Atrás de verdade, no Dia da Mentira: Quando vai acabar a ditadura civil-militar?

Concentração aconteceu no Cemitério da Consolação, região central de São Paulo
Concentração aconteceu no Cemitério da Consolação, região central de São Paulo

A manifestação de condenação do regime militar, organizada pelo Cordão da Mentira, partiu do Cemitério da Consolação, no centro de São Paulo, e percorreu as ruas que sediaram prisões e porões da tortura e morte durante a didatura militar.

Composto por ativistas políticos, grupos de teatro e sambistas de diversos grupos e escolas da capital paulista, o Cordão da Mentira questiona o “real fim” do movimento repressivo militar. A data foi escolhida porque no domingo foi comemorado o Dia da Mentira e no sábado foram relembrados os 48 anos do Golpe Militar de 1964.

“Oficialmente, o período da ditadura acabou. Porém, o Brasil é o único país da América Latina que não julgou os criminosos do período. Como não tivemos esse julgamento, temos ‘heranças’, marcas ainda presentes de repressão e violência contra movimentos sociais e o direito de livre expressão”, declarou uma das organizadoras da manifestação, Priscila Oliveira.

Para outro integrante da organização, Fábio Franco, a intenção do Cordão da Mentira é recordar a participação civil no período e apontar como o Estado Democrático ainda não estaria totalmente consolidado no País.

“É um movimento estritamente pacífico, não utilizamos provocações diretas”.

O Cordão promoveu um sarau intitulado “Luís da Gama”, em alusão ao poeta, escritor, jornalista e líder abolicionista, como protesto pela “farsa” do fim da escravidão.

O grupo realizou um desfile pelas ruas da cidade, visitando lugares marcantes do período da ditadura militar: Rua Maria Antônia (“guerra da Maria Antônia”); Avenida Higienópolis – sede da Sociedade Tradição Família e Propriedade (TFP), uma das organizadoras da “Marcha da Família com Deus Pela Liberdade”, que 13 dias antes do golpe convocava o Exército a se levantar “contra a desordem, a subversão, a anarquia e o comunismo”; Rua Martim Francisco; Rua Jaguaribe; Rua Fortunato; Rua Frederico Abranches; parada no Largo da Santa Cecília; Rua Ana Cintra – Elevado Costa e Silva; Rua Barão de Campinas; Alameda Glete; Rua Barão de Limeira; Rua Duque de Caxias – Cracolândia/Projeto Nova Luz; e esquina da Rua Mauá com a Rua General Osório – a antiga sede do Departamento de Ordem Política e Social (Dops), quando foi lido o manifesto:

Quando vai acabar a ditadura civil-militar?

Dizem que quando uma mentira é repetida exaustivamente, ela se torna verdade. Dizem também, que é como farsa que o presente repete o passado. Por isso, vamos “celebrar” a farsa, a mentira e sua repetição exaustiva.

No dia da mentira de 1964, ocorreu o golpe que instituiu a ditadura civil-militar. Dizem que ela acabou. Porém, a maior ilusão da história brasileira repete-se. A ditadura civil-militar se fortalece no golpe de 1964 e, até hoje, ninguém sabe quando vai acabar! Nós vamos celebrar.

No dia primeiro de abril, abram alas para o Cordão da Mentira!

Quando admitimos que os crimes do passado permaneçam impunes, abrimos precedentes para que eles sejam repetidos no presente. Com a roupagem indefectível da democracia, da constituição, do direito à livre manifestação, o Estado continua executando os seus inimigos e calando de uma forma ou de outra aqueles que pensam e atuam em favor da tolerância, em favor da utilização dos espaços públicos de maneira respeitosa e saudável. Em nome da manutenção da produção e do consumo ostensivo vivemos o estado de exceção como regra e o direito conquistado de ir às urnas acaba apenas legitimando o que é uma verdadeira licença para calar, reprimir, matar.

Afinal:
Quando vai acabar o massacre de pobres nas periferias?
Quando os corpos do passado serão encontrados e dignamente reconhecidos em suas lutas?
Quando as armas dos militares deixarão de ser o signo do extermínio?
Até quando o dinheiro de poucos financiará o silêncio de muitos?
Até quando ouviremos o ronco dos Caveirões, Fumanchús e das Kombis genocidas?

Lembremos Pinheirinho, Eldorado do Carajás, Araguaia e as Ligas Camponesas! Casos que podem ser vistos como exemplos históricos do nosso tempo para a compreensão do processo pelo qual o Estado colocou a especulação imobiliária, a propriedade privada e a lucratividade acima da vida. Nada pode ser mais valorizado do que a vida. Somente um Estado calcado em mentiras pode favorecer essa inversão de valores.

Lembremos Mariguela, Pato N´Água, Herzog e os 492 executados em São Paulo em Maio de 2006! Personlidades anônimas ou conhecidas exterminadas pelas práticas autoritárias que resolvem suas contradições à bala.

Hoje, uma simples Comissão da Verdade – que apenas pretende investigar a história – levanta os fantasmas do passado, ocultos nas sombras da Lei de Anistia. Façamos então um Cordão da Mentira! Celebremos com a força dos batuques a farsa que une presente, passado e futuro.

Vivamos nossa balela! Enquanto isso, ditadores são julgados e condenados por seus crimes em terras argentinas, chilenas e uruguaias. Falemos outra língua: a gramática do engodo com o sotaque do esquecimento. Entremos na contramão da história!

Risquemos da memória que alguém pagou pra ver até o bico espumar no choque agudo das genitálias! Exaltemos os gozos pervertidos de empresas e seus braços armados, irmãos de sangue do torturado. Lembremos as mãos limpas que aplaudem as sessões de sofrimento. Pois o que vale é a fábula da tradição, assassina de famílias, com a maior propriedade!

Povoemos os porões do imaginário, com tudo aquilo que a ditadura encarcerou na sua cultura! Levemos pra lá o samba dos cordões, as imagens censuradas, as bocas amordaçadas. Fantasiemos as ruas com seus símbolos de opressão! Enganemos a todos com as farsas de nossa história!

Neste Primeiro de Abril, façamos a Mentira responder: Quando vai acabar a ditadura civil-militar?

 

 

Publicado por

Talis Andrade

Jornalista, professor universitário, poeta (13 livros publicados)

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