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O dinheiro é importante para ajudar o próximo

dinheiro cabeça corrupção

“A ganância, pensar só no dinheiro destrói as pessoas, destrói as famílias e as relações com os outros”. Foi o que disse o papa Francisco na missa da manhã desta segunda-feira, 21 de outubro, na capela da Casa Santa Marta. Comentando o Evangelho do dia, em que um homem pede a Jesus que ajude a resolver uma questão de herança com o seu irmão, o papa falou sobre a relação de cada pessoa com o dinheiro.

“Isso é um problema de todos os dias. Quantas famílias vemos destruídas pelo problema do dinheiro: irmão contra irmão; pai contra filho… E esta é a primeira consequência desse atitude de desejar dinheiro: destrói! Quando uma pessoa pensa no dinheiro, destrói a si mesma, destrói a família! O dinheiro destrói! É assim ou não? O dinheiro é necessário para levar avante coisas boas, projetos para desenvolver a humanidade, mas quando o coração só pensa nisso, destrói a pessoa”.

Ao recordar a parábola do homem rico, Francisco explicou a advertência de Jesus de que devemos nos manter afastados da ambição. “É isso que faz mal: a ambição na minha relação com o dinheiro. Ter mais, mais e mais… Isso leva à idolatria, destrói a relação com os outros! Não o dinheiro, mas a atitude que se chama ganância. Esta ganância também provoca doença… E no final – isso é o mais importante – a ambição é um instrumento da idolatria, porque vai na direção contrária àquela que Deus traçou para nós. São Paulo nos diz que Jesus Cristo, que era rico, se fez pobre para nos enriquecer. Este é o caminho de Deus: a humildade, o abaixar-se para servir. Ao contrário, a ambição nos leva para a estrada contrária: leva um pobre homem a fazer-se Deus pela vaidade. É a idolatria!”, disse o papa.

Rio da Integração

São Francisco
BRA_OPOVO seca CearáBRA^MG_EDM seca MG
A maior obra hídrica da América Latina, que vai levar água para 12 milhões de nordestinos, teve hoje o último contrato (da chamada Meta 3Norte) assinado. Agora, 100% das frentes de serviço do Projeto de Integração do Rio São Francisco estarão remobilizadas em muito breve.

As atividades do empreendimento que estavam suspensas passando por Mauriti, no Ceará, e em São José de Piranhas, na Paraíba, serão retomadas. A proposta, no valor de R$ 587,5 milhões, apresentada pela empresa Queiróz Galvão SA foi vencedora da licitação. Com a assinatura deste contrato, todas as frentes de serviço da maior obra de infraestrutura do país estarão em atividade.

Atualmente, o Projeto de Integração do Rio São Francisco já emprega 6,3 mil funcionários. Sendo que mais de 2,3 mil postos de trabalho foram criados neste ano de 2013. O empreendimento conta ainda com 1,8 mil máquinas e quatro trechos da obra que atuam 24 horas por dia: Salgueiro (PE), Cabrobó (PE), São José de Piranhas (PB) e Jati (CE).

#IntegraçãoSãoFrancisco #Pernambuco #Ceará #Paraíba #RioGrandedoNorte

Fonte José Truda Jr.

BRA^MA_OEDM seca Maranhão

OS RIOS DE FOGO

por Talis Andrade

Oito rios correm pela terra
Quatro conduzem as almas
ao inferno
Quatro rios de fogo
o Cete
o Cocito
o Aqueronte
o Flegetonte
Os quatro rios
em que serão derramadas
as setes taças da ira divina

Nas ondas agitadas ferventes do Aqueronte
o atazanamento dos industriais da morte
que negam o alívio a cura os medicamentos
para as epidemias do Terceiro Mundo
doença de chagas malária dengue
filariose tuberculose esquistossomose
leptospirose leishmaniose
cólera tifo antraz

Nas ondas ardentes do Flegetonte o flagelo
eterno para os industriais da seca
que matam de fome e sede
os retirantes do Sertão
Nas ondas ardentes do Flegetonte
as queimaduras que supliciarão os governantes
que roubam o leite das crianças
esvaziam os celeiros de trigo
os fundos de pensão

No rio Cocito o padecer
pelo fogo e pelo enxofre
dos televisivos falsos profetas
vendedores de milagres
mercadores de indulgências
No rio Cocito as lamentações
dos vendedores de ilusões
os ditadores os demagogos os políticos
mercadores da esperança

No Lete arremessados os demônios
os que ordenam os genocídios
os que anunciam a morte de Deus
No rio Lete o infinito tormento
dos que fabricam os armamentos atômicos

Ilustração Siham Zebiri

Ilustração Siham Zebiri

BRA_OPOVO seca saúde dengue

BRA_DN água seca Ceará

BRA_OPOVO seca governantes não conhecem o povo
Dinheiro para construir estádio o Ceará tem. Tem para outros elefantes brancos e serviços fantasmas.

Tem uma justiça cara. Tem um legislativo caro. Tem um executivo que nada faz que preste para o povo.

Vale para todo o Nordeste e o Brasil inteiro.

Os prefeitos nordestinos ficam ricos de repente. Ninguém investe em cisternas, em poços artesianos. Isso qualquer prefeito poderia fazer.

Que os governos estaduais cuidassem de construir açudes e de construir barragens nos rios. Que o governo federal terminasse as obras de transposição do Rio São Francisco e da interligação dos rios brasileiros e do mapeamento e aproveitamento dos aquíferos. O Brasil tem os dois maiores aquíferos do mundo. E, possivelmente, outros, cujas outorgas também estão sendo entregues aos piratas estrangeiros.

O Brasil que exporta água deixa o seu povo morrer de sede…

 
BRA^PE_JDC água privatização

A safadeza não é só nordestina. A indústria da seca rende muita grana. Inclusive votos. Os negócios dessas almas sebosas nunca dão com os burros n’água.

BRA^RJ_EX água compra voto Rio

água

 

br_atarde. Os prefeitos sao industriais da seca
BRA_JP prefeitos

br_atarde. água barata grande consumidor

A imprensa sempre fala dos preços dos alimentos, e esquece o custo da água engarrafada pelas empresas multinacionais. Quando um litro de água, em garrafa de plástico, está mais caro que a gasolina. Ou um litro de qualquer fruta comprada em uma feira livre. Faça a experiência com a laranja, a melancia, o melão.

BRA_JOBR e quanto custa um litro de água engarrafada em Brasília?

A mania agora é privatizar a água. Na surdina. Privatização hoje tem diferentes nomes: concessão (devia ser Conceição), outorga, parceria e outros me engana que o povo gosta.

Resultado: água mais cara para o povo.

BRA_DN água preço

Escreve Mauri König: “A morte ronda diuturnamente o sertanejo no Semiárido, no lastro das secas que forjam a mais triste e previsível tragédia brasileira. Fustigado pelo desejo de quantificar as perdas humanas, o pesquisador Marco Antônio Villa contou os mortos nas principais estiagens ocorridas no Nordeste entre 1825 e 1985. Chegou a 3 milhões de vítimas, conforme narra em Vida e Morte no Sertão (Ática, 2000)”.

E de 1985 para 2013?

Para não morrer de sede, o nordestino bebe água com cheiro e cor. Ou morre de sede, ou a água mata, e a estatística registra como morte por causa desconhecida.

Doenças          
Cólera
Disenteria
Febre tifóide
Hepatite infecciosa
Febre paratifóide
Gastroenterite
Diarréia infantil
Leptospirose

Por que a água deve ser parte da cesta básica? Leia a série de reportagens Órfãos da Seca de Mauri König. Veja reportagem da Tv Globo:

A seca está afetando a saúde de milhares de brasileiros da Região Nordeste. O repórter Alessandro Torres mostra por quê.

Na estiagem que parece não ter fim, a água quase se esgotou. 40% dos reservatórios do Ceará estão com nível crítico para abastecimento da população. Os moradores de Irauçuba, no sertão, a 150 km de Fortaleza, por exemplo, dependem de um açude que está praticamente seco.

Os moradores que não são atendidos já sentem na saúde as consequências da falta de água tratada para consumir.

O hospital e o posto de saúde precisam do caminhão-pipa para prestar atendimento aos pacientes que chegam com sintomas de contaminação.
“Está vomitando, vomitando, vomitando. Eu dei soro, não sustentou, vomitando e diarréia”, descreve a dona de casa Francisca Sousa Rodrigues.

“Por causa da água de má qualidade acontecem os casos de verminose e diarréias, principalmente em crianças”, aponta a enfermeira Ana Lúcia Pereira Lima.

Sem nada na torneira e sem carro-pipa, os moradores correm para comprar a pouca água que chega em caminhões até a cidade.

“Cada dia é de uma pessoa diferente, ninguém sabe nem de onde é que eles trazem”, diz a aposentada Neide Brito de Araújo.

“Quantos já hoje correram atrás de mim por mil litros de água, por 200, por tamborzinho de 50 litros, 20″, fala o comerciante Francisco Salomão Bastos.

“Está com quase uma hora que eu procuro água e não encontro. Tem dinheiro, mas não tem água pra comprar”, lamenta o desempregado Francisco das Chagas Lopes.

E quem não tem nem o dinheiro recorre aos vizinhos. Mas a água, que não é paga, pode custar a saúde.

“A gente cedeu água para eles, mas é um cacimbão que fica bem próximo ao esgoto, então nós não temos nenhuma qualidade e também não nos responsabilizamos por nenhum dano que a água causar”, diz a professora Osília Rodrigues Lima dos Santos.

“É o jeito usar porque não tem outra. É ruim, mas tem que aproveitar ela, né?”, fala o operário Vandecarlos Alves da Silva.

“A gente usa para tomar banho, às vezes até para beber também. Passa mal, faz mal às crianças, mas a gente não tem dinheiro para comprar todo dia”, diz a dona de casa Lucivânia Lopes dos Santos. Veja vídeo

Pela leitura da série de reportagens de Mauri König (vide tags), o Brasil deveria incluir a água engarrafada na cesta básica.

Para ONU, a água é alimento.

Informa a Wikipedia: Cesta básica é o nome dado a um conjunto formado por produtos utilizados por uma família durante um mês. Este conjunto, em geral, possui gêneros alimentícios, produtos de higiene pessoal e limpeza.

Não existe um consenso sobre quais produtos formam a cesta básica sendo que a lista de produtos inclusos pode variar de acordo com a finalidade para a qual é definida, ou de acordo com o distribuidor que a compõe. Há leis em alguns estados brasileiros que proporcionam isenção de impostos sobre produtos da cesta básica definida por cada um deles.

No Brasil, o DIEESE utiliza a Cesta Básica Nacional, ou Ração Essencial Mínima, composta de treze gêneros alimentícios com a finalidade de monitorar a evolução do preço deles através de pesquisas mensais em algumas capitais dos estados brasileiros. A quantidade dos gêneros na cesta varia conforme a região.

Os produtos desta cesta básica são (lista da Wikipédia):

Carne (enlatada), leite (em pó), feijão, arroz, batata, farinha, café (em pó), pão (francês ou de forma), açúcar, óleo (ou banha), manteiga, frutas (banana, maçã).

Manteiga nunca vi em nenhuma cesta. Nunca existe pão, e sim bolacha mofada. Maçã é exagero. É fruta importada. Tomate só se for enlatado.

Falta o fubá, o pão do índio. Hoje o milho é plantado nos latifúndios para ser exportado para os Estados Unidos fabricarem álcool.

Nos supermercados (as grandes redes são estrangeiras), o pacote da cesta básica fica sempre em baixo de alguma prateleira, e a maioria dos produtos com data vencida.

Antônia da Silva, de Canindé, equilibra-se com panela d´água na cabeça

Antônia da Silva, de Canindé, equilibra-se com panela d´água na cabeça

No Diario do Nordeste, Karoline Viana traça o mapa da seca no Ceará: Mesmo nos centros urbanos, onde há abastecimento, a situação não é melhor. Na sede de Parambu, quem pode compra água de caminhões que chegam carregados de Baixa do Poço, na divisa entre o Ceará e o Piauí. A dona de casa Francisca Gonçalves de Lima Leite diz que a água da torneira é muito salobra.

“Muita gente fica com dor nas urinas por causa dessa água. Eu mesma não tomo porque tenho gastrite, o jeito é comprar de fora”. Em Aiuaba, a água que sai das torneiras é ainda pior, com cheiro forte e coloração semelhante a de chá. Segundo o presidente do Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais de Aiuaba, Francisco Jailson de Castro Feitosa, parte do esgoto das comunidades de Barra e Bonomi cai no rio e chega no Açude Benguê, que abastece a cidade.

Na comunidade de Batoque, a 20km de Caridade, os 52 alunos da Escola João Beres dos Santos tomam a água salobra de um poço, enquanto logo ao lado há uma caixa d´água sem funcionar. “Terminaram a obra há quatro meses, mas o projeto não foi concluído. Agora os canos ressecaram porque deixaram expostos ao sol”, comenta o professor Antônio Iranildo Freitas Silva.

Já as crianças que estudam na Creche Criança Esperança, em Tejuçuoca, precisam trazer de casa a água para beber. Em cada garrafinha, etiquetada com o nome do aluno, há água de colorações diversas: barrenta, amarelada, quase limpa, meio suja. Há um dessalinizador, mas está quebrado.

A aposentada Margarida Freitas chora diante da falta de água em Catitu de Cima (Pacoti). Os poços estão secando e não há açude

A aposentada Margarida Freitas chora diante da falta de água em Catitu de Cima (Pacoti). Os poços estão secando e não há açude

Em Tauá, cacimbão é cavado %22no braço%22 pelos moradores da região. A areia retirada influencia na qualidade da água

Em Tauá, cacimbão é cavado %22no braço%22 pelos moradores da região. A areia retirada influencia na qualidade da água

Luís Venerando Sobrinho mostra a água, de aparência leitosa. O recurso é consumido depois de coado em um pano

Luís Venerando Sobrinho mostra a água, de aparência leitosa. O recurso é consumido depois de coado em um pano

por MAURI KÖNIG

Abandono do Semiárido começou há dois séculos, na época do Império. Nordestinos fugiam para o Sudeste ou eram levados para desbravar outras regiões do país. Foto Alexandre Mazzo

Abandono do Semiárido começou há dois séculos, na época do Império. Nordestinos fugiam para o Sudeste ou eram levados para desbravar outras regiões do país. Foto Alexandre Mazzo

A seca, realidade sempre presente no Semiárido brasileiro, tem como consequên­cias diretas a fome, a desnutrição, a miséria, a morte, o êxodo rural. Toda essa tragédia, em boa medida, forjou uma nova geopolítica nacional com base em uma diáspora imposta pela intolerância da seca. A despeito das glórias do passado, do seu papel na construção do país, o Nordeste de hoje se tornou um bode expiatório para aqueles que discursam sobre o desperdício do dinheiro público na sua recuperação. Mas é preciso pôr na balança o que o Nordeste já fez.

FOTOS: Veja slideshow da seca no Nordeste

O Nordeste foi a região mais rica e povoada do território brasileiro nos três séculos seguintes ao Descobrimento. Centro da produção açucareira até o fim do século 19, a queda dos preços do açúcar e do algodão fez a economia estagnar. Embora a água fosse escassa, antes a terra vasta e plana fez do sertão grande produtor de gado, levando carne e couro para toda a Colônia no século 17. A seca, sempre presente, foi agravada pela ocupação irregular do solo e a devastação da natureza. Desde o Brasil Colônia nunca houve políticas públicas para a região.

A seca de 1791 a 1793 tornou a vida mais difícil. A vegetação não se recuperou. A seca de 1877 a 1880 piorou o cenário, e se criou o conceito de retirante, o sertanejo que deixa sua terra para escapar dos efeitos da estiagem. Pela primeira vez o governo tentou uma política de salvação para o sertão: dom Pedro II importou camelos do Saara. Porém, as raízes do problema eram mais profundas. Em número quase quatro vezes maior do que a população de Fortaleza, os proscritos da seca ocuparam a capital do Ceará. O resultado foram epidemias, fome, saques e crimes.

Evasão em massa

À época começaram os primeiros movimentos migratórios significativos. O Ceará tinha 800 mil habitantes, dos quais 120 mil emigraram para a Amazônia e 68 mil se dirigiram a outros estados. Outra grande seca assolou a região em 1915. Para evitar nova invasão a Fortaleza, os governos estadual e federal criaram campos de concentração na periferia das grandes cidades para recolher os flagelados. Nova seca catastrófica em 1932, e outra vez foram sete os campos de concentração no Ceará, encarcerando 105 mil retirantes, recrutados para trabalhar de forma compulsória nas obras públicas.

Nas secas seguintes, os governos desistiram dos campos de concentração e começaram a estimular o sertanejo a abandonar suas terras. Passaram a planejar a migração maciça para o Oeste, de forma a povoar os sertões do Mato Grosso, num movimento migratório conhecido como Marcha para o Oeste.

Até o século 19, cinco entre dez brasileiros viviam no Nordeste, proporção que caiu para quatro entre dez no início da década de 1990, embora ali a taxa de natalidade seja maior do que no restante do país. O Censo de 1950 verificou que mais de 2 milhões de nordestinos haviam migrado para outras regiões do país. Entre 1950 e 1980, as grandes metrópoles do Sudeste tornaram-se o destino da maioria dos retirantes. Hoje, 12% da população da cidade de São Paulo é composta por migrantes nordestinos.

Conviver com a seca, a palavra de ordem

Não se pode combater a seca porque, como fenômeno natural, ela sempre se repete. O que se pode fazer é conviver com as condições climáticas. “Essa é a palavra, convivência”, diz o agrônomo e pesquisador da Fundação Joaquim Nabuco João Suassuna. Tecnologia existe, mas nada aproveitada. Suassuna indica duas alter­­nativas mais prudentes como alternativa econômica para o Semiárido.

A primeira, criar gado adap­­tado à condição de seca. A Paraíba está tendo bons resultados com bois das raças guzerá e sindi, oriundas dos desertos da Índia e do Paquistão. Em grande escala, pode-se repetir o sucesso dos caprinos e ovinos, que se adaptaram bem ao clima do Nordeste desde sua chegada à época da colonização. O alimento para os rebanhos pode vir da segunda alternativa: plantas adaptadas ao meio para servir de forragem.

Há uma tecnologia de plantio adensado de palma, com alto ganho de produtividade. O bioma caatinga tem plantas que ao longo das eras se adaptaram à aridez, desenvolvendo meios de reserva de água para os períodos secos. Na caatinga há plantas produtoras de látex, mel, fibra, energia (para queimar como lenha) e alimento para o gado.

“Temos de fazer um extrativismo sustentável das plantas que existentes no bioma”, diz Suassuna. Mas ele observa com pesar o desperdício desse potencial. “A tristeza é que sabemos que conhecemos pouco esse bioma e o estão destruindo”. No extremo de Pernambuco fica a maior mina de gipsita do mundo. Para extrair o gesso é preciso calfinar o mineral, queimá-lo em fornalhas. Para isso, estão usando a caatinga. “Está virando carvão, estão acabando com um bioma que pouco se conhece.”

A família de Josafá Pereira dos Santos, 47 anos, tenta se adaptar ao meio. Ao todo, 15 pessoas viajam de carroça três quilômetros todos os dias de Mirandiba até Angico Verde (PE) para trabalhar. Carregam água em baldes para irrigar os pés de feijão e macaxeira.

Josafá Pereira dos Santos e sua família voltando depois de um dia de trabalho Mirandiba-Pernambuco Foto Alexandre Mazzo

Josafá Pereira dos Santos e sua família voltando depois de um dia de trabalho Mirandiba-Pernambuco. Foto Alexandre Mazzo

 

Tragédia brasileira
Intermitências da seca provocaram a morte de 3 milhões de nordestinos

A morte ronda diuturnamente o sertanejo no Semiárido, no lastro das secas que forjam a mais triste e previsível tragédia brasileira. Fustigado pelo desejo de quantificar as perdas humanas, o pesquisador Marco Antônio Villa contou os mortos nas principais estiagens ocorridas no Nordeste entre 1825 e 1985. Chegou a 3 milhões de vítimas, conforme narra em Vida e Morte no Sertão (Ática, 2000). Só a seca de 1877-1879, a mais terrível, dizimou 4% da população nordestina à época.

O saldo de mortos se deu, em grande medida, ao imobilismo das autoridades públicas, numa demonstração de negligência, violência, corrupção, manipulação e clientelismo. Villa reconstituiu o contexto e conjunturas para retratar os efeitos das secas sobre a economia regional, o fenômeno das migrações orientadas pelos governos, a indústria da seca, os saques perpetrados por retirantes desesperados, as epidemias, frentes de trabalho de caráter puramente assistencialistas.

Realidade ou ficção?
Vida do sertanejo em meio à aridez abasteceu a literatura nacional

Há realidades que, de tão inverossímeis, só a ficção para melhor explicá-las. A seca no Semiárido brasileiro, por exemplo, abasteceu a literatura mundial de grandes escritores. À literatura se incorporou a fase do ciclo das secas, tamanho o volume de romances que tinham como tema central a estiagem e a vida no sertão. José de Alencar (1876) inaugurou a série com a publicação O sertanejo, e o período se estendeu até a primeira década do século 20.

São três os personagens principais da literatura do ciclo das secas: o cangaceiro, o beato e o retirante. Nenhum livro desse período teve tanta influência quanto Os sertões, uma obra que mistura sociologia, literatura e reportagem de guerra, escrita por Euclides da Cunha. Numa clara admiração pelo sertanejo, o escritor buscou retratar sua resiliência com os rigores da natureza e carregou nas críticas ao governo federal pelo desprezo no tratamento dispensado a essa gente.

Outros escritores consagrados dedicaram seu talento literário a retratar a vida do sertanejo.

Publicado in

Gazeta do Povo

Jornal de Londrina

Gazeta Maringá