos líderes militares da repressão à guerrilha, também sofreram ameaças.

Um dos suspeitos de promovê-las é o próprio Curió. À Folha ele disse: “Nunca ouvi falar nisso”.

Agora, ficou sabendo.

Curió é o chefe político de Curionópolis, um nome que é motivo de piada para os moradores.

Quem nasce em Curionópolis é chamado de

 curionopolitano, o mais utilizado é curionopolense,

isto é, de filho do major, gente dele, gente da terra do Curió.

Está previsto um plebiscito para mudar o nome. Mas os tribunais, o governador e a Assembléia Legislativa do Pará nem aí.

A ditadura de 64 continua em Curionópolis. Quem pensa o contrário, morre, desaparece.

Publicado por

Talis Andrade

Jornalista, professor universitário, poeta (13 livros publicados)

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